Vivemos um período de profunda deformação dos valores humanistas. Perante um cenário dantesco que se desdobra ao fio da espada, os poderosos deste Mundo decidem violar o direito internacional, subvertendo-lhe o sentido, enquanto sujam as mãos com sangue inocente, espalham o terror, incrementam a crise social e económica e se vão preparando para nos arrastar, aos poucos, para a linha da frente das guerras que não queríamos nem criamos. A isto, as fracas lideranças internacionais respondem com lamentável subtileza, diria que mais por ignorância do que por medo, olhando para o lado enquanto os problemas se adensam. Do lado da União Europeia, com honrosa exceção do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, e até surpreendentemente da primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, a ausência de firmeza e coerência tem sido ainda mais notória. Acrescenta-se ao embaraço a presidente da Comissão Europeia, ao questionar a validade do direito internacional tal como ele está definido, cedendo uma vez mais aos delírios de Trump e Netanyahu, quando seria suposto o contrário. É a total ausência de lideranças que defendam com firmeza os valores europeístas, assentes no humanismo, no multilateralismo e no bem-comum. E a Igreja Católica portuguesa? Qual tem sido o seu papel?
Em contraste com as mensagens do Papa Francisco, de tão grata memória, e do Papa Leão XIV, ultimamente atacado por Trump de forma inadmissível, a Igreja portuguesa tem falado muito pouco e em voz baixa de Paz. As exceções são raras e pouco mobilizadoras. A vigília organizada pelo Patriarcado de Lisboa no final de Março não deixou de ser marcada por formalismos e falta de coragem para desafiar verdadeiramente as autoridades políticas. Nem sequer se dignou a ser provocatória ao ponto de as instar num apelo à coerência. Pelo contrário, as mesmas foram convidadas, segundo se sabe, para uma cerimónia que se reduziu aos ritos e a alguns testemunhos lidos, em que a Paz era o slogan que fica bonito na fotografia e faz notícia, mas o grito transformador e consequente em concretizações plenas continua ausente. Falta mobilização a sério!

O rearmamento é necessário para uma defesa europeia comum investir fundos públicos na indústria de armamento. Foto: frase que convida à mobilização popular e ao protesto pela Paz, cartaz colado numa parede perto da estação de metro de S. Paulo Fora de Muros, Roma. © Filipe Moisés
Reparemos: temos em funções um Governo que nunca impediu o acesso à base da Lajes por parte dos Estados Unidos da América (EUA), ao contrário do que fez Espanha, França e Itália. Em momento algum condenou o ataque que envolveu indiretamente o nosso território como ponto estratégico para as violações do direito internacional perpetradas por Donald Trump.
Pelo contrário, tenta justificar a ação militar norte‑americana atribuindo-lhe alguma bonomia, com argumentos sobre democracia e armas nucleares, ignorando outros regimes igualmente autoritários. É curioso que a exportação da democracia por parte dos norte‑americanos é muito seletiva. Que dizer então da Arábia Saudita, igualmente opressora com o seu povo, as suas mulheres e as minorias? Que dizer da Rússia, da China ou até da Coreia do Norte e dos seus arsenais nucleares? Que medo tem Trump das maiores potências, igualmente autoritárias e armadas até aos dentes? Onde está a coerência? Para agravar o cenário de subordinação imperial, o Governo ainda celebrou nas redes sociais um telefonema do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, no qual constaram elogiosos agradecimentos de “cooperação”. À falta de firmeza, resta-nos a parolice, o que não deixa de ser significativo dos valores que norteiam quem nos lidera e da falta de sentido de Estado que neles impera.
Perante este absurdo moral e todas as incoerências envolvidas, eu esperaria que a Igreja Católica contrariasse o discurso da guerra. Era o mínimo: assumir uma posição unida e desafiar os poderes políticos a comprometerem‑se verdadeiramente com a Paz. Fiquei, contudo, profundamente chocado ao ler a entrevista que o bispo das Forças Armadas e Segurança, D. Sérgio Dinis, deu recentemente à Renascença/Ecclesia, sobretudo quando defende “um serviço militar obrigatório que ajude as novas gerações a ganharem alguns valores e um certo patriotismo”. Entramos num plano completamente contrário. Em vez de contrariar a narrativa, o bispo reforça‑a, normalizando a ideia junto de quem lê ou ouve a entrevista. Está tudo errado! A este propósito, quero aqui citar a mensagem que o Papa Leão XIV nos deixou no passado dia 1 de janeiro, Dia Mundial da Paz.
Dizia o Papa: “Na verdade, o contraste entre as trevas e a luz […] é uma experiência que nos atravessa e nos surpreende diante das provações que encontramos nas circunstâncias históricas em que vivemos. Ora, para não afundarmos na escuridão, é necessário ver a luz e acreditar nela. Trata-se de uma exigência que […] sabe abrir caminho no coração de cada ser humano. A paz existe, deseja habitar-nos […], resiste à violência e a vence. A paz tem o sopro da eternidade: enquanto ao mal se ordena “basta!”, à paz se suplica “para sempre”. O Ressuscitado introduziu-nos neste horizonte. É neste sentir que vivem os promotores da paz que, no drama daquilo que o Papa Francisco definiu como “terceira guerra mundial em pedaços”, ainda resistem à contaminação das trevas, como sentinelas na noite.”

A paz é dissuasão desarmamento e justiça social. Foto: frase que convida à mobilização popular e ao protesto pela Paz, cartaz colado numa parede perto da estação de metro de S. Paulo Fora de Muros, Roma. © Filipe Moisés.
Será legítimo aqui questionar: onde está, nas afirmações do bispo das Forças-Armadas e Segurança, o “basta!” ao mal da guerra e o “para sempre” ao apelo da Paz que deve partir da Igreja?
Bem sei que o bispo afirma, mais à frente “não confundamos patriotismo com nacionalismo: somos um país aberto, um país inserido plenamente na Europa, mas precisamos de ganhar amor à pátria. Isso é indispensável“, mas eu pergunto-me se esta ressalva é assim tão eficaz face ao que está a acontecer e ao que defendeu. Acabámos de viver Abril, mês da Liberdade, mês dos grandes valores que norteiam a nossa democracia. Somos um país europeu. De que valores fala o senhor bispo das Forças Armadas e Segurança? E de que patriotismo? O de nos disponibilizarmos a ir para a linha da frente de guerras que não quisemos? Será do patriotismo bacoco dos que se dizem “portugueses de bem”? É o regresso ao “Deus, Pátria e Família”?
Estas afirmações, profundamente lamentáveis, carregam uma certa resignação com o que se está a passar e que é contrária àquilo que penso ser o papel da Igreja. É quase um “bom, a guerra está aí, temos de nos preparar”, quando, na verdade, deveria ser um “bom, a guerra está aí, temos de a parar!” E esta resignação é visível quando o bispo em causa diz “O militar serve a paz, sempre serviu. A diferença é que hoje esse serviço exige uma prontidão que durante anos não foi necessária. Melhor: que julgávamos não ser necessária. O ideal cristão não é viver na ingenuidade.”
Seria importante não vivermos na ingenuidade de que as palavras não pesam. Seria importante falar de Paz como um imperativo a alcançar no diálogo e não tanto na preparação militar. Os tempos exigem outra forma de agir e de intervir. Até porque, retomando a mensagem do Papa Leão XIV, “Atualmente, não são poucos aqueles que chamam de realistas as narrativas privadas de esperança, cegas à beleza dos outros e esquecidas da graça de Deus que sempre age nos corações humanos, por mais feridos que estejam pelo pecado. Santo Agostinho […] escreveu: «Se quereis atrair os outros para a paz, tende-a vós primeiro; sede vós, antes de tudo, firmes na paz. Para inflamar os outros, deveis ter dentro de vós a luz acesa». Queridos irmãos e irmãs, quer tenhamos o dom da fé, quer pareça que não o temos, abramo-nos à paz! Acolhamo-la e reconheçamo-la, em vez de a considerarmos distante e impossível. Antes de ser um objetivo, a paz é uma presença e um caminho. […] É um princípio que orienta e determina as nossas escolhas. […] Quando tratamos a paz como um ideal distante, acabamos por não considerar escandaloso que ela possa ser negada e que até mesmo se faça guerra para alcançá-la. […] Se a paz não for uma realidade experimentada, guardada e cultivada, a agressividade espalha-se, tanto na vida doméstica, quanto na vida pública. Na relação entre cidadãos e governantes, chega-se a considerar uma culpa o não estar suficientemente preparado para a guerra […]. No plano político, essa lógica de oposição, muito além do princípio da legítima defesa, é o dado mais atual numa desestabilização planetária que a cada dia se torna mais dramática e imprevisível. Não por acaso, os repetidos apelos para aumentar as despesas militares – e as escolhas que disso decorrem – são apresentados por muitos governantes com a justificativa da periculosidade alheia. Na verdade, a força dissuasiva do poder e, em particular, a dissuasão nuclear, encarnam a irracionalidade de uma relação entre os povos baseada […] no medo e no domínio da força. Como já escrevia São João XXIII na sua época: «O resultado é que os povos vivem em terror permanente, como sob a ameaça de uma tempestade que pode rebentar a cada momento em avassaladora destruição. Já que as armas existem e, se parece difícil que haja pessoas capazes de assumir a responsabilidade das mortes e incomensuráveis destruições que a guerra provocaria, não é impossível que um facto imprevisível e incontrolável possa inesperadamente atear esse incêndio».”

Francesca Albanese, relatora da ONU para os territórios palestinianos ocupados; pintura num mural de parede, Roma. Foto © Filipe Moisés
Infelizmente, a Igreja portuguesa não está firme na Paz nem é capaz de inflamar os outros nesse ideal. Tem medo de provocar, sobretudo quando o confronto tem de ser dirigido àqueles que pensa serem os guardiões políticos dos seus preceitos morais, o que espelha um certo sentido de conveniência. É por isso que ouvimos o Patriarca de Lisboa afirmar que admite uma mudança da Constituição, ignorando que o tema é um não assunto, porque o que é preciso resolver é o que nela não está a ser respeitado. Ou ainda que a nova lei laboral nos vai obrigar a “sair da letargia” num mundo em mudança, ignorando os retrocessos que nela vêm contemplados para os jovens e para as famílias.
Assisto, com muita pena minha, a um episcopado maioritariamente alheado dos problemas do mundo. Senhores bispos, foquem-se, leiam, saiam da vossa bolha de sacristia! Deixem os vossos preceitos de lado. Há alternativa: é preciso falar de Paz! É preciso falar das pessoas e das vidas concretas, gritar bem alto que o capitalismo está a criar desigualdades, a deformar os nossos valores, a matar, e que todos estão a lavar as mãos enquanto meia dúzia de poderosos enchem os bolsos! Sejam sal e luz! Provoquem, mobilizem, contrariem as narrativas belicistas, abanem consciências. O estilo Pôncio Pilatos nunca vos fará coerentes com o Evangelho.
Filipe Moisés é engenheiro do ambiente pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP). Atualmente, é estudante de doutoramento e investigador na mesma faculdade, no Laboratório de Engenharia de Processos, Ambiente, Biotecnologia e Energia (LEPABE).
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