[D, de Daniel]

há uma voz que bebo

| 27 Out 2021

Daniel Faria. Susana Braguês

Ilustração © Susana Braguês, cedida pela autora

 

 

primeiro degrau

Viajo para uma voz que escorre como um lado aberto, uma boca como uma abertura de lança, quer dizer, lugar directo ao coração, degrau onde ajoelhamos por ter chegado à nascente. Sou de um sítio em que a água era de colher: “Vai colher água à fraga”, foi um dos mandamentos aprendidos na infância. E eu fazia como vira fazer: a fraga era uma pedra grande mas humilde diante da qual o corpo se movia à oração. Uma outra pedra mínima, breve como a soleira de um lugar sagrado, tinha sido colocada diante para que pousássemos os joelhos enquanto nos servíamos daquela água. Aquele sítio era maravilhosamente musical. Guardo a música comigo. Se a soubesse escrever, seriam as notas na pauta como crianças no recreio.

Já eu andava na escola quando segui fascinado o roteiro dessa água. A fraga era no alto mais subido da aldeia, num segredo da floresta que eu achava pertencer apenas aos três ou quatro da minha família que faziam uso do mandamento. Seria uma pedra vegetal, já que dela a água se colhia. Mas tudo naquele lugar cheirava a pastoril também. A ordenha marcava os dias, princípio e fim, num ritual igualmente musical interpretado no fundo dos caldeiros. Até as fragas o sabiam certamente, como aquelas que davam água poupando-nos o esforço da ordenha, água esperando-nos num regaço de pedra e terra. Colhíamos a que precisávamos e sempre sobejava. Assim iniciava a descida num regato finíssimo que ia ganhando lanço no caminho até que lá no fundo fundinho, se encarreirava escondendo-se por um pouco para ir sair na fonte ao pé da capela do povo, mesmo no coração da aldeia. Aparecia soleníssima, toda crescida e contente, de um cano de ferro muito antigo encaixado no lugar da boca de uma carantonha de pedra muito feia. O cantar era todo diferente do pizzicatto jovial que eu conhecia da nascente. Na fonte, jorrando em bica, a água vinha mais operática, bojuda, de soprano perfil.

 

segundo degrau

Não tenho como saber quantas horas me demorou este rastreio. Sei ainda da luz a acertar-me nos olhos. E sei da água como um ser vivo ao qual colhia como às amoras e ao qual perseguia como às perdizes. Sei a confusão que me aconteceu quando me quiseram ensinar que os estados da água eram três, líquido, sólido e gasoso, porque para mim os três estados da água eram nascente, levada e fonte. Eram músicas diferentes que ela tinha em cada um, temperaturas diferentes, sabores diferentes e, sobretudo, maneiras de beber. Ela dava-se a servir de modo diverso em cada estado. Ajoelhava-me para a colher, na fraga. Deitava-me de peito no chão e mergulhava de borco nela, na levada. Juntava as mãos e bebia, na fonte.

Uma voz bebe-se pelos ouvidos e ouve-se com lábios sedentos. Há um Verbo que troca as voltas aos sentidos, e esse Verbo é aquela fraga a quem Moisés varejou um lado, o rochedo sobre o qual as parábolas constroem o Reino, a pedra angular jorrando sangue e água, o lado do Messias escorrendo leite e mel. E a voz bebida goteja uma promessa: multiplico-me no coração que escuta, tornar-me-ei uma torrente no centro do peito.

 

terceiro degrau

Por não ser dado a latins, desrespeito a leitura nos jornais paroquiais que falam em sede vacante. Acontece-me ler tudo em português e assustar-me com a notícia de que a sede não tem quem a ocupe. Anunciamos a água viva mas não desempenhamos a sede. Quero um cristianismo que não deixe vaga a sede, que habite o eixo desse lugar.

Preciso de comunidades em que a sede se faça salmo, a oração se desenlace como o fluxo da respiração, igrejas de pessoas em que o louvor encontre caminho como um regato e se robusteça como uma levada. Fazem-me falta os lugares em que possa encostar a mão à página e pressentir a humidade fria e manancial que guardo da parede daquela fraga da minha meninice. Quero abrir as escrituras como Moisés vareja a pedra, para beber a voz que se solta, o Verbo que absolve os nós, o Cordeiro que descodifica os selos. Tenho tanta vontade de um cristianismo em que a Palavra é lida como se folheia na ponta dos dedos o rosto e o corpo do amado, o arrepio da visão de quem está totalmente presente e não cessa de chegar. Porque é alguém que vem a partir da presença, não da ausência. Às vezes, dá-me tantas saudades da beleza e do assombro que esquecemos atrás de um cenário qualquer da nossa pantomima religiosa. Preciso de quem me conte a Palavra usando as palavras só ao alcance de quem gosta dela. Quero quem me abra as escrituras como as crianças metem as mãos na água. Quero inclinar o livro sobre as minhas mãos em concha, e beber.

 

Rui Santiago é missionário redentorista e presbítero católico.

 

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