Há qualquer coisa no Natal

| 26 Dez 19

E Jesus, chamando um menino, o pôs no meio deles. (Evangelho de Mateus 18:2)

 

Mesmo abstraindo-nos das trocas de presentes, das reuniões de família na Consoada, e de mais algum folclore natalício, a verdade é que a quadra desperta um conjunto de sentimentos positivos nas pessoas em geral e sobretudo nas crianças.

Um dia Jesus chamou um menino e colocou-o no meio dos discípulos quando estes o questionavam sobre qual deles era o mais importante. Não se limitou a dizer: “se não vos converterdes e não vos fizerdes como meninos, de modo algum entrareis no reino dos céus” (Mateus 18:3). Era necessário fazê-los parar e observar aquela criança. Eles sabiam o que eram crianças, mas a sociedade israelita não as valorizava devidamente.

No Antigo Israel primeiro contava o filho varão mais velho, o primogénito, depois os rapazes, em especial a partir dos treze anos, isto é, do rito de passagem judaico, que implicava uma espécie de exame com os doutores da lei. Jesus quis sinalizar que uma criança não era importante pelo seu sexo, nem por ser o primogénito, nem pelo lugar que a tradição lhe atribuía, nem sequer pelos seus conhecimentos da lei de Moisés e da fé judaica, mas que era importante em si mesma apenas porque era um ser humano, embora ainda criança.

O acto simbólico de colocar aquele menino no meio deles, na posição do mais importante, respondia com eloquência aos sinais de vaidade e ambição daqueles homens imaturos: “E Jesus, chamando um menino, o pôs no meio deles” (Mateus 18:2). A partir daqui o olhar dos israelitas sobre a infância teria que ser diferente. Afinal Jesus de Nazaré veio a este mundo como criança recém-nascida. Podia ter descido à terra já homem feito, numa espécie de disco voador ou de forma sobrenatural no alto de um monte, saído de uma nuvem. Recordemo-nos que, de acordo com os relatos dos evangelistas, se transfigurou numa ocasião diante de Pedro, Tiago e João e escapou-se à multidão em diversas ocasiões, iludindo os olhos dos que o queriam matar, porque ainda não havia chegado a sua hora.

Mas não, Deus quis mesmo honrar e chamar a atenção para as crianças e igualmente para a maternidade, fazendo-se nascer do ventre duma mulher comum, escolhida para o efeito pelos altos desígnios da misericórdia divina. O Deus Criador do universo reduziu-se assim voluntariamente à condição humana para chegar aos homens e viver na pele as suas alegrias e angústias, como nos diz S. Paulo: “Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus. Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz” (Filipenses 2:6-8). Segundo o escritor da Carta aos Hebreus só desse modo Jesus se poderia apresentar no papel de sumo-sacerdote da raça humana que compreende as nossas fraquezas (4:15).

No fundo, ao chamar as atenções para aquele menino, talvez Jesus de Nazaré quisesse sublinhar o que Salomão tinha escrito nos seus livros de sabedoria muitos séculos antes: “Melhor é a criança pobre e sábia do que o rei velho e insensato, que não se deixa mais admoestar” (Eclesiastes 4:13).

De facto, o Natal interpela-nos por causa de uma criança, o Menino. Talvez o mais fundamental do encanto desta quadra parta daí. É que uma criança recém-nascida e em situação precária remete para o mistério da vida, para a fragilidade da existência humana e constitui um testemunho de beleza inexplicável. Permite puxar pelo melhor das pessoas na resposta às necessidades de cuidar daquele ser indefeso e descentrarmo-nos de nós mesmos, pensando primeiro no cuidado pelo outro que está vulnerável perante o mundo e a vida.

Talvez até este Menino seja afinal uma revisitação dum certo menino hebreu chamado Moisés, no reino dum faraó sanguinário que provocou o genocídio selectivo dos meninos descendentes de Jacob nas terras de Gosen, de acordo com o relato da Torah. Ter-se-á salvo da morte anunciada escondido entre os juncos das margens do Nilo, por um golpe de sorte, para uns, e pela providência divina para outros. Também este viria a tornar-se uma figura incontornável da história bíblica.

Afinal, sempre que nasce uma criança há natal. É uma esperança que chega, um desafio que surge, uma responsabilidade que emerge.

De facto não devemos desvalorizar os sentimentos positivos que esta quadra especial desperta nas crianças, porque não se devem desprezar os sentimentos das crianças em coisa nenhuma. Elas é que sabem. Pela minha parte, desejo um grande Natal a todos, incluindo as crianças.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

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