Falta de vocações

Há cada vez menos padres na Irlanda

| 3 Fev 2024

Ruínas do Mosteiro de Clonmacnoise (Irlanda), fundado em 544 por São Ciarán. Foto © António Marujo.

Ruínas do Mosteiro de Clonmacnoise (Irlanda), fundado em 544 por São Ciarán. Foto © António Marujo.

 

A média etária dos padres subiu acima dos 66 anos, nos últimos três anos mais de 25 por cento dos clérigos irlandeses morreram e o número de presbíteros e membros de ordens religiosas na Irlanda caiu 70 por cento desde 1970. Estas estatísticas, somadas a um conjunto de acontecimentos e reportagens recentes, estão a provocar uma nova onda de choque na Igreja Católica na Irlanda, uma das mais abaladas pelos escândalos dos abusos sexuais.

A crise de vocações é tão mais impactante quanto a Igreja Católica Irlandesa ‘exportou’ durante séculos milhares de padres, freiras e religiosos para os Estados Unidos, Austrália, Ásia e a África de língua inglesa, além da vizinha Grã-Bretanha. Entre os factos recentes mais traumáticos contam-se o fecho “após 800 anos de serviço fiel” dos conventos franciscanos de Athlone e Clonmel e a redução para 20 dos seminaristas do principal seminário nacional – o St Patrick’s College em Maynooth (fundado em 1795) – que já abrigou 500 seminaristas. 

A opinião pública foi também fortemente sacudida por dois documentários exibidos pela televisão nacional RTÉ intitulados Os Últimos Padres na Irlanda e As Últimas Freiras na Irlanda, centrados no declínio do número de religiosos.

O jornal católico Catholic Herald de 1 de fevereiro recupera vários indicadores sobre a crise de vocações e sublinha: “É verdade que existem algumas exceções ao declínio geral como é o caso, por exemplo, dos dominicanos, ​​mas isso não é suficiente para compensar o declínio noutras ordens e entre o clero diocesano com o encerramento de seminários como o St John’s em Waterford, o St Kieran’s em Kilkenny e o Holy Cross e Clonliffe em Dublin.”

O jornal refere também que “a Irlanda atual não precisa de tantos padres, dado o declínio na frequência da missa semanal que passou de 91 por cento em 1973 para menos de 30 por cento”.

Contudo, em artigo de opinião publicado no católico Laois Nationalist, em 13 de janeiro do ano passado, o padre Paddy Byrne escrevia que “as antigas estruturas e serviços garantidos pelo clero já não são viáveis, porque o modelo de Igreja tal como a conhecemos está, simplesmente, a morrer rapidamente” e defendia-se, afirmando: “Esta não é uma opinião pessoal negativa; pelo contrário, é uma observação pragmática de quem serve três paróquias tentando manter serviços semelhantes onde, há 20 anos, sete padres partilhavam esta mesma responsabilidade.”

A crise de vocações não atinge apenas os candidatos a clérigos. As estatísticas revelam que há meio século havia 14 mil freiras na Irlanda, quando hoje o número gira em torno de 4.000, sendo a idade média superior aos 80 anos. “Novas vocações são extremamente raras”, reconhece o padre Paddy Byrne que refere o exemplo do Convento da Misericórdia, na sua cidade natal, Tullamore, onde “apenas uma mulher professou nas últimas quatro décadas”.

Neste quadro, são cada vez mais as vozes que no interior da Igreja Católica na Irlanda defendem o fim da obrigatoriedade do celibato dos padres, a ordenação de mulheres e a maior responsabilização de leigos e leigas nos serviços às comunidades.

“A vocação para o ministério deve refletir a nossa cultura”, escrevia Byrne no referido artigo em que lembrava que “toda a crise traz as suas oportunidades” e que rematava com este desafio: “O Espírito fala de forma muito audível para que acolhamos os sinais dos nossos tempos. Agradeçamos a tantas mulheres maravilhosas que cuidam das nossas comunidades cristãs, acolhamos os homens e as mulheres comprometidos no amor das suas famílias e das suas comunidades capazes de exercerem o ministério na sua paróquia local.”

 

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