
Manifestação em Berlim, em Fevereiro, contra a extrema-direita: apesar dos avisos, a Turíngia escolheu os neo-nazis. Foto © Helena Araújo.
Há pessoas de origem imigrante “preocupadas com a sua segurança” e muitas que estão agora “a pensar seriamente em deixar a Turíngia” ou empresas que se questionem “sobre o seu futuro” naquele estado alemão, depois da vitória eleitoral, no último domingo, da AfD, o partido de extrema-direita, xenófobo e próximo do pensamento neonazi. E isso é “inaceitável”.
Quem faz estes avisos são os bispos daquele estado do Centro Leste alemão, perto da fronteira Oeste com a Chéquia, em que as eleições deram 32,8% (e a maioria) à AfD (Alternativa para a Alemanha). É a primeira vez que isso acontece no país desde a Segunda Guerra Mundial.
Num comunicado divulgado pelo Katholisch e citado pelo Religión Digital, os bispos exprimem a sua grande preocupação e prometem fazer “tudo o que estiver” ao seu alcance “para garantir que a Turíngia continue a ser um Estado amigável e cosmopolita”. E afirmam: “A nossa principal tarefa é e continua a ser defender a proteção da dignidade humana, especialmente do lado dos mais fracos”.
O comunicado é assinado pelos bispos de Erfurt, Ulrich Neymeyr, de Dresden-Meissen, Heinrich Timmerevers, e de Fulda, Michael Gerber.
No texto, os bispos admitem que a formação de um novo governo estadual “será muito difícil nas actuais circunstâncias”. E apelam, por isso, “a todos os partidos democráticos para que cheguem rapidamente a acordo sobre uma coligação viável para o bem” da população, “mesmo para além das coligações que têm sido praticadas até agora”. E acrescentam: “Precisamos de um governo estável e fiável que resolva os problemas [da Turíngia] com coragem e confiança”.
Problemas sociais e económicos

Família muçulmana nas ruas de Berlim (Alemanha): os responsáveis católicos dizem que “o nacionalismo étnico é incompatível com os valores fundamentais do cristianismo”. Foto © hilmar h. werner, via Wikimedia Commons.
Muitos observadores têm coincidido na análise de que os estados da antiga Alemanha de Leste ficaram para trás em termos económicos e sociais, depois da integração das duas Alemanhas, em 1990.
Antes dos bispos, o Comité Central dos Católicos Alemães (ZDK) afirmou, também em comunicado citado pela mesma fonte, que “os resultados das eleições regionais na Turíngia e na Saxónia mostram que os germes das forças populistas e extremistas estão a crescer cada vez mais”. E alertava em seguida, na mesma linha do que diriam os bispos, ser “fundamental utilizar as maiorias democráticas para além do AfD para alianças governamentais”. “Mais de 30 por cento para a AfD na Saxónia e na Turíngia são resultados chocantes. Toda a Alemanha deve ser mobilizada” contra esta deriva, diz o ZDK.
Já na semana passada, o mesmo Comité se pronunciara contra o voto de cristãos em partidos da extrema-direita. E o presidente da Conferência Episcopal, o bispo Georg Bätzing, afirmou, em entrevista ao Tagesspiegel, que “os partidos de extrema-direita, como a AfD na Turíngia, não podem ser escolhidos por cristãos.
“O nacionalismo étnico é incompatível com os valores fundamentais do cristianismo”, disse o bispo, citado também no Religión Digital. As eleições regionais na Turíngia (e também na Saxónia, onde a Afd ficou em segundo lugar), realizaram-se no domingo, 1 de Setembro, precisamente o dia do aniversário da invasão da Polónia pela Alemanha de Hitler, dando início à Segunda Guerra Mundial.
O resultado eleitoral deu ainda 23,6% aos democratas-cristãos da CDU, 15,8% á o BSW (Aliança Razão e Justiça, uma dissidência do partido de esquerda Die Linke, que ficou a seguir com 13,1% e os sociais-democratas do SPD ficaram pelos 6,1%. Os Verdes e os liberais do FDP já não estão representados no novo parlamento turíngio.









