A defesa da vida não pode ser seletiva nem depender da origem, nacionalidade ou situação administrativa de cada pessoa. Esta é uma das principais mensagens deixadas por José Mazuelos Pérez, bispo das Canárias, em duas entrevistas concedidas esta semana, na sequência da visita do Papa Leão XIV ao arquipélago espanhol.
Numa das declarações mais contundentes, o prelado denunciou aquilo que considera ser uma incoerência presente em alguns setores da sociedade: “Há quem defenda o respeito pela vida quando se trata do aborto, mas queira que se corte a cabeça aos imigrantes.” A frase, proferida em entrevista à Renascença, procura evidenciar aquilo que o prelado entende como uma defesa parcial da dignidade humana.
Para Mazuelos, a proteção da vida deve ser entendida de forma integral, abrangendo todas as etapas e circunstâncias da existência humana. “Não podemos defender a vida numas situações e ignorá-la noutras”, sustenta o responsável católico, para quem os migrantes que arriscam a vida no mar merecem a mesma atenção ética e humana que qualquer outra pessoa vulnerável.
Foi precisamente esta preocupação que esteve no centro da visita de Leão XIV às Canárias, realizada nos últimos dois dias. Em declarações ao Vatican News, o bispo explicou que o Papa quis conhecer de perto uma realidade que transformou o arquipélago numa das principais fronteiras migratórias da Europa e chamar a atenção para uma crise humanitária frequentemente esquecida.
“Os migrantes não são números”, afirmou Mazuelos, insistindo na necessidade de olhar para cada pessoa que chega às ilhas como um ser humano com uma história, uma família e uma esperança. O bispo recorda que muitos daqueles que embarcam rumo às Canárias fogem da guerra, da pobreza extrema ou da falta de perspetivas de futuro nos seus países de origem.
Ao longo dos últimos anos, as Canárias tornaram-se uma das principais portas de entrada na Europa para milhares de migrantes provenientes da África Ocidental. A chamada rota atlântica é considerada uma das mais perigosas do mundo, com inúmeras embarcações desaparecidas e milhares de mortos ou desaparecidos no mar.
Perante esta realidade, Mazuelos tem defendido uma resposta assente no acolhimento, na integração e na cooperação internacional para combater as causas profundas das migrações forçadas. Ao mesmo tempo, critica a instrumentalização política do fenómeno migratório e os discursos que alimentam o medo ou a rejeição dos estrangeiros.
A mensagem do bispo encontra eco direto nas palavras pronunciadas por Leão XIV durante a sua visita ao arquipélago. Esta quinta-feira, 11 de junho, o Papa advertiu que a Europa não pode habituar-se a que o Mediterrâneo e o Atlântico se transformem em “cemitérios sem lápides”, apelando à criação de vias seguras para a migração e a uma maior cooperação entre os países de origem, trânsito e destino.
O pontífice pediu ainda um “exame de consciência” às sociedades europeias perante a normalização das mortes de migrantes no mar. “A dignidade humana não tem passaporte”, afirmou, numa das frases mais citadas da visita.

José Mazuelos acompanha o Papa Leão no encontro com religiosos e agentes pastorais na Catedral de Sant’Ana (Las Palmas de Gran Canaria). Foto © Vatican Media
Para o bispo José Mazuelos, esta é precisamente a questão central. A dignidade humana, sustenta, não depende da nacionalidade, da situação legal ou das circunstâncias em que cada pessoa se encontra. Por isso, considera que a defesa da vida só é verdadeiramente credível quando se aplica sem exceções.
Mais do que um acontecimento simbólico, o bispo espera agora que a visita papal contribua para mudar mentalidades e para colocar novamente as pessoas no centro do debate. O desafio, conclui, passa por reconhecer que a vida humana merece ser protegida em todas as suas fases e em todos os contextos, incluindo quando se apresenta sob o rosto de quem bate às portas da Europa em busca de segurança e de futuro.










