Comissão Independente faz balanço de um mês

Há 214 testemunhos, mas pode haver mais vítimas de abusos sexuais

| 9 Fev 2022

A Comissão é composta (da esquerda para a direita), por Álvaro Laborinho Lúcio, Ana Nunes de Almeida, Pedro Strecht (coordenador), Filipa Tavares, Daniel Sampaio e Catarina Vasconcelos. Foto © 7Margens

 

Um total de 214 depoimentos é o balanço estatístico do primeiro mês de trabalho da Comissão Independente para o Estudo de Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa. Mas o número pode ser maior já que em muitos dos testemunhos recolhidos “as vítimas não só descrevem o que aconteceu” consigo mesmo, como frequentemente apontam o conhecimento ou a forte probabilidade de, naquelas circunstâncias de tempo e espaço, outras crianças terem sido vítimas do mesmo abusador”.

Os 214 depoimentos recenseados até agora pela Comissão, coordenada pelo pedopsiquiatra Pedro Strecht, foram registados através do preenchimento do inquérito online, telefonemas ou entrevistas presenciais. O facto de haver pessoas que referem outras eventuais vítimas do mesmo abusador, verifica a Comissão, contribui assim “para uma diferença considerável entre a quantidade de casos directamente validados e outros tidos como existentes ou muito prováveis”. Aliás, vários dos casos “cruzam informação, o que naturalmente reforça a credibilidade dos testemunhos”, diz a Comissão.

No comunicado enviado ao 7MARGENS já depois das 23h desta quarta-feira, a Comissão resume algumas constantes dos relatos: eles “revelam sofrimento psíquico individual, familiar e social, por vezes escondido durante décadas e, em muitas circunstâncias, até ao momento deste depoimento tido como o primeiro a romper com o silêncio”.

“Esse sofrimento associa-se a sentimentos de vergonha, medo, culpa e autoexclusão, reforçando a noção de vidas em cujos trajectos a sensação de ‘estar à margem’ foi uma constante”, analisa ainda a Comissão.

Os casos recolhidos por este organismo independente estabelecido pela Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) incluem vítimas nascidas entre 1933 e 2006 (ou seja, pessoas entre os 15 e os 89 anos, neste momento) e têm origem em todas as regiões do Continente, bem como dos Açores e da Madeira, em meios urbanos e rurais, bem como em todos os “grupos sociais e níveis de escolaridade”. Há ainda testemunhos de portugueses a residir hoje na França, Luxemburgo, Suíça, Reino Unido, Estados Unidos da América e Canadá.

 

Chegar ao “país profundo”

Há pessoas de 15 ou 16 anos entre as vítimas que já foram ouvidas e a Comissão quer chegar aos que não têm facilidade no uso de tecnologias. Foto © Ulrike Mai / Pixabay.

 

Entre os depoimentos, há um elevado número de respostas dadas através do inquérito online, o que levou a Comissão a considerar que a mensagem “pode não estar a chegar a certas franjas da população, nomeadamente as que vivem em margens sociais, culturais e económicas, infoexcluídas e no que frequentemente se refere como o ‘país profundo’.”

Essa verificação levou o organismo a estabelecer contactos com “estruturas e instituições que, por outras formas e métodos, chegam em maior proximidade” a essas pessoas. Entre elas, estão, no âmbito católico, as comissões diocesanas de Protecção de Menores, os institutos religiosos ou o Sistema de Protecção e Cuidado de Menores e Adultos Vulneráveis, dos jesuítas. Na lista estão também o Instituto de Apoio à Criança, a Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteçcão das Crianças e Jovens, a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, a Associação Quebrar o Silêncio. “Com todos pretende a Comissão estabelecer pontes de diálogo no sentido de melhor aprofundar o estudo”, garante o comunicado.

Com o mesmo objectivo, e tal como o 7MARGENS noticiou em primeira mão, a Comissão Independente quer enviar em breve uma carta dirigida a todos os 308 municípios, acompanhada de um cartaz e a pedir que as autarquias “reforcem a mensagem da Comissão e contactos junto de forças locais da sociedade civil, desde Juntas de Freguesia até jornais e rádios locais, instituições e colectividades, entre outras”.

A Comissão sublinha ainda “que nunca divulgou ou divulgará publicamente nomes de vítimas, abusadores ou locais de abuso”, apelando a que todas as pessoas que ainda hesitem em dar o seu testemunho, o possam fazer através dos contactos disponíveis: telefone (917 110 000), inquérito (https://darvozaosilencio.org/), endereço  electrónico (geral@darvozaosilencio.org) ou apartado postal (CE Comissão Independente –  Apartado 012079 – EC Picoas – 1061-011 Lisboa.

A Comissão Independente foi constituída em Dezembro, depois de os bispos terem convidado Pedro Strecht a constituir uma equipa que inclui Álvaro Laborinho Lúcio, Ana Nunes de Almeida, Catarina Vasconcelos, Daniel Sampaio e Filipa Tavares.

Este balanço do primeiro mês de trabalho surge dia e meio depois de os bispos terem assegurado a disponibilidade das dioceses para abrirem os arquivos à consulta da Comissão Independente, conforme manifestado terça-feira, depois da reunião do conselho permanente da CEP (ver 7MARGENS).

 

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