Como tive oportunidade de escrever em modo de prólogo, este livro, Urdiduras Espaciais, tece-se em torno da imagem do poeta enquanto habitante do mundo. Tema bem conhecido dos que amam a poesia de Hölderlin e seguem a exploração filosófica que Heidegger dele faz. Tema que nos situa sem demora no «problema da habitação», para parafrasear o título de um livro de Ruy Belo.
«Habitar o mundo como poeta», o poeta como «pastor do ser», a linguagem como «casa do ser» – eis formulações conceptuais expressivas que são imediatamente estimulantes e encantatórias, mas que, infelizmente, correm o risco de, se pensadas a fundo, nos perderem ainda mais do que aquilo que nos prometem encontrar. O autor de Urdiduras Espaciais, aliás, logo se interroga sobre o que é «ser habitante do mundo», em estranheza radical. O que é «mundo»? De que falamos quando dizemos «ser»? O que é «habitar»? Habitar ou ser habitado? E a linguagem, qual a sua natureza, qual o seu estatuto ontológico? Linguagem e ser, linguagem e mundo identificam-se? Ou apenas se implicam (ou ex-plicam, ou com-plicam…), em dobras, pregas e redobras sem fim? Mas avancemos.
Quem diz habitação diz casa. João Paulo Costa, neste Urdiduras Espaciais e mais ainda no seu outro livro que hoje aqui apresentamos, Com Sabedoria se Habita uma Casa, reflecte profundamente sobre a ideia de casa, casa do ser, casa da linguagem pensante, casa da sabedoria. Num mundo, num espaço-tempo necessariamente erosivo, revulsivo e repulsivo, a construção da casa apresenta-se inevitavelmente como construção de abrigo, frágil espaço de protecção, de recolha e recolhimento, de resistência às intempéries incessantes do devir. Espaço de recolhimento, mas também de encontro e acolhimento – porque não há casa sem porta e sem janela, sem abertura e convite, sem cuidado e hospitalidade.

Assim, a casa, a sua natureza doméstica, será negada se for concebida como fortaleza, reduto e bunker. De qualquer modo, a casa é sempre abrigo e há-de ser capaz de defender-nos. E há que ser construída sobre rocha. O fundamento não pode ser, portanto, o terreno movediço e arenoso das sensações e sentimentos, nem da linguagem, da conversa, do texto rizomático que prolifera sem fim e sem sentido numa expansão que não mais é capaz de sustentar as ligações, e alastra em autodestruição, por rompimentos, cortes e rasgões, descontinuidades, até ao delírio (no sentido etimológico da palavra) e à dissipação absoluta.
A casa há-de fundar-se sobre o Logos. E o Logos traça o cardo e o decumano na dimensão terrestre e aí, no cruzamento de ambos, define o ponto de exaltação, de elevação, de ligação, condição de cumprir o concreto do Homem, encarnar o divino, assumir um destino em transcendência, um princípio e um fim, uma origem e uma plenitude escatológica. A Palavra enquanto Logos: só ela, em verdade, permite uma visão sem véus. Ela é então a casa. Mas, além de se construir sobre a rocha do Logos, no lugar cruciforme das dimensões horizontal e vertical do ser, com os materiais da visão sem véus da Palavra que se escuta e se assimila no espírito e na carne, além de tudo isso, não há-de a casa esquecer que é construção, que é ainda e só construção.
Será então ocasião de falar aqui de tenda, em vez de casa, dessa tenda a que se refere São Paulo, tenda breve e frágil, tenda de nómada e peregrino, ou a tenda que os discípulos propõem montar no Tabor, perante a Transfiguração do Senhor. Mas atenção, pois mesmo a tenda é ainda abrigo! E é preciso ir mais longe, é preciso construir o desabrigo, a exposição no aberto – e isso já desafia e supera as nossas forças.

Temos de abrigar-nos de nós mesmos e construir o paradoxo de um desabrigo, o desabrigo de Deus. Temos de habitar o desabrigo de Deus. Só esse desabrigo, qual a face que se oferece a quem nos bate e que é, em verdade, a face invencível, a mais forte, a mais resistente, só esse desabrigo, dizia, nos abrigará seguramente de nós mesmos e da tentação e devastação do mundo.
Então, nessa casa do Logos, nesse desabrigo de Deus em Deus, poderemos verdadeiramente ser chamados «reparadores de brechas e restauradores de veredas» (Isaías 58, 12). Ou, retomando O Problema da Habitação, de Ruy Belo, só então estaremos em condições de não mais dizer que «a alegria é uma casa demolida».
Carlos Poças Falcão é poeta e a sua poesia foi reunida em Arte Nenhuma, obra editada pela editora Língua Morta e livraria Snob em 2020. Este texto foi lido na apresentação dos livros de João Paulo Costa Urdiduras Espaciais e Com Sabedoria se Habita uma Casa, em Braga, 27.02.2026










