Pode um médico humanitário, que trabalhou em algumas das zonas do planeta mais devastadas pela guerra e pela pobreza extrema, manter acesa a esperança num mundo melhor? Pode alguém com uma doença para a qual não se conhece cura, e que provoca dores intensas 24 horas por dia, continuar a lutar para construir esse mundo? A resposta a ambas as perguntas é “sim” e tem um nome: Gustavo Carona, 44 anos, médico anestesista e intensivista formado na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, que mal terminou o curso abraçou o voluntariado para poder salvar vidas onde poucos – ou mesmo ninguém – sabiam fazê-lo. De Moçambique à Síria, do Burundi à Palestina, passando pelo Paquistão, a República Centro-Africana, o Iémen ou o Iraque, Gustavo Carona esteve ao serviço de ONG como os Médicos do Mundo, a Cruz Vermelha Internacional e os Médicos Sem Fronteiras, sempre movido pelo mesmo lema: “Não vale a pena viver, se não for por algo por que estejamos dispostos a morrer”. Há quatro anos e meio, viu-se forçado a parar. Uma doença para a qual ainda hoje continua sem diagnóstico e aparentemente incurável obriga-o a passar a maior parte do tempo em casa, deitado, posição em que as dores se tornam um pouco menos insuportáveis. Foi assim, de resto, que deu esta entrevista ao 7MARGENS. E que escreveu o seu mais recente livro, Olhem para o mundo com o coração, ou que lançou uma petição para que o Governo português reconheça o Estado da Palestina. Não foi olhos nos olhos – porque havia dois ecrãs a intermediar esta conversa que aconteceu por videochamada – mas foi bem de frente para a câmara do computador portátil que Gustavo Carona reconheceu que já teve vontade de cometer suicídio – e que é um firme defensor da legalização da eutanásia. Mas também partilhou que, sendo ateu, encontrou numa freira uma das pessoas que mais o inspiraram. E contou ter descoberto um modo de dar continuidade ao sonho humanitário. Um sonho que ainda comanda a sua vida.
7MARGENS – O que é que o levou a dedicar-se à medicina humanitária?
Gustavo Carona – Há pessoas que estão à espera que eu diga que já brincava aos hospitais de campanha quando tinha cinco anos, mas não é verdade… [Risos] Este sonho só nasceu já eu estava a estudar Medicina. E quanto às razões que me levaram até ele, julgo que foram sobretudo duas. Uma mais abstrata, que tem a ver com os diferentes filmes, documentários, livros que me deram a conhecer histórias de vida de pessoas que tinham escolhido este caminho, dentro da Medicina em particular, e que me inspiraram a querer fazer algo do género. Fiquei altamente sensibilizado com muitas histórias de vida, com percursos dentro do humanitarismo, que me pareceram extremamente bonitos, e comecei a sonhar: “também eu gostava de fazer isto”… Gostando de ser médico, ajudar pessoas que precisam infinitamente mais de cuidados médicos do que aquilo que eu via à minha volta em Portugal. Claro que aqui também é preciso médicos e há de ser sempre preciso mais! Mas se não somos racistas, se não somos xenófobos, percebemos que há locais no planeta onde os conhecimentos da Medicina são muito mais importantes. E essas sementes que foram deixando em mim diferentes pessoas, diferentes histórias de vida, fizeram-me querer ir atrás deste sonho.
A outra razão, mais concreta, teve a ver com a minha primeira viagem a África, que foi a Moçambique. Foi uma viagem absolutamente turística, que não tinha propósito nenhum para além da diversão e do turismo, mas foi o meu primeiro contacto com a pobreza extrema. Na altura, Moçambique era considerado um dos países mais pobres do mundo, era um dos países com um rácio de médico por habitante mais baixo do mundo, e aquela pobreza que vi, principalmente na capital, Maputo – acho que depois a pobreza rural impressiona-nos menos – mas a pobreza urbana é extremamente impactante e perceber que às vezes temos pequenos luxos na nossa vida que dariam para alimentar tanta gente deixou-me quase a sentir-me obrigado a ir atrás da minha coerência moral. Ou seja, se eu gosto de ser médico e se aqui há tantas pessoas que precisam mais dos meus conhecimentos, e se felizmente em Portugal eu sou mais um, então é por aqui que eu gostaria de ir.
7M – Mas, ainda antes disso, aquilo que se passava na Faixa de Gaza foi talvez a primeira causa humanitária que despertou a sua preocupação, não foi?
Ah, sim… O meu pai sempre comprou o Público diariamente e eu tenho umas vagas ideias de, por volta dos 18 anos, pegar no jornal, ler algumas coisas, e sentir que a questão de Israel-Palestina mexia muito comigo. Não diria que o ímpeto de me dedicar à medicina humanitária nasceu daí, mas terá sido o primeiro assunto além-fronteiras que me tocou, sim.
7M – Esteve a trabalhar lá há cerca de cinco anos e ainda hoje é uma causa pela qual continua a lutar. Como encara o que se passa atualmente?
Em primeiro lugar, é importante dizer que a Palestina não é a minha causa… A minha causa é a Humanidade! Não tenho causas preferidas, nem tenho causas mais importantes só porque estão nos holofotes… Neste momento, por exemplo, estou muito preocupado com o que se passa no leste do Congo, que agora até aparece nas notícias, mas amanhã já ninguém sabe… e é a pior guerra desde a Segunda Guerra Mundial. E é triste que olhemos para a Palestina com tanta atenção e com zero atenção para o Congo. Portanto, antes de falar da importância que dou à Palestina, quero dizer que, para mim, é mais um local do planeta onde vejo que há muitas pessoas a sofrer que não deveriam estar a sofrer, e onde nós podemos fazer melhor.
7M – E nesse “nós” inclui o Governo português…
Sim, porque somos perentórios a acusar a Rússia e a defender a Ucrânia, a dizer que se trata da soberania de um Estado que está a ser atacado por outro… Falamos de crimes de guerra, crimes contra a Humanidade, falamos da importância do direito internacional, de Vladimir Putin ter um mandato de captura… Isso para nós é uma evidência. E em relação à Palestina há uma total inversão do discurso: todos os civis que morrem são danos colaterais, o bombardeamento de hospitais, de estruturas humanitárias… nem os jornalistas têm respeito pelo facto de ser a maior mortandade de jornalistas da História desde que há registos, ou seja, desde o pós-Segunda Guerra Mundial. Há uma série de recordes que estão a ser batidos de desumanidade: nunca morreram tantas crianças per capita num conflito, nunca morreram tantos trabalhadores humanitários, nunca morreram tantos profissionais de saúde, nunca morreram tantos civis versus militares, e nós temos um silêncio altamente cúmplice.

Gustavo Carona à entrada na Faixa de Gaza. Foto: Direitos reservados
7M – Daí ter lançado, juntamente com a atriz Joana Seixas, uma petição para que o Governo português reconheça o Estado da Palestina, que já foi subscrita por mais de dez mil pessoas…
Sim, porque Portugal reconheceu o Estado de Israel há muitos muitos anos e não consegue reconhecer o Estado da Palestina, mas depois advoga a política dos dois Estados. Ora, eu não percebo muito de política internacional, mas não sei como é que se defende uma política de dois Estados quando só se reconhece um deles, e quando não se condena aquilo que são comprovadamente crimes de guerra, comprovadamente crimes contra a humanidade, e provavelmente o genocídio. E só uso aqui a palavra “provavelmente”, porque admito que está em julgamento. Mas a ação, a intenção, o discurso por parte do Governo israelita – portanto não são franjas fora da linha do poder – é genocida. É dizer que todos os palestinianos são Hamas, são criminosos, são terroristas. Este discurso prova aquilo que na minha opinião é declaradamente um genocídio, e é o genocídio mais documentado da História. E para a História também fica a posição portuguesa, que é de cúmplice, e acho que não é preciso explicar o que a palavra “cúmplice” quer dizer… Estamos num momento de cessar-fogo, e ainda bem, mas não tenho esperança nenhuma de que isto venha a ser benéfico a longo prazo para o povo palestiniano. Neste momento, já há incursões na Cisjordânia extremamente violentas, portanto há um plano declarado de eliminação daquilo que é a terra palestiniana. Um genocídio, por definição, não é necessariamente um extermínio até ao último homem ou mulher, é uma eliminação de parte e com uma intenção de limpeza étnica de um povo, seja pela sua cor, pela sua religião, ou por qualquer outra forma de identidade, e não tenho qualquer dúvida de que é isto que está a acontecer na Palestina.
7M – Considera também que a criação do Estado de Israel é um erro histórico…
Sim, pelo simples facto de que é sustentada na religião. E, na minha opinião, a política, a soberania de Estado, nunca, em caso algum, deveria ser misturada com religião. Esse é o grande problema de alguns Estados, e Israel é um deles. Muita gente gosta de dizer que Israel é a única democracia do Médio Oriente. Mas para mim não é: é uma teocracia, uma etnocracia, em que na lei há discriminações contra não-judeus.
7M – O Papa Francisco defendeu publicamente que um possível genocídio em Gaza deveria ser investigado, e foi bastante criticado por isso… Acha que os líderes religiosos deveriam ter um papel mais interventivo na resolução dos conflitos?
Sou ateu e não sei qual é que é suposto ser o papel dos líderes religiosos nestas questões… Normalmente, estamos habituados a uma intervenção mais neutral da parte do Papa, a discursos bonitos, com cujo conteúdo todos concordamos, sobre a paz, a fraternidade, a tolerância pelas diferenças e tudo o mais. O facto de ele ter tido a coragem de apontar o dedo a Israel surpreendeu-me a mim e penso que surpreendeu o mundo inteiro, porque sabemos que rapidamente quem aponta o dedo a Israel é acusado de antissemitismo.
Ainda na semana passada foi a celebração dos 80 anos do Holocausto e ouvimos vozes e vozes a dizerem que Israel está a fazer um segundo Holocausto em Gaza. Penso que a primeira religião que se devia manifestar sobre isto é a própria religião judaica. Estamos muito habituados a criticar o extremismo islâmico, mas esquecemo-nos de que há extremismo em praticamente todas as religiões… E qualquer grupo, qualquer Governo que instrumentalize a religião para ter poder, para se impor, para definir uma supremacia, para discriminar, deveria ser automaticamente criticado pelos líderes religiosos dessa mesma religião…
Não conheço ao detalhe a organização da religião judaica, mas nunca vi nenhum líder religioso judaico a condenar as ações do Governo de Israel. Vejo muitos judeus a fazê-lo, e até há uma estatística interessante nos Estados Unidos que diz que dois terços dos judeus americanos estão contra o que se está a passar em Gaza, e apenas um terço dos judeus americanos está a favor. E tendo em conta que as religiões, em geral, têm na sua génese valores extremamente bonitos e comuns, posso dizer que sim, gostaria de ver mais líderes religiosos com essa coragem. Quem usa a religião, seja ela qual for, para fazer o mal, deveria ter os responsáveis dessa mesma religião a dizer “em nosso nome, não”… que é o que dizem muitos judeus.

O Papa junto a um presépio em madeira de oliveira, feito por artesãos cristãos de Belém e montado na Sala Paulo VI, no Vaticano, em que o Menino Jesus está deitado sobre um “kaffiyeh” palestiniano. Foto © Vatican News.
7M – É ateu, apesar de ter crescido numa família católica… Em que momento é que deixou de acreditar em Deus, e porquê?
Sim, eu fui batizado, fiz a Primeira Comunhão, o Crisma… Mas quando comecei a pensar pela minha cabeça, tinha 15 ou 16 anos, e com uma educação científica, comecei a levantar questões: “Se nós vimos dos primatas, onde é que entra Deus neste caminho?”, “Se a Humanidade tem cerca de 200 mil anos, porque é que Jesus Cristo apareceu há dois mil?”, “Porque é que as grandes religiões surgiram todas há dois ou três mil anos?”. Costumo dizer que tinha de escolher entre acreditar em Darwin ou acreditar em Deus. E a mim fazia-me mais sentido acreditar em Darwin! Não acredito que exista nada para além daquilo que a ciência pode explicar, mas o homem sente-se demasiado só e demasiado medroso em relação à morte, e por isso tem a necessidade de acreditar em algo maior.
7M – A sua experiência como médico humanitário fê-lo reforçar a descrença em Deus?
Não é descrença em Deus, é ausência de crença, que eu acho que é um bocadinho diferente. Ver o sofrimento numa escala muito maior não me fez mudar rigorosamente nada a minha opinião, até porque fez com que tivesse contacto com outras crenças, outras formas de ver a vida e a morte, e quantas mais eu conhecia mais reforçava a minha convicção de que a religião é inventada pelo homem, é uma mentira. É uma mentira coletiva que faz as pessoas sentirem-se bem. Ao ver o mundo, só vi mais mentiras diferentes. E quanto mais mentiras nós vemos, mais percebemos que todas elas estão erradas.
7M – Ainda assim, partilha no seu último livro (Olhem para o Mundo com o Coração) que decidiu ir à missa no dia de Natal, quando estava no Burundi…
Sim, e não conto outra história, de quando estive pela segunda vez no Congo… Eu estava precisamente a trabalhar na cidade de Goma, que é neste momento palco de gravíssimos confrontos… Entrávamos todos os dias às oito e meia. Todos… menos à quinta-feira, dia em que só começávamos a trabalhar às nove e meia, porque havia a missa! E a missa era lá no hospital, numa sala de reuniões grande, que dava para umas cem pessoas. E eu, como já tinha aquela rotina de entrar às oito e meia, ia na mesma a essa hora, porque enquanto os congoleses estavam na missa podia aproveitar para ir adiantando algumas coisas. Mas, não raras vezes, encostava-me à parede, a ouvi-los a cantar… E nem sequer percebia o que cantavam e diziam, porque a missa era em suaíli, mas aquilo era tão bonito, tão bonito, tão bonito… aquela espiritualidade, aquela bondade em forma de música, em coletivo… A ressonância daquele som fazia com que eu não precisasse de compreender a língua para perceber que estava ali algo de muito bonito!

Gustavo Carona com o seu mais recente livro, Olhem para o mundo com o coração, cujas receitas revertem para 10 ONG. Foto: Direitos reservados
7M – Não se sentiu identificado ou atraído por nenhuma das religiões ou modos de viver a religião que foi conhecendo pelo mundo fora, nas suas missões?
Acho que se consegue tirar coisas boas e más de quase todas… Quando ainda era adolescente, li um livro sobre a vida de Buda que, à semelhança de Jesus Cristo, é muito interessante. E fiquei surpreendido quando percebi que, no budismo, não utilizam a palavra “acreditar”. Porque acreditar pressupõe tomar como verdade algo que desconhecemos, daí “acreditar” ser a palavra mais usada em relação às divindades. E no caso do budismo não há aquele ser superior, que está acima das nuvens, como na maioria das religiões. Identifiquei-me com isso… Mas a hipótese da reencarnação, por exemplo, parece-me anedótica. Ao conhecer as religiões africanas, muito baseadas no animismo, e que variam de tribo para tribo, também descobri coisas muito engraçadas. E conheci relativamente bem o islamismo, porque vivi em muitos países muçulmanos. Mas não me identifico com nenhuma religião.
7M – As crenças religiosas – neste caso, dos outros – impediram-no algumas vezes de realizar o seu trabalho como médico… De que modo é que lidou com isso?
Isso já me aconteceu em variadíssimos lugares e com diferentes religiões. Desde Portugal, onde temos problemas gravíssimos com as Testemunhas de Jeová, até África, onde me aconteceu recusarem a amputação de uma perna por acharem que o corpo não pode ir para o céu se não for inteiro, ou no Paquistão, onde um marido recusou a cesariana à mulher por motivos religiosos. Mas para mim é o mesmo que ver as pessoas a recusarem as vacinas, por causa de uma mentira na Internet. São pessoas que não aceitam o conhecimento médico, em seu prejuízo, apesar de devidamente informadas, e estão no seu direito. Às vezes, dói-nos horrores sentir que podemos ajudar e não nos deixam, mas é o nosso limite. Nós não somos polícias nem militares, portanto não podemos forçar. Acho que esta ética médica é mais ou menos transversal ao mundo inteiro: não podemos forçar o tratamento a ninguém, uma criança também só pode ser tratada mediante o consentimento dos pais, e não vejo aí tanto uma questão religiosa, vejo sim aquilo que algumas pessoas identificam como os limites da aceitação das propostas médicas.
Mas acredito mesmo que a ciência, ao contrário da religião, deveria entrar na política. E fico mesmo triste que não se perceba a importância de uma plataforma sólida de ciência que não é passível de interpretação. O racismo é punido por lei, mas dizermos que as vacinas não funcionam não é punido por lei. Pergunto: quantas pessoas em Portugal morreram de racismo e quantas pessoas morreram por não terem sido vacinadas? E agora expliquem-me porque é que uma coisa é punida por lei e a outra não…
7M – Nos lugares por onde passou, cruzou-se com missionários cristãos?
Não muitos, talvez pelas regras apertadas de segurança a que estamos sempre sujeitos, mas cruzei-me com alguns, sim, e não tenho problemas em dizer que sinto uma grande admiração por muitos padres e freiras. Aliás, uma das pessoas mais inspiradoras que conheci em toda a minha vida foi uma freira, na República Centro-Africana. E essa é uma história que já contei numa TED Talk, mas ainda está por escrever. Gostava de a escrever um dia…
7M – Pode contar-nos?… Tenho a certeza de que os leitores do 7MARGENS vão gostar de saber!
Posso! Estava a trabalhar em Bangui, que é a capital, e a certa altura fiz uma missão quase de exploração com um amigo inglês. Ele não estava ligado à parte médica, estava ligado à parte do diálogo entre grupos armados, e eu fui com ele para tentar perceber que tipo de estruturas de saúde é que existiam nestes locais, se havia alguma forma de criar canais de comunicação para que depois nos enviassem doentes para Bangui, porque nestes sítios não há nada, mas nada, nada, nada. Lembro-me de que entrei uma vez num centro de saúde, e aquilo era uma cabana, um espaço de três por quatro metros quadrados, que não tinha um único medicamento, tinha apenas uma marquesa. Isto era o centro de saúde.
E num dos sítios que visitámos, um dos mais perdidos no planeta em que já estive – e atenção porque a distância não tem a ver com os quilómetros, tem a ver com a percepção da ausência total de civilização, e aqui não tínhamos nem sinal de telemóvel, nem sinal de rádio, nem de alta nem de baixa frequência, nem sinal de satélite… estávamos completamente incomunicáveis – foi aí que conheci a irmã Daniela. A terra chama-se Niem e guardo até hoje o livrinho que ela me deu, dos 25 anos daquela missão. Era uma missão católica italiana e nós íamos dormir lá, porque era o único sítio onde havia condições para tal… A missão tinha uma escola, uma igreja e um hospital. Visitei o hospital – tive pena de não conhecer o médico, que era também padre, porque ele estava fora na altura – e apercebi-me de que, dadas as condições, eles faziam milagres, no sentido não literal da palavra. Faziam coisas absolutamente incríveis! O hospital tinha condições muito básicas, mas estava muito bem organizado, e era muito bom para aquilo que é o nada destas pessoas.
A certa altura, estava na cozinha a falar com a irmã Daniela, que era italiana e que já estava lá há quase 30 anos. Era uma senhora muito velhinha, que devia ter 70 e muitos anos, e tinha assim aqueles olhos claros dos velhinhos… E como aquela era uma região onde, não raras vezes, os grupos armados disparavam não se sabe muito bem para quê nem para onde (assim numa dicotomia muito simples, houve matanças de grupos de muçulmanos para com cristãos, e matanças de grupos de cristãos para com muçulmanos), eu fiz-lhe aquela pergunta que nós, profissionais humanitários, quando trabalhamos em zonas de guerra, é das primeiras coisas que aprendemos: “Qual é o plano de evacuação, se isto der asneira, se as coisas aquecerem?… Quando desatam todos aos tiros e isto fica perigoso, como é que vocês fazem para se irem embora?” E ela, que falava um francês muito bonito com sotaque italiano, virou-se para mim com um olhar muito calmo e só me disse: “Gustavo, nós nunca nos vamos embora! Quanto mais isto aquece, quanto mais problemático isto fica, mais eles precisam de nós e mais é importante nós ficarmos aqui… Portanto, nós nunca nos vamos embora.” E eu senti assim um golpe de inspiração e ao mesmo tempo de humildade. Porque, por mais que tentasse dizer a mim próprio “Não é nada de especial estar na República Centro-Africana como médico há três, quatro meses…”, tinha consciência de que pelo menos frequente não era, e portanto era algo que pouca gente faz. Mas tentava cultivar muito a minha humildade. E quando vejo uma pessoa que está ali há quase 30 anos com este discurso, com esta entrega, com este amor, compreendo que isto, sim, é abnegação. Isto, sim, é dedicar a vida aos outros.
Foi das frases, conversas, momentos mais inspiradores da minha vida. Depois, falou-me de Jesus e perdeu-me um bocadinho nessa conversa [risos], mas o essencial ficou, que é essa vontade de ajudar, esse amor ao próximo, ao desconhecido. Costumo dizer que isso é aquilo que é mais difícil, porque amarmos os nossos é fácil, nós temos é que trabalhar o amor ao desconhecido. E a irmã Daniela deu-me realmente esse golpe de inspiração que foi das coisas mais poderosas que guardo até hoje.

Gustavo Carona com alguns dos enfermeiros com quem trabalhou na República Central Africana. Foto: Direitos reservados
Isso leva-me a uma passagem quase no final do seu livro, em que escreve: “Parece que a vida é isto. Não há vida sem morte, não há amor sem sofrimento. (…) Temos de valorizar a vida e aceitar a morte. Viver para amar, mas sem morrer de desgosto”. Escreveu isto já deitado na cama, onde passa a maior parte do tempo devido à doença. Como é viver com este sofrimento? É possível que ele valorize, de algum modo, a vida?
Em relação à minha doença, dividiria o sofrimento em dois tipos. Em primeiro lugar, o sofrimento daquilo que ela me tirou: neste caso, a capacidade de exercer Medicina, a capacidade de socializar e de com frequência ir a um restaurante, viajar… Ou seja, uma série de coisas que eram praticamente a matriz da minha vida. Mas, em relação a esse sofrimento, acho que ele é digerível, da mesma forma que acho que um paraplégico se consegue adaptar – e espero que as pessoas não me levem a mal, porque há sempre a possibilidade de ser mal interpretado. O que quero dizer é que quem perder as pernas pode, por exemplo, adaptar-se a uma prótese, pode ter uma vida perfeitamente feliz. Acho que se nós fizermos o luto de determinadas competências da nossa vida, e acho que isso toda a gente consegue fazê-lo, até podemos eventualmente retirar daí enormíssimas aprendizagens e crescimentos, até em termos espirituais, em relação à forma como olhamos para nós próprios, para o que é realmente importante na vida… Às vezes, estas doenças, ao tirarem-nos competências, ao tirarem-nos capacidades, podem ser até enriquecedoras. Isso é uma parte. A outra parte, que é muito mais difícil para mim, é a dor com que vivo permanentemente…
7M – Está a sentir dor neste momento?
Sim, eu tenho dores 24 horas por dia. Começou há quatro anos e meio e foi-se agravando…
7M – E a perspetiva é de que a doença se agrave cada vez mais?
Não sei. Para já, é difícil ter uma perspetiva, na medida em que não tenho um diagnóstico a 100%. O que tenho são interpretações diagnósticas e, quando assim é, quando o diagnóstico não é evidente, é difícil saber o prognóstico. Fiz uma cirurgia em setembro que me trouxe algum alívio, mas provavelmente foi mais direcionada ao controlo dos sintomas e não tanto à origem da doença. Desde novembro, sinto que estou mais ou menos estável e menos mal do que antes, e capaz de estar a ter esta conversa… Antes disso, durante quase um ano, estive absolutamente desligado no meu sofrimento por incapacidade total de conversar, de interagir, de escrever, de fazer o que quer que fosse. Vivia literalmente para sofrer.

Gustavo Carona a trabalhar, em sua casa, onde passa a maior parte do tempo deitado por causa das dores. Foto: Direitos reservados
7M – Teve vontade de pôr termo à vida.
Tive. Estive próximo disso, e essa ideia não desapareceu, só se atenuou… e porquê? Porque o suicídio é muito cruel para quem cá fica. Eu, ainda para mais enquanto médico, com os conhecimentos que tenho, conseguiria fazê-lo sem grande sofrimento. Mas para aqueles que nos amam é muito mais cruel. A única coisa que me fez não me suicidar foi realmente a minha tentativa de não ser egoísta em relação às pessoas que mais gostam de mim, nomeadamente a minha mãe e a minha irmã, por sentir que podia, talvez até no sentido literal e não metafórico, matá-las a elas, se me matasse a mim.
7M – Tem defendido a legalização da eutanásia. Nesse caso, seria menos cruel?
Acho que uma pessoa deveria ter a capacidade – e eu vou lutar sempre por isso – de ter um botão vermelho para carregar nele caso não aguente mais. E isto nunca pode ser decidido num momento de desespero. Tem que ser decidido, juntamente com uma equipa médica, com uma equipa de apoio psicológico e tudo mais, quando se chega à conclusão de que a pessoa prefere não viver a viver neste sofrimento. Acho que, por mais sofrimento que eu causasse aos que me amam ao tomar uma decisão dessas, sei que perceberiam melhor se fosse um processo de morte assistida, de eutanásia. Sem dúvida que uma pessoa pode aprender muito com uma doença, pode enriquecer muito com uma doença, mas viver com sofrimento permanente, para mim, não é digno, não é humano. Infelizmente, ao dia de hoje, sei que estou com esta calma toda a falar, mas estou ainda em risco de suicídio, porque é uma coisa que não passa assim com muita facilidade…
7M – Como é que encara a morte?
Vejo a morte com naturalidade. Nós nascemos e depois morremos, e só faz sentido andar aqui nesta vida enquanto a vida for boa para mim e eu conseguir com a minha vida também fazer coisas boas para os outros. Se não sentir isso, acho que só estou a ocupar espaço. E sei que ninguém está a medir, mas há uma taxa de sofrimento global e uma taxa de felicidade global e eu neste momento tenho estado a pender para o negativo e não queria… Acima de tudo, digo e repito, para mim, viver para sofrer não é viver. E isto, para quem tem uma doença crónica incurável – aparentemente incurável, porque o tempo pode vir a dar respostas diferentes… – faz com que eu gostasse muito de poder ter esse botão vermelho.

Gustavo Carona junto de uma criança que havia sido baleada no pé, no Burundi. “Só faz sentido andar aqui nesta vida enquanto a vida for boa para mim e eu conseguir com a minha vida também fazer coisas boas para os outros”. Foto: Direitos reservados
7M – Numa conversa que teve recentemente com o jornalista José Milhazes, a propósito do relançamento do seu livro, houve uma pergunta que o Gustavo lhe fez e que eu agora gostaria de lhe fazer a si… Face ao contexto tão negativo em que vivemos, e tendo em conta a situação em que pessoalmente se encontra, consegue manter esperança no seu coração?
Consigo. Tenho muita esperança na Humanidade… apesar de todas as críticas que lhe tenho vindo a fazer até agora! E sei que isto pode parecer muito romântico, mas é mesmo uma forma que fui construindo de viver, que se calhar é quase uma carapaça para a minha sobrevivência, que é achar que todos os problemas do mundo são culpa minha. E depois isto permite-me achar que também posso fazer parte de todas as soluções para os problemas do mundo. Então, só preciso de concentrar-me nas soluções e não tanto nos problemas. Ou melhor, olhar para os problemas de frente. E estar mais focado, perder mais tempo do meu pensamento e das minhas emoções, em ajudar.
Até agora, por mais conflitos que tenha visto, continuo a achar que o ser humano é mais bom do que mau, e que a nossa natureza é viver em cooperação e não matar-nos uns aos outros. Todos sabemos que a História é feita de guerras terríveis, e aquilo que nós estamos a viver aos dias de hoje não é nada de novo, a única coisa nova pode ser a tecnologia.
Mas tenho esperança na Humanidade porque acho que crescemos muito no sentido daquilo que é a nossa percepção de cidadania global. Isso está a ser um bocadinho combatido pelo nacionalismo, que é um dos maiores cancros da sociedade, e não tenho medo aqui de usar palavras políticas, da extrema-direita, do nacionalismo, do individualismo, que são autênticos cancros para a Humanidade. Mas acho que a tendência natural do homem será organizar-se para o bem comum.
7M – Tem menos esperança no que diz respeito às alterações climáticas…
Sim, a única coisa que realmente me deixa pouco esperançoso em relação ao futuro da Humanidade são as alterações climáticas. E aí a cooperação de todos os cidadãos do mundo, nomeadamente os mais poderosos, os mais poluidores não está a acontecer. Os Estados Unidos saem dos acordos de Paris. Os maiores produtores de petróleo per capita, que são da Península Arábica, são idolatrados agora pelos jovens, pelo Cristiano Ronaldo, que apesar de ser trilionário se vende a quem está completamente disponível para destruir o planeta… Sem dúvida que o maior desafio para os seres humanos neste momento, são as alterações climáticas, a começar pela tomada de consciência.
Temos que assumir que, se continuarmos assim, vamos caminhar para a nossa autodestruição. Já estão a morrer milhares, milhões de pessoas por causa das alterações climáticas de uma forma direta ou indireta. Há estudos que preveem que, no final do século, vão morrer mais pessoas pelo calor do que por doenças oncológicas e cardiovasculares juntas! Mas a maior parte das pessoas está em negação, porque somos egoístas e imediatistas… É como o chocolate: a tentação do prazer do imediato leva-nos a cometer um erro e faz com que não nos preocupemos com aquilo que são as consequências no futuro. Dá-nos mais jeito pegar no carro, andar de avião, comer carne… tudo aquilo que aumenta as emissões de CO2… E atenção: eu não sou vegano, mas adorava sê-lo, e vivo com a consciência de que tenho contradições no meu discurso e críticas às quais eu também me dirijo como objeto criticado! Agora, a tomada de consciência é a primeira grande fase para a resolução de um problema e acho que ainda não está consolidada. A tomada de consciência sobre a perigosidade do aquecimento global e os porquês de cada uma das nossas atitudes no dia-a-dia. Vou dar um exemplo muito caricatural: separar o lixo. É importante, mas é um detalhe comparado com a utilização de carros ou de aviões, não é? Não estou a dizer às pessoas para negligenciarem a separação do lixo, estou só a dizer que isso não basta! Temos de perceber bem a dimensão de cada uma das ações da indústria fabril, temos de perceber quais são as indústrias altamente poluidoras, e qual o seu impacto na emissão de CO2 per capita.

Gustavo Carona dedicou a intervenção que fez no TEDxFunchal, em setembro de 2024, ao tema da justiça climática. Foto: Direitos reservados
7M – Esse tem sido também um dos apelos do Papa Francisco…
E ainda bem… Todas as vozes que se unam a esta causa serão ainda insuficientes, porque é muito fácil sabotá-la! Estive muito ligado à comunicação durante a pandemia e apercebi-me dos perigos da desinformação. E nessa altura fiz uma profecia de que o maior desafio dos próximos tempos, e estamos a vê-lo a acontecer, é a desinformação em relação às alterações climáticas. A partir do momento em que as negamos, não temos que as tratar ou não temos que as combater. Combater é extremamente complexo. Negar é fácil, é só dizer que os cientistas estão todos a mentir. E como vemos nos Estados Unidos, a negação ganhou. Democraticamente, escolheram uma pessoa ou várias pessoas que estão dispostas a matar-nos. Às vezes, é preciso usar palavras duras, mas é um assassínio coletivo desprezarmos a transição energética. Nós não premimos o gatilho, mas estamos a matar pessoas de uma forma muito direta.
7M – O seu ativismo, agora sobretudo nas redes sociais, é uma forma de dar continuidade ao sonho humanitário?
Sim, apesar de tudo, o sonho continua. Viktor Frankl, um médico psiquiatra austríaco, judeu, que esteve preso durante o Holocausto, escreveu um livro que muitos consideram intemporal, chamado O Homem em Busca de um Sentido. E nele fala na logoterapia, que é a terapia através do sentido para a vida. Nós precisamos realmente do sentido para a vida, quase como de um brinquedo. A mente humana precisa de brincar. E o meu sentido para a vida, com a minha doença, na impossibilidade de exercer Medicina, é de alguma forma ajudar outras pessoas com as minhas palavras, com os meus escritos, com as minhas ideias, com as minhas ações… empurrar outros jovens a seguirem este caminho, da mesma forma que alguns deixaram sementes em mim para que eu o seguisse. Este tem sido o meu sentido para a vida, este sonho humanitário que acho que é uma espécie de ativismo, sem poder ir para a rua com cartazes: é um ativismo de teclado.
7M – E em relação à sua doença, tem ainda alguma esperança de que possa vir a curar-se, ou pelo menos melhorar?
A ciência deixa sempre muito espaço para o desconhecimento, e o médico honesto é um médico que sabe dizer “não sei”. A minha doença tem algumas incertezas, ou muitas incertezas, e a incerteza dá espaço para a possibilidade de melhorar… Não sei se vou morrer por causa da doença, não tenho uma doença que indique que vá morrer. Portanto, há uma probabilidade de, da mesma forma que isto apareceu, o tempo jogar a meu favor. Mas do ponto de vista espiritual, filosófico, só vivo com as cartas que tenho na mão. Não consigo, não tenho muito jeito para me mentir a mim próprio. Honestamente, a minha vida é isto. Não faço planos para que a minha vida seja outra coisa, porque não é. Acho que isso pode causar ainda mais frustração e sofrimento. Agora, para as boas notícias estamos sempre preparados, o que é difícil é estarmos preparados para as más! Portanto, se eu tenho esperança? Diria que não. Não há nada que indique que vá melhorar para além disto. Mas há um certo desconhecimento. Vamos ver o que é que esse desconhecimento me traz…
(Foto de destaque: Gustavo Carona, fotografado em 2021. © Rui Duarte Silva/Expresso, cedida pelo autor e pelo jornal)
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