Há fome em Setúbal e no Porto, denunciam bispo e padres

| 20 Dez 20

Há casos de fome em Setúbal, diz o bispo José Ornelas. E também no Porto, denunciam os padres responsáveis por 16 das 26 paróquias da cidade. É preciso uma resposta política, que coloque a fome no centro da agenda política e que ajude as pessoas com um programa integrado, “não só para dar de comer”, mas também para que as pessoas “não precisassem de pedir para comer”.

“Este tempo de pandemia levou a fome a muitas casas e às ruas”, dizem os padres do Porto. Foto © António Marujo

 

O bispo de Setúbal diz que as instituições católicas da diocese verificam “diariamente” que “há um aumento de pessoas que pedem alimentos – portanto, quando estamos a esse nível, estamos no básico”.

Em entrevista à TSF e ao DN, neste domingo, D. José Ornelas acrescenta: “São pessoas de quem não se suspeitava. É gente que tinha o seu emprego, que tinha a sua vida arrumada, que habitava uma casa razoável. As casas, em consequência do boom imobiliário que aconteceu na capital, subiram de preço e muita gente, agora sem trabalho, vê-se na impossibilidade de ter casa e também de ter uma capacidade de sustentar a família. Há gente que diz que tem dificuldade em ter duas refeições sobre a mesa.”

Também no Porto, 16 padres da cidade denunciaram, em comunicado, a existência de casos de fome e a necessidade de “ver colocada na agenda pública a realidade da fome que está a chegar a muitos pelo desemprego, doença e outras causas”.

“O que pretendíamos era que a fome entrasse na agenda política, no sentido de se organizar um programa, que não dependa só de voluntarismo e da boa vontade, que a determinada altura pode terminar”, disse entretanto à TSF o padre Rubens Marques, um dos subscritores do documento, na manhã deste domingo, 20.

As pessoas, acrescentou, precisam de saber “onde e com quem conversar para terem uma resposta imediata para a fome mas, sobretudo, onde possam encontrar um emprego, para poderem participar em algum curso, ou ter alguma orientação psiquiátrica ou psicológica”. Teria de ser um programa integrado, “não só para dar de comer às pessoas, mas também para que elas não precisassem de pedir de comer”, explicou.

Há sinais fortes de aumento da fome, disse ainda o padre Marques na TSF. E, apesar de as respectivas paróquias já terem contribuído com mais de 600 mil euros “para travar a fome” que “não pára de aumentar desde Março”, os padres acrescentam no comunicado que “estão a esgotar-se as capacidades das paróquias [do Porto] para acudirem a tantas situações de emergência”.

“Este tempo de pandemia levou a fome a muitas casas e às ruas”, diz, citado no JN, o texto das 16 paróquias (mais de metade das 26 paróquias da cidade). Por isso, “parece urgente que se reforcem as respostas e seja definido um programa integrado de apoio, nesta que é a maior crise das últimas décadas”. É preciso algo estrutural, insistia, na TSF, o pároco de Nossa Senhora da Conceição.

“Através dos seus serviços e sobretudo da atuação das Conferências Vicentinas, de grupos paroquiais de caridade e de outros voluntários, as paróquias vão respondendo a estas situações e percebendo que não poderão ir muito mais além”, diz o comunicado.

A situação pode piorar, lê-se ainda no comunicado, porque “o número dos que procuram comida continua a aumentar”. E estão a “tardar as respostas”, disse o padre Rubens à TSF.

O comunicado refere os números coligidos pelas 16 paróquias: desde Março deste ano, já doaram 664.907 euros para acudir a situações de fome, já que a maior fatia dos apoios vai para a alimentação. “Em cabazes e alimentos (respostas sociais não institucionais), os organismos, grupos e movimentos paroquiais gastaram 81.330 mil euros, que beneficiaram 942 famílias, o que representa 2.558 pessoas. O apoio em medicamentos, farmácia, rendas de casa, facturas de electricidade e água e alojamento foi de mais de 63.532 euros. E as refeições oferecidas na paróquia ou fora representam 506.543 euros.”

No texto, os 16 padres dizem que, no entanto, é preciso fazer mais em favor de quem ficou mais desprotegido com a crise provocada pela pandemia. “É necessário ainda que a sociedade civil colabore no apoio aos que, de repente, se tornaram pobres ou caíram em situação de desespero.”

Os apoios fornecidos pelas paróquias “atingem todo o tipo de pessoas: crianças, pessoas idosas e adultos, pessoas com deficiência, jovens e pessoas em situação de sem-abrigo”, conclui o comunicado, que refere ainda “haver muito mais apoios do que os referidos, de que é exemplo a ação dos Centros Sociais Paroquiais e outros grupos organizados, numa verdadeira onda de bem fazer nas zonas de pobreza”.

Na paróquia da Senhora da Conceição, o serviço Porta Solidária, criado para dar jantares a pobres e sem-abrigo, nasceu em 2009 para apoiar 40 pessoas, mas forneceu sempre mais de 100 refeições. Na crise de 2013, serviu uma média de 300, baixou depois de 190 por dia, em que estava no ano passado. Neste ano, com a pandemia, subiu para 550 refeições diárias, em média.

O comunicado é assinado, entre outros pelos padres Rubens Marques, da paróquia de Nossa Senhora da Conceição, Fernando Milheiro (Campanhã), Mário Henrique (Ramalde), Manuel Martins (Paranhos) e Domingos Oliveira (Lordelo do Ouro).

 

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