Dizem que o amor salva, e eu acredito. Mas também sei, por experiência própria, que há dias em que sobrevivo graças ao humor, em silêncio, sem aplausos, sem palco. O Humor e o Amor traduzem-se através de gestos de resistência contra o absurdo da existência, são ambos forma de abraçar o caos sem que me deixe engolir por ele. O amor é o afeto que me liga aos outros, o humor é o rasgo que me liberta de mim e, juntos, são talvez o último reduto da minha frágil humanidade quando tudo o resto falha.
Para mim, o humor, à semelhança do amor, é uma ponte. Une o que parecia inconciliável: o trágico e o belo, o grotesco e o sublime, o erro e a esperança. Quando rio, não estou a negar a dor, mas torno-a suportável.
O humor não é fuga, é alquimia que transforma o peso em leveza, o medo em riso e o desespero em possibilidade. O Humor é uma espécie de parente rebelde do amor, é aquele que não se ajoelha, mas que é cura.
E é aqui que entra a hiena, que ri sem contexto, sem ser pelo impacto de uma piada. Ri como quem já leu todos os tratados de filosofia e decidiu que nenhum presta. Ri como quem sobreviveu à reunião de condomínio da savana, onde se discutia o sentido da vida entre leões burocratas e zebras existencialistas.

“O riso da hiena é instintivo, quase indecente: surge no meio da savana, entre os ossos das presas e a sobrevivência, é como se desafiasse o absurdo com uma gargalhada.” Foto Wikimedia Commons
O riso da hiena é instintivo, quase indecente: surge no meio da savana, entre os ossos das presas e a sobrevivência, é como se desafiasse o absurdo com uma gargalhada. E nós, humanos, que nos achamos superiores por sabermos distinguir entre ironia e sarcasmo, continuamos à procura de sentido onde só há sobrevivência: a hiena não procura sentido, ri, e isso, por si só, é já uma teologia.
O humor que me salva não escarnece nem humilha, revela e permite-me ver o mundo a partir de outra perspetiva, desconstruindo dogmas e desafiando polarizações. O Humor devolve-me leveza, sendo que rir não é fuga nem esquecimento, é lembrar com inteligência, aceitando a fragilidade sem cair nela e reconhecendo o ridículo sem me perder nele.
Tal como o amor, o humor exige escuta, mas enquanto o amor sussurra, o humor interrompe e desmonta, faz perguntas que não têm resposta e dá respostas que não têm pergunta, e isso é o que me permite amar sem exigir perfeição e existir mesmo quando me parece não haver coerência.
Quem sobrevive a tempos duros e difíceis fala do humor como ferramenta de resistência, e é um pouco isso, o riso é um gesto de liberdade – já me salvei algumas vezes com uma gargalhada no momento exato em que tudo parecia perdido.
Costumo dizer que onde há Amor, aí está Deus, e tenho a certeza de que onde há Humor, Deus também está – só alguém com sentido de humor criaria o ornitorrinco, o amor não correspondido, uma macieira com maçãs que não se podiam comer e … a hiena.
Por isso, se um dia tudo falhar, a política, o algoritmo, o amor, lembra-te da hiena, ri como ela, ri de ti, ri do mundo, deixa-te consumir por um bom humor e pela capacidade que ele te dá para rir das certezas, para amar com falhas, para viver com dúvidas e para aceitar que, no fundo, somos todos um pouco hienas.
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.










