Há futuro e uma Igreja dinâmica por terras de Cabo Verde

| 19 Mar 20

Durante um mês, estive com vários “monumentos” missionários vivos, em Cabo Verde que, desde 1954, quando chegou o primeiro, por lá continuam de pedra e cal. São todos Missionários Espiritanos, congregação que para ali foi em 1941, ajudando a reconstruir a Igreja nas ilhas de Santiago, Maio e Boavista: o padre Custódio Campos chegou em 1954, Gil Losa em 1964, Alberto Meireles em 1968 – todos só conheceram Cabo Verde como lugar de missão. Em 1980, chegou José Pires, após longos anos de trabalho nos seminários de Portugal. Por fim, em 1998, foi a vez de Carlos Gouveia, depois de experiências terríveis vividas na guerra de Angola.

 

Os padres Gil Losa, Custódio Campos e Alberto Meireles, cardeal Arlindo Furtado e padres Carlos Gouveia e José Pires, missionários espiritanos em Cabo Verde. Foto © Tony Neves

 

As conversas com eles e com muitas outras pessoas ajudaram a compreender a vida, a cultura e alguns acontecimentos importantes que marcam a história e o presente de Cabo Verde, como já se contou numa primeira crónica. E também me permitiram entender como o crescimento de uma Igreja profética, que se integrou na cultura marcada pela morna e que desenvolveu novas formas de evangelização – com isso provocando o aparecimento dos “Rabelados”… Há futuro por ali.

 

Quase 90 por cento dos cabo-verdianos declaram-se católicos. Os Espiritanos foram os maiores responsáveis pela re-evangelização das ilhas de Santiago, Maio e Boavista, após a nomeação do bispo D. Faustino Moreira dos Santos, em 1941.

Católicos à saída da missa em São Lourenço dos Órgãos, na ilha de Santiago. A maioria da população declara-se católica e tem uma participação intensa em muitas estruturas das comunidades. Foto © Tony Neves

 

Este missionário Espiritano português trabalhava em Angola quando, após o Acordo Missionário de 1940, foi nomeado para Cabo Verde, onde já há séculos que não havia bispo residente: “Esta foi a decisão mais sábia da Santa Sé para Cabo Verde. A história das ilhas mudou completamente” – garante o padre Custódio Campos, natural de Joane (Famalicão), que há 35 anos não sai da ilha de Santiago. Justifica: “Não preciso de ir a Portugal descansar do descanso!…”

De facto, D. Faustino levou consigo Espiritanos e começou um trabalho de organização pastoral exigente e com frutos. O padre Alberto Meireles, a trabalhar em S. Lourenço dos Órgãos há mais de 50 anos, diz que “D. Faustino trouxe os métodos pastorais de Angola e os missionários que o acompanharam, desde a primeira hora, trouxeram a prática pastoral de Portugal.”

Bem depressa as paróquias ganharam ritmo missionário e a adesão do povo foi geral. “Eram raras as pessoas que não queriam baptizar os seus filhos”, diz Custódio Campos. Mas, acrescenta Alberto Meireles, “o problema maior eram os casamentos”. E explica: “Na igreja, celebrei muito poucos matrimónios.”

 

Os “Rabelados” contra as inovações

“Os Espiritanos fizeram em Cabo Verde o que tinham feito em Angola”, partilha o padre José Pires, há 40 anos nas ilhas: lançaram as bases da Igreja local, animaram as paróquias, construíram o seminário, formaram os primeiros padres.” A verdade é que só depois das primeiras ordenações diocesanas – uma das quais, o actual cardeal, Arlindo Furtado – é que os Espiritanos lançaram o seu projecto vocacional. Mas, até há poucos anos, os Espiritanos investiram sobretudo no clero diocesano. Por isso, os mais antigos membros da congregação são só o falecido bispo D. Paulino Évora e o padre Francisco Cardoso. Os restantes Espiritanos de Cabo Verde têm todos menos de 50 anos.

Com a nova forma de evangelizar dos Espiritanos, aconteceu uma pequena ruptura social e religiosa em Santiago, sobretudo no interior: os Rabelados. Conta o padre Custódio: “Houve cristãos que não aceitaram a nova forma de celebrar e a maneira como os Espiritanos se comportavam.” Completa Gil Losa: “Os Espiritanos deixaram a batina preta e passaram a usar a branca. E já não apareciam, regra geral, de burro, mas de moto.”

O facto levou à ruptura e houve grupos que continuaram a sua vida religiosa em latim, seguindo fórmulas antigas. Isolaram-se, não aceitavam a escola, só viviam em casas cobertas de palha… Conta o padre Custódio: “Chamavam às nossas motos os ‘cavalos de ferro’.” Hoje, o fenómeno dos Rabelados tornou-se residual, com pequenos aglomerados na Calheta de S. Miguel, onde uma placa na estrada os apresenta quase como ‘peças de museu’ para turista-ver.

 

Morna, património da humanidade

 

Mesmo nas horas difíceis, os cabo-verdianos sabem cantar e dançar, e isso prolonga e dá sentido à vida, diz o padre Custódio Campos. Foto © Tony Neves

 

O cardeal D. Arlindo Furtado cresceu e foi formado pelos Espiritanos. Tem por eles uma enorme estima e respeito e não falta aos momentos celebrativos desta congregação missionária.

A 3 de fevereiro, presidiu à eucaristia que evocava o segundo fundador dos Espiritanos, o padre Francisco Libermann. Recordando o facto de, em dezembro passado, a morna (canto e dança típicos do país) ter sido declarada Património Imaterial da Humanidade, lembrou a grande figura do padre José Maria de Sousa que, na véspera, celebrara solenemente cem anos de vida, no Porto, onde reside.

Este espiritano foi superior em Cabo Verde e coligiu muitas canções cabo-verdianas que editou numa coletânea intitulada Hora di Bai [não confundir com o livro homónimo do escritor Manuel Ferreira]. O cardeal Furtado não poupou elogios a esse trabalho feito em favor da cultura cabo-verdiana e pediu que se criassem condições para ele regressar a Cabo Verde e, em parceria com o Ministério da Cultura, fazer conferências sobre a cultura musical do país.

Os Espiritanos em Cabo Verde sempre valorizaram a cultura local e falam todos bem o crioulo. O padre Campos – que recebeu já várias condecorações (a última foi-lhe entregue pelo Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, na sua recente visita) – sente-se cabo-verdiano e membro deste povo feliz: “Mesmo nas horas difíceis, sabem cantar e dançar…e isto prolonga e dá sentido à vida!”

A decisão da UNESCO sobre a morna encheu de alegria o país inteiro e isso viu-se nos corsos de carnaval. Assisti aos desfiles na Calheta de S. Miguel e em Pedra Badejo e ambos tinham carros alegóricos à morna como Património da Humanidade.

 

Uma Igreja dinâmica, 30 anos depois de João Paulo II ajudar o país a “ser mais democrático”

Uma das vitórias de D. Paulino Évora, primeiro bispo cabo-verdiano (que desempenhou o cargo entre 1975 e 2009), foi a de receber um “sim” ao convite feito ao Papa João Paulo II para visitar Cabo Verde. Foi há 30 anos e o país celebrou agora estas três décadas de impacto da visita papal.

Os padres Campos, Gil, Meireles e Pires estavam lá, na Praia de Quebra Canela. “Foi um momento emocionante o de saudar pessoalmente o Papa, hoje santo”, recorda o padre José Pires. A emoção é partilhada pelos outros três Espiritanos. O Papa falou, sobretudo, de abertura: “Eram tempos de partido único, mas desenhava-se já a democracia. E o Papa, com a sua visita e intervenções, insistiu muito no pluralismo e na liberdade”, lembra José Pires, que esteve sempre muito perto de João Paulo II durante a celebração.

Este foi o acontecimento que mais gente concentrou na Praia. E fica para a história como um dos seus momentos mais significativos: “Hoje, João Paulo II é santo e o que ele disse ainda ecoa nos nossos corações. Ajudou o nosso país a ser mais democrático, foi muito importante”, defende o padre Campos.

Trinta anos depois, há que reconhecer, a Igreja local está muito dinâmica. Pude encontrar-me com todo o clero da diocese de Santiago e fiquei impressionado com a sua juventude e dinâmica pastoral partilhada. A diocese e as congregações têm tido ordenações e profissões religiosas, fundaram-se diversos colégios e escolas, é consistente a pastoral das prisões, há a Fazenda da Esperança para recuperar dependentes químicos…

A Igreja Católica está muito activa e solidária nas periferias, está presente no mundo académico, lançou as aulas de Educação Moral e Religiosa nas Escolas, tem uma pastoral da saúde organizada, acompanha e forma crianças e jovens, tem um laicado bem formado e interveniente…

Há futuro por terras de Cabo Verde.

O autor no porto de pesca da Calheta de S. Miguel, entre a Praia e o Tarrafal. Foto: Direitos reservados

 

Tony Neves é padre católico e responsável do Departamento da Justiça e Paz dos Missionários do Espírito Santo (Espiritanos), de cuja congregação é membro.

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