Fundação AIS alerta

“Há relatos de mortos, alguns decapitados, e de populações em pânico e em fuga” em Moçambique

| 2 Fev 2024

População da região de Cabo Delgado em fuga. Foto ACN

Os relatos das movimentações dos grupos armados estão a levar à fuga de muitas centenas de pessoas, mas muitos não sabem para onde ir, pois até as localidades consideradas, até agora, seguras, parecem ter deixado de o ser. Foto © ACN

 

Depois de um período de relativa acalmia na região de Cabo Delgado (norte de Moçambique), vários grupos armados voltaram, nos últimos dias, a espalhar o medo na região. “Há relatos de mortos, alguns decapitados, e de populações em pânico e em fuga”, alertou a Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) nesta sexta-feira, 2 de fevereiro, após ter recebido várias mensagens de missionários católicos no terreno. Relatos que revelam que os terroristas estão cada vez mais perto de Pemba, a capital da província.

“Há uma semana, circulam notícias de ataques e presença dos terroristas” em diversas comunidades. Em três delas, Impire, Nanlia e Campine, as populações “vivem por estes dias um clima de insegurança”, escrevem os missionários citados pela AIS, indicando que, apesar disso, nestes lugares ainda “não houve ataques”.

Mas o mesmo não aconteceu na aldeia de Naminaue, ali próximo, onde fica a paróquia de Nossa Senhora do Carmo, apoiada pelos Missionários Saletinos. “Os insurgentes, como também são conhecidos localmente os terroristas que reivindicam pertencer ao Daesh – o grupo jihadista Estado Islâmico-, atacaram na tarde de 31 de janeiro esta aldeia”, refere a Fundação AIS, acrescentando que “as forças moçambicanas foram alvo de uma emboscada e dois militares terão sido mortos”.

Apenas dez dias antes, mais a norte, “a vila de Mucojo, a segunda mais importante no distrito de Macomia, foi ocupada por grupos de terroristas, provocando uma debandada das populações, nomeadamente para a sede distrital. Pelo menos durante dois dias os terroristas mantiveram-se nesta vila, num gesto de uma certa ousadia até pela proximidade na região de forças militares moçambicanas e dos países da África Austral que estão a apoiar os esforços das autoridades de Maputo face à insurgência jihadista na província de Cabo Delgado”, assinala a AIS.

Os relatos das movimentações dos grupos armados estão a levar à fuga de muitas centenas de pessoas. “Com essas notícias, o povo fica apavorado e muitos saem de casa”, escrevem os missionários na mensagem enviada à fundação pontifícia.

Mas muitos não sabem para onde ir, pois até as localidades consideradas, até agora, seguras, parecem ter deixado de o ser. De acordo com a RFI, o Estado Islâmico diz estar a fazer uma “viagem de pregação” por toda a região de Cabo Delgado e grupos armados foram vistos nos últimos dias junto de campos de produção agrícola perto do distrito de Metuge, zona onde se encontra o principal centro de acolhimento de deslocados e que fica a menos de 40 quilómetros de Pemba.

A informação foi confirmada por Salésio Paulo, administrador do distrito de Metuge, à rádio local Zumbo FM “É verídica a informação. Nós estamos aqui com a movimentação dos terroristas há uma semana, provenientes do distrito vizinho de Quissanga. Depois de terem saído de Quissanga, entraram no distrito de Metuge, mas passaram nas zonas de produção. No dia 27, sábado, os terroristas decapitaram um jovem nas machambas da aldeia de Pulo”, disse o responsável. E o facto de os militares da força estatal não estarem a ser bem sucedidos na contenção dos ataques aumenta o sentimento de insegurança.

 

Terrorismo não se vence com “apelos vazios”

O Presidente do país, Filipe Nyusi, fez recentemente um apelo a todos os que estão envolvidos no terrorismo a reconsiderarem as suas atitudes. “Os terroristas não vão ter bons dias para sempre, e nós não vamos ficar de braços cruzados”, afirmou durante uma conferência de imprensa realizada em Roma, onde participou na Cimeira Itália-África.

Mas estes são, para João Feijó, do Observatório do Meio Rural (OMR), “apelos vazios”. Em entrevista ao Deutsche Welle (DW), o investigador moçambicano assinala que é preciso ter em consideração que os comportamentos dos terroristas são “dúbios”. Se por um lado há relatos de que fazem ataques e decapitações, por outro também há quem diga que “falam com as populações, conversam e adquirem produtos a preços relativamente simpáticos, e fazem a sua pregação”.

E acrescenta: “Este grupo só tem sucesso, só consegue estar a operar há mais de seis anos com a conivência de setores da população, de onde são originários e onde recrutam. A população é que lhes dá a primeira fonte de recrutamento, dá-lhes as informações e a logística. Permite-lhes a camuflagem, onde se escondem e guardam também equipamentos. Eles também ajudam a família e a família ajuda-os, mas claro que em segredo”.

Face a isto, “não é com apelos ao patriotismo, à denúncia ou à vigilância que, neste cenário estruturalmente tão complexo, se consegue o apoio da população”, defende João Feijó. Para o sociólogo, “enquanto não se tiver a consciência de que o país é rico em recursos naturais, mas que esses recursos não beneficiam a população; enquanto as pessoas não tiverem acesso a serviços, educação, saúde…”, dificilmente haverá “unidade nacional” e o terrorismo será derrotado.

 

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