Há uma “catástrofe educativa” com 250 milhões de crianças excluídas de qualquer formação, alerta o Papa

| 16 Out 2020

Escola. Criança.

“Esta situação fez crescer a consciência de que se deve imprimir uma viragem ao modelo de desenvolvimento”, diz o Papa. Foto: Direitos reservados

 

O Papa alertou nesta quinta-feira, 15 de Outubro, no Vaticano, para uma “catástrofe educativa” provocada pela covid-19, que afastou milhões de crianças das escolas e fez aumentar as desigualdades.

“Segundo alguns dados recentes de agências internacionais, fala-se de ‘catástrofe educativa’ – é talvez forte a expressão, mas fala-se de ‘catástrofe educativa’ –, pois cerca de 10 milhões de crianças poderiam ser obrigadas a abandonar a escola por causa da crise económica gerada pelo coronavírus, agravando uma disparidade educativa já alarmante”, disse, numa mensagem em vídeo divulgada quinta-feira à tarde, no lançamento do Pacto Global para a Educação, promovido pela Santa Sé, na Universidade Pontifícia Lateranense (Roma).

A intervenção evocou as mais de mais de 250 milhões de crianças, em idade escolar, excluídas de “toda e qualquer atividade formativa”.

“Perante realidade tão dramática, sabemos que as inevitáveis medidas sanitárias se revelarão insuficientes, se não forem acompanhadas por um novo modelo cultural. Esta situação fez crescer a consciência de que se deve imprimir uma viragem ao modelo de desenvolvimento”, observou Francisco, falando numa crise “geral” que exige uma resposta global, perante uma pandemia que aumentou “urgências e emergências”.

“Os sistemas educativos do mundo inteiro sofreram com a pandemia, tanto a nível escolar como académico. Procurou-se por todo o lado implementar uma resposta rápida através de plataformas educativas informáticas, que evidenciaram não só uma acentuada disparidade de oportunidades educacionais e tecnológicas, mas também o facto de muitas crianças e adolescentes, devido ao confinamento e outras carências anteriores, terem sofrido atrasos no processo normal de desenvolvimento pedagógico”, alertou o Papa, pedindo que se evitem “receitas simplistas” e se aposte na educação, contra uma lógica de “indiferença” e da “cultura do descarte”.

“O nosso futuro não pode ser a divisão, o empobrecimento das faculdades de pensamento e imaginação, de escuta, diálogo e compreensão mútua”, referiu Francisco, que desafiou os responsáveis políticos a ouvir os apelos das novas gerações, apostando numa educação que rejeite as atuais “graves injustiças sociais, violações dos direitos, pobrezas profundas e descartes humanos”.

“Trata-se de um percurso integral, no qual se enfrentem as situações de solidão e desconfiança quanto ao futuro que geram entre os jovens depressão, toxicodependências, agressividade, ódio verbal, fenómenos de bullying. Um caminho partilhado, no qual não se fique indiferente ao flagelo das violências e abusos contra os menores, aos fenómenos das meninas-noivas e das crianças-soldado, ao drama dos menores vendidos e escravizados”, referiu.

Na mensagem, o Papa falou ainda da “grave crise ambiental e climática”, apontando como origem “uma exploração sem cabeça nem coração”.

Esta iniciativa retoma o apelo feito pelo Papa Francisco a 12 de setembro de 2019, quando disse que havia “necessidade de unir esforços e criar uma aliança educacional”, repetindo o desafio no discurso que fez diante Corpo Diplomático acreditado no Vaticano, a 9 de janeiro deste ano. Apesar do cancelamento de várias realizações previstas para o último mês de maio, o projeto não foi interrompido.

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