Guterres e bispos norte-americanos condenam aumento de atitudes racistas associadas à pandemia

| 9 Mai 20

Secretary-General António Guterres launches the United Nations Strategy and Plan of Action on Hate Speech. UN Photo_Manuel Elias António Guterres na apresentação do plano de ação das Nações Unidas sobre o disrcurso de ódio. Foto © UN Photo/Manuel Elias

 

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, considera que estamos a assistir a “um tsunami de ódio e xenofobia”. Os bispos católicos dos Estados Unidos alertam, por seu lado, para o “bullying e agressões verbais e físicas” de que têm sido alvo as pessoas “de origem asiática” naquele país. Um e outros deixaram esta semana o mesmo apelo: que a pandemia seja uma oportunidade de construir um mundo mais solidário, em vez de gerar mais divisão e violência.

A covid-19 “não olha a quem somos, onde vivemos e em que acreditamos; contudo, a pandemia continua a lançar um tsunami de ódio e xenofobia, tentativas de encontrar bodes expiatórios e espalhar o medo”, alertou António Guterres numa mensagem de vídeo divulgada esta quinta-feira.  “É por isso que apelo a um esforço total para acabar com o discurso de ódio no mundo inteiro.”

Guterres dirigiu-se em particular “aos líderes políticos”, pedindo-lhes que “mostrem solidariedade com todos os membros das suas sociedades e que construam e reforcem a coesão social”. E aos media, nomeadamente às empresas de redes sociais, sugeriu que invistam na remoção dos “conteúdos racistas, misóginos, entre outros.”

“E peço a todos, em todo o lado, que façam frente ao ódio, que se tratem uns aos outros com dignidade, e que aproveitem todas as oportunidades para espalhar bondade. À medida que combatemos a pandemia, temos o dever de proteger as pessoas, pôr fim ao estigma e prevenir a violência. Vamos derrotar o discurso de ódio e a covid-19 juntos”, concluiu Guterres.

 

Americanos de origem asiática vítimas de preconceito

Também os líderes da Conferência Episcopal norte-americana tomaram esta semana posição face ao aumento de casos de racismo em todo o país, afirmando que “a realidade dos tempos e todo o sofrimento causado por esta pandemia exigem uma determinação mais forte em direção à unidade, demonstrada por atos de solidariedade, bondade e amor uns pelos outros (…) independentemente da raça, origem étnica, género ou afiliação religiosa.”

Em comunicado assinado pelos bispos Nelson Pérez (presidente do Comité para a Diversidade Cultural da Igreja), Oscar Solis (do Subcomité dos Assuntos da Ásia e Ilhas do Pacífico) e Shelton Fabre (presidente do Comité Ad Hoc contra o Racismo), o episcopado denuncia os atos de preconceito racial de que têm sido alvo nos EUA os americanos de origem asiática e das ilhas do Pacífico.

Sobretudo nas grandes cidades, os negócios geridos por pessoas de origem asiática sofreram uma queda acentuada, mesmo antes da paralisação económica. Mais recentemente, registaram-se inúmeros casos de pessoas que recusaram ser tratadas por profissionais de saúde dessa etnia, exemplifica o texto.

“Como bispos católicos, consideramos essas ações absolutamente inaceitáveis. Apelamos aos católicos, aos irmãos cristãos e a todas as pessoas de boa vontade que ajudem a impedir todas as ações e atitudes discriminatórias motivadas pela raça, pois são ataques à vida e à dignidade humanas e são contrárias aos valores do Evangelho”, escrevem na declaração.

Não está dito no texto, mas percebe-se a alusão aos comentários que o Presidente Trump tem feito em relação à China, acusando o país de ser “responsável” de não ter contido o vírus e supostamente contribuído para a sua propagação.

Os três bispos alertam ainda, no documento, para o facto de, considerando o historial de preconceito racial dos Estados Unidos, se estes atos de discriminação injusta não forem contestados, eles poderão conduzir à “normalização da violência e abuso contra grupos específicos”.

“Seria uma tragédia para os Estados Unidos repetir essa história ou para qualquer americano agir como se fosse apropriado fazê-lo”, sublinham os bispos, desafiando todos, e em particular os representantes políticos e as instituições públicas, a promover a paz.

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