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Apresentação dos livros: Com sabedoria se habita uma casa & Urdiduras espaciais, de João Paulo Costa © fotografia: Paulo Sá
Apresentação dos livros: Com sabedoria se habita uma casa & Urdiduras espaciais, de João Paulo Costa. Fotografia © Paulo Sá.

[Metáforas vivas]

Habitar: para fruir, escavar e transfigurar

| 07/03/2026

Incitações ao pensamento

Recebi o convite do amigo João Paulo Costa como incitação ao pensamento. Assim ele me aclarou o horizonte, na mensagem enviada: «Gostaria de te convidar para apresentares os livros Com Sabedoria se Habita uma Casa e Urdiduras Espaciais. O Carlos Poças Falcão também os apresentará, centrando-se mais no Urdiduras, que prefaciou. Caso estejas disponível, talvez pudesses apresentar mais o ensaio Com Sabedoria…, mas com toda a liberdade, pois ambos os livros são apenas incitações ao pensamento de cada um.»

Apresentação dos livros: Com sabedoria se habita uma casa & Urdiduras espaciais, de João Paulo Costa © fotografia: Paulo Sá

Mesa na sessão de apresentação, da esquerda à direita: Joaquim Félix de Carvalho, Carlos Poças Falcão, José Rui Teixeira, João Paulo Costa e Eduardo Jorge Madureira. Foto © Paulo Sá

Tendo isto presente, na noite de seis planetas alinhados no horizonte oeste após o pôr do sol, ao observar o programa desta apresentação, gostaria de começar por dizer-vos que a primeira luz que se acendeu no meu vislumbre foi um alinhamento outro. Qual? Haverá mais? Penso que estes dois livros se podem urdir com as linhas de atenção do físico e cosmólogo Carlo Rovelli, que se ergue, num livro recente, contra a falta de transcendência do ego. Soberba que está na origem de uma tragédia, por afogamento, no saber autorreferencial, o saber solipsista. Carlo Rovelli é um cientista humanista, que escreveu um livro em 2024, cujo título é muito sugestivo: Há lugares no mundo onde a gentileza é mais importante do que as regras. E outras ideias sobre física, filosofia e o mundo (Rovelli 2024). No texto VII dos Prolegómenos a uma fenomenologia futura da ressonância, João Paulo Costa apresenta-o como «leitor atento de poesia e filosofia, espécie rara hoje, mas que remonta à mais alta tradição do pensamento secular» (Costa 2026a,147). Como ele, creio que também o autor dos livros que são agora apresentados, contra as barbáries do tempo presente, continua «a acreditar que este mundo cada vez mais assolado pela guerra, violência, desigualdades sociais extremas, intolerância, grupos nacionalistas, raciais e locais que se fecham na sua própria identidade uns contra os outros, não é o único mundo possível. E talvez não esteja sozinho» (Rovelli 2024,46). Não, não estará sozinho. Decididamente. Nesse sentido, penso que poderei dizer que, além de leitor atencioso de poesia e de filosofia, João Paulo Costa proporciona-nos, neste casal-de-livros, leituras de refinada poesia e da mais contrapontística filosofia sapiencial.

Em relação à qualidade da poesia, é o poeta Carlos Poças Falcão quem, a partir de uma imagem muito particular, a evidencia nestes termos: «Assim como limalha no campo magnético de um íman, também as palavras deste livro denso se organizam em formas súbitas e inesperadas, linhas, filamentos, versos desenhados segundo um atractor invisível, uma voz fulcral que, em movimento, a si tudo atrai: ideias, fragmentos de memórias, sensações e desejos capturados, fixados no preciso e mesmo instante de se dissiparem, pensamentos que se chamam uns aos outros, fluxos de impressões, enfim, uma voz vivente a atravessar a espessura leve e a rugosidade do mundo, fazendo a experiência do seu habitar, na afirmação da habiência (poema I)» (Poças Falcão 2026,5).

Capa do livro Urdiduras Espaciais com pintura de Enrique Mirones Díez © fotografia: Enrique Mirones Díez

Pintura de Enrique Mirones Díez na capa de Urdiduras Espaciais. 

Tendo presente a força imagética da capa, criada a partir de uma pintura de Enrique Mirones Díez, monge da Comunidade de Santa Maria de Sobrado (Espanha), infelizmente falecido no passado dia 5 de dezembro de 2025, Carlos Poças Falcão remata o seu prefácio com uma urdidura penúltima: «É a urdidura, esse entretecer dos fios inextricáveis da vida e do poema, essa tessitura do habitar (e enredar) o mundo – e os versos são linhas que tecem o tecido. E o tecido é rede. E onde se rasga a rede os versos são costuras (sutras…) de «suturar as cicatrizes de um apelo sem resposta» (poema XXIV)» (Poças Falcão 2026,6-7). Urdidura penúltima, sim, porque a derradeira cerziu-a num tecido novo, escrito e partilhado no dia da apresentação de ambas as obras de João Paulo Costa.

 

Poslúdio e mosaicos da sabedoria                                              

Sem procurar a linear previsibilidade nem pensar na devolução dos sapatos, como se eles estivessem alinhados com o «complexo de Empédocles» (Bachelard 1938,39), apreciaria cuidar uma estranha deambulação, talvez errática no escorrimento das palavras-de-lava, desde a cratera efervescente, seguida da onda piroclástica, que ambos os livros são. Sim, mais do que o Etna em erupção pode testemunhar, para devolver palavras que, do autor, chegam no Poslúdio: «os pássaros cantam ao ouvir ecos distantes/ o sopro batente nas ervas secas dos amores de Verão/ espalhando as sementes do desejo semeado/ ao oitavo dia sem pousio da criação/ quem poderá semear a nova luz no vazio?/ que iluminação poderá dar o fruto da razão? (Costa 2026a,179).

Serão devolvidas as sandálias de Empédocles? © fotografia (‘Escultura Recente’ de Manuel Rosa, na Galeria Fernando Santos, Porto): Joaquim Félix

Escultura Recente de Manuel Rosa, na Galeria Fernando Santos, Porto: “Serão devolvidas as sandálias de Empédocles?” Fotografia © Joaquim Félix.

Ambas as perguntas do Poslúdio podem encontrar uma nova via láctea que parte, não das alturas siderais, mas da escavação arqueológica, a fazer, na expectativa de encontrar tesouros escondidos sob as camadas da História dos saberes. Talvez por coincidência, pensando na forma de acender, nos olhos do pensamento, uma imagem capaz de aclarar ambos os livros de João Paulo Costa, encontrei um fósforo numa rede social do Rio Grande do Sul, que pertence a uma família que se encontra «sempre em busca de conhecimento». No texto da publicação, intitulada «Zeugma, Turquia: Mosaicos da sabedoria» e sustentada em duas fotografias testemunhais, pode ler-se:

«Há mais de dois mil anos, em uma cidade esquecida às margens do Eufrates, alguém decidiu eternizar a sabedoria no chão de sua casa. Na antiga Zeugma, hoje localizada em Gaziantep, artesãos moldaram pedra por pedra um círculo perfeito de conhecimento. Rostos serenos. Olhares profundos. Filósofos gregos eternizados em medalhões, como se estivessem reunidos em silêncio, debatendo o destino da humanidade. Não era apenas decoração. Era uma declaração. Zeugma foi fundada no período helenístico, após as conquistas de Alexandre, o Grande. Tornou-se rica sob domínio romano, ponto estratégico entre Oriente e Ocidente. E suas casas luxuosas refletiam isso: cultura, poder e sofisticação. O mosaico da imagem, mostra exatamente isso, homens que simbolizam razão, ética, política, ciência. Em uma época sem internet, sem livros impressos, sem universidades modernas… já existia o desejo de eternizar o pensamento. E então veio o silêncio. A cidade foi abandonada, parte dela submersa, parte soterrada pelo tempo. Durante séculos, ninguém caminhou sobre esses rostos. Até que arqueólogos removeram a terra… e a sabedoria voltou a ver a luz. Hoje, muitos desses tesouros estão preservados no Zeugma Mosaic Museum, um dos maiores museus de mosaicos do mundo. Mas o que mais impressiona não é a técnica. É a mensagem. Há 2.200 anos, alguém escolheu colocar filósofos no centro da casa. Não deuses da guerra. Não cenas de batalhas. Mas pensadores. Isso diz muito sobre o que aquela civilização valorizava. E nos faz refletir: Se o chão da nossa casa pudesse contar ao futuro o que valorizamos hoje… o que ele mostraria?

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Li pela primeira vez a publicação no claustro da Domus de Santiago, situada na cidade de Braga, onde se podem contemplar as ruínas de uma casa romana de Bracara Augusta, cujas primeiras paredes remontam à segunda metade do século I. Escavada nos meados do século XX, também nela foram encontrados mosaicos, datados do último quartel do século III, no peristilo, com motivos de fauna marinha, atualmente acondicionados no museu adjacente. Pura coincidência? Não sei.

Reconheço, porém, que o lugar era favorável à leitura da descoberta feita em Zeugma. E me despertou, de forma fulgurante, para ambos os livros que hoje são apresentados. Ao lê-los, no vagar que me fez demorar neles, habitando-os na sua habiência, descobri como os meus sentidos escavavam mosaicos antigos e contemporâneos da cultura, em círculos aperfeiçoados pelo conhecimento do seu autor. Textos serenos e profundos, ainda que alguns sejam gritos abertos no silêncio. Tantos e tantos autores, como os antigos filósofos gregos, reunidos em silêncios ressonantes, a debater o destino da humanidade. As muitas citações feitas por João Paulo Costa, nomeadamente no ensaio Com sabedoria se habita uma casa, não são decorativas. Os seus livros são, nas modulações do encontro com o diverso, divisões luxuosas da cultura, poder de imaginação profética e sofisticação poética da sabedoria. O mosaico dos seus livros mostra humanos que incarnam o fruto da razão, que a iluminação da sua leitura ruminante poderá dar (cf. Costa 2026a,179). Aquilo que mais impressionará ao ler os livros não será tanto a técnica da sua construção que, em ambos os casos, é elaborada, mas a mensagem que passam, a qual, sob vários aspetos, pode ser comparada ao testemunho, de mão para mão, numa prova de estafeta. Como pensador que é, João Paulo Costa coloca, no centro da casa, não deuses nem cenas de batalhas, mas pensadores que, como ele, dão que pensar. Talvez na maiêutica que atravessa a sua escrita em mosaicos, ele coloque os leitores a urdir as duas questões do seu Poslúdio com a última pergunta da publicação: «Se o chão da nossa casa pudesse contar ao futuro o que valorizamos hoje… o que ele mostraria?».

Capa do livro Com Sabedoria se habita uma casa, a partir de uma obra de Horácio Frutuoso © fotografia: João Paulo Costa

Obra de Horácio Frutuoso na capa de Com Sabedoria se Habita Uma Casa. Fotografia © João Paulo Costa

Prelúdio: que casa habitar para a missa cósmica?

Há casas e casas. Há casas que são, mais do que utópicas, térreas ou assoalhadas, passagens ou travessias que colocam os habitantes em constante deslocação. São lugares heterotópicos. Como se faz a poesia, sim. Nem que seja com deslocações mínimas. Páscoas ou pascoelas, transumâncias para alimentar a liberdade. É desde aí, desses êxodos pelo centro dos desertos urbanos, ou partidas do mundo, que a missa cósmica se celebra. E o cântico da peregrinação de entrada caminha sobre versos com os quais é urdida a caosmatização: «no último vagão nocturno/ da via longa par ao sopé solognês de Magdala la Ferté-Imbault/ casa térrea intocada pelo rumor ainda/ de desejos inacabados/ entro em pé descalço à hora sexta estival/ ao som de sinos dobrados/ para a missa cósmica silente» (Costa 2026a,11).

João Paulo Costa desenha, como sábio arquiteto que brinca sob o olhar risonho de Deus, semelhante ao profundo e infindo azul do Cosmos, uma «Casa da Sabedoria Terebinthus». Para o seu esquisso, não gasta muita escrita. Prefere um opúsculo. Um livro-planta. Onírico quanto baste, a glosar o verso de Mário Cesariny «constrói como a estrada começa». Surreal como o seu conteúdo, ou a vida e a crença são, ele traça as linhas da casa-assim, no segundo parágrafo do seu opúsculo:

«O corpo é como a casa e a casa é o nosso corpo. A casa situa-se entre o caos e o cosmos. É cosmática. A casa como sustentação e suporte da carne do ser e do ser carne. Tal como no cristianismo o Verbo se faz carne no corpo da comunidade crente, materializado nos sacramentos, rituais, caritas…, na dimensão sensível do Verbo e da sua presença no mundo, também a filosofia poética ou sapiencial poderá encontrar na ideia de casa (dimensão ontológico-arquitetural) a sua forma concreta, a do ser habitante do mundo. A casa como lugar da vida habitante e da vida habitada, do corpo vivido e do corpo vivente, da palavra e do silêncio, da configuração ou instituição de um certo estilo ou modo de presença no mundo. Como afirma Agamben, a propósito de Hölderlin, “a vida habitante é uma vida poética que ‘o homem habita poeticamente (dichterishch) sobre a terra’ (…) Uma vida poética que é habitada poeticamente é uma vida que vive segundo um ditado, quer dizer, de um modo que não é possível decidir nem apropriar, segundo um hábito, uma ‘habiência’ que em caso nenhum podemos haver/ter, mas somente habitar”» (Costa 2026a,13-14).

Bailarinas Irene Almeida e Liliana Oliveira da Companhia de Dança Arte Total, com Direção Coreográfica de Carolina Vieira, preparando-se para uma dança contemporânea, ao som do piano tocado por João Tiago Magalhães © fotografia: Paulo Sá

Bailarinas Irene Almeida e Liliana Oliveira da Companhia de Dança Arte Total, com direção coreográfica de Carolina Vieira, preparando-se para uma dança contemporânea, ao som do piano tocado por João Tiago Magalhães. Fotografia © Paulo Sá.

Atendamos a uma nota de abertura maior: esta é apenas a ideia com que João Paulo Costa ― na sequência de uma sentença, colocada em epígrafe, da autoria de Rui Chafes: “Só uma ideia pode criar uma casa” (Chafes 2006,27) ― cria a sua Casa da Sabedoria Terebinthus. Depois de evocar outras Casas da Sabedoria, ele especifica, em detalhes habitados, as qualidades hospedais da sua casa: perfumada, resistente, multicolor e umbrosa. Como é um terebinto, ferido no tronco e com drupas globulares. Sem desnudar a casa, com apresentações de guia que se presume informado, prefiro que a habiteis através da vossa leitura, com o pensamento a ser constantemente incitado.

Casa num dos trilhos de Sistelo, Arcos de Valdevez © fotografia: Joaquim Félix

Casa num dos trilhos de Sistelo, Arcos de Valdevez. Fotografia © Joaquim Félix.

Tendo em conta que ambos os livros me foram oferecidos como «incitações ao pensamento», dei comigo a revisitar/habitar uma casa junto de um caminho rural na freguesia de Sistelo, nos Arcos de Valdevez. Tendo passado por uma cobra, num verde de Primavera inaugural, saudei um agricultor a lançar adubo às ervas das vacas de raça cachena. A sua mão, larga e rugosa, assemelhava-se à de um semeador. Depois, passei por um tentilhão, que me saudou, poisado na dobra de um socalco. A hora era crepuscular. Um pouco acima, levantei os olhos para uma transfiguração: eis que uma casa se me oferecia ao olhar. Tinha por companhia um carvalho, uma pequena ramada e o murmúrio da água que descia pelo caminho de pedra. Essa habitação fez-me pensar na Casa da sabedoria. Não lhe faltava vertigem, nem alfaias para cuidar da habiência de um habitar poético. Olhando para a «Brilliant Anatomy» (pintura de Horácio Frutuoso), com que a capa bem-dispôs o ensaio, sinto que o coração daquela casa, como o da Casa de João Paulo Costa, é uma escada vermelha. Transparentes e com telhados de amarelo-solar, todas estas casas, como metáforas da Casa da Sabedoria Terebinthus, deslocam-se com as suas cicatrizes, cujas linhas os versos cantam em Urdiduras espaciais. Sejam elas espelhos das minhas, das vossas ou de quem ler estes livros, mesmo se elas esplendem desde uma abissologia negra, e além-negrume ― semelhantes aos vitrais de Pierre Soulages ― dos nossos dias.

À luz dos ícones epigráficos

A minha penúltima nota, entre tantas possíveis, vai para algo que poderia passar despercebido, mas que me parece na semelhança de ícones escritos como os letreiros, em grego e latim, nas ruas romanas de Pompeia, escavada como iluminação a dar às ruínas sobre as quais se caminha. Letreiros que o Vulcão, neste caso, o Vesúvio, não conseguiu apagar com cinzas, nem com a terrível onda piroclástica. Neste olhar-arqueólogo, de escavação em escavação, nos campos do encontro com o diverso, esplenderam-me como gemas carmins as epígrafes das Meditações filopoiéticas em Magdala.

Façamos delas agora um colar de seis drupas negras. Na evocação de uma nova criação?

Os pássaros cantam ao ouvir ecos distantes. (I)
Est-il possible semer sans s’aimer ? (II)
Sê tu próprio criador de novas parábolas! Faz de ti uma parábola nova da existência humana! (III)
Do grande medo ao acalmar de corpos trémulos, é sempre uma viagem inesperada que nos alcança. (IV)
Para onde é que Ele vai? O Olho ouve às vezes, a Voz sempre! (V)
Como construir e acampar numa casa? Toda uma casa a fazer-se como se… (VI)

Por quem foram escritos estes ícones epigráficos? Nem mais, por Jean Abélard-Aloé. João: por quem Deus faz graça, a nossa gratidão. Não nos faltes com esta escola-do-outro-lado-do-rio (em Paris?); de Abelardo, sim, ousado pensador do século XII. E, tal como ele, com a introdução da Dialética, não nos falte uma razão que frutifica, lava, perfuma e cura com as essências de Aloé-vera. Na verdade, sem necessariamente se pretender uma homologação por razões onomásticas, também João Paulo Costa, num modo sui generis, desenvolve neste casal-de-livros uma espécie de síntese teológica a partir das declinações da Dialética. Não porque prescinda dos dados bíblicos e históricos, porque eles estão sempre presentes, tanto mais nas Meditações filopoiéticas, que se aproximam da expressão homilética, elaboradas a partir dos textos da Sagrada Escritura, nomeadamente dos Evangelhos, proclamados na liturgia.

Panorâmica da sessão de apresentação dos livros. Fotografia © Paulo Sá.

Dialética é, entre outras, uma das obras mais influentes de Abelardo, que, por sua vez se inspira no pensamento de Boécio. Quanto à sua Lógica, que se conservará como a mais influente até finais do século XIII, pode dizer-se que ela fornecia aos estudantes argumentos e recursos bem sustentados para as disputas metafísicas e teológicas nas diferentes escolas de então, inclusive em Roma. Sem desviar a atenção para periferias, que poderiam deslocar a atenção para desideratos não sugeridos por João Paulo Costa, creio que, no corpo textual de ambos os livros, existe uma linha de pensamento diagonal, que se alinhará com o pensamento de Abelardo: a necessidade de evitar preconceitos e a coragem de ousar o pensamento livre. Algo que se conseguirá com uma espécie de Dialética entre os saberes, não já segundo as formas de ensino e a conceptualização da velha escola platónica. E assim como a obra de Abelardo foi um decisivo embrião para o primeiro ensino universitário e a Escolástica, no século XIII, destacando-se das práticas das escolas locais de então ― monásticas, conventuais e catedralícias ―, assim também estas obras joaninas, ainda que de forma modesta, na expressão do seu autor, poderão apontar a modelos outros de ensino universitário, desenvolvendo ou rompendo mesmo com algumas práticas atuais, saturadas e sufocadas num certo academicismo.

João Paulo Costa durante a sua intervenção © fotografia: Paulo Sá

João Paulo Costa durante a sua intervenção. Fotografia © Paulo Sá.

A metodologia proposta por Abelardo, no sentido de considerar as diferentes perspetivas sobre as questões em debate, tendo em conta inclusive as contraditórias, esteve na base do nascimento da Escolástica, com recurso à técnica das Disputas e do género literário das Sumas. Tão importante quanto estas inovações, pode considerar-se a sua conceção ética, em tudo original, isto é, a intenção é tão importante quanto o ato que dela dimana. Sem ser necessário proclamar a vitória de Abelardo sobre Bernardo de Claraval, creio que o pensamento e as intenções, não novas, mas revisitadas por João Paulo Costa, estimar-se-ão como embrionárias em relação a algo inédito-não-novo que poderá despontar e proporcionar novos frutos da razão.

 

A casa onírica pela mão de Cristina Vilarinho

Sem me demorar mais, reservo a minha última atenção para Cristina Vilarinho, cuja «mão pensante» deu à luz, em doze esboços, «uma casa em movimento». Numa sucessiva criação de hipóteses, ou esboços arquitetónicos como realmente são, para as saborear com seu o pensamento, creio que bastaria partilhar as suas palavras, escritas a propósito da undécima e da duodécima:  «Criei mais duas hipóteses, sendo a última a que mais me agrada por ser simples e talvez mais forte; conjuga a gestualidade do sedenho e, por isso, a humanidade implícita, reportando-nos para a ideia de casa com telhado, lugar de acolhimento e conforto, e os sete pilares, alicerces da sua edificação, mas também podendo ter como leitura as incisões ou fendas na casa da árvore como prova de resiliência. E por baixo o lettering, mais racional e despojado. Mas também me agrada o logo a cinza e amarelo, que parece um T, com a projeção de um polígono amarelo, como sombras de luz» (Costa 226,181).

Logo Terebinthus © fotografia: Cristina Vilarinho

Terebinthus. Fotografia © Cristina Vilarinho

Estas palavras encontram ressonância em João Paulo Costa, que, numa Adenda, partilha o diálogo com Cristina Vilarinho, sobre a «ontogénese artística da casa onírica do ser», no qual sublinha o desdobramento da ideia inicial: «Mais do que o resultado é o processo que é fundamental evidenciar, a génese, o que vem do fundo, que não se vê, mas que tora possível o que é visível. A relação entre razão e afecto, meditação e pensamento é fundamental na ideia de corpo sensível que são todas as coisas no qual o Invisível se faz carne visível, como um corpo (sombra) de luz em ascensão sem nunca atingir a plenitude, pois esta é sempre um caminho a fazer-se…» (Costa 2026, 181).

Além disso, articulando dimensões complementares, esta casa em movimento fará lembrar, segundo a visão do profeta Ezequiel (cf. Ez 1 e 10), as quatro rodas celestiais (ofanim), cheias de olhos, que se movem acompanhando o movimento dos querubins sob o impulso do Espírito.

«O aspeto das rodas, e a obra delas, era como o brilho de crisólita; e as quatro tinham uma mesma semelhança; e era o seu aspeto, e a sua obra, como se estivera uma roda no meio de outra roda. Andando elas, iam em qualquer das quatro direções sem se virarem quando andavam. Estas rodas eram altas e formidáveis; e as quatro tinham as suas cambotas cheias de olhos ao redor. E quando andavam os seres viventes, andavam as rodas ao lado deles; e quando os seres viventes se elevavam da terra, elevavam-se também as rodas. Para onde o espírito queria ir, iam eles, mesmo para onde o espírito tinha de ir; e as rodas se elevavam ao lado deles; porque o espírito do ser vivente estava nas rodas. Quando aqueles andavam, andavam estas; e quando aqueles paravam, paravam estas; e quando aqueles se elevavam da terra, elevavam-se também as rodas ao lado deles; porque o espírito do ser vivente estava nas rodas» (Ez 1,16-21).

Presença viva, a sabedoria divina move-se e age no mundo. Tal como na tradição mística de Israel, em que a sabedoria divina (glória de Yahweh) não se encontra estacionada ou limitada no templo de Jerusalém, também a casa onírica, à sua imagem e semelhança, se move e age no mundo cosmático. Movimento que, na apresentação de ambos os livros de João Paulo Costa, ficou bem patente até pela escolha do lugar: o Mercado Cultural do Carandá, requalificado por Eduardo Souto de Moura, obra que acolhe a escola de Dança Arte Total. Assim se apresentou a casa onírica que, pela sequência das intervenções, se revelou uma Casa da Sabedoria. Afinal era esse o propósito, conforme me confessou a posteriori João Paulo Costa, numa mensagem: «Sim, é como dizes, o desiderato deste encontro, no espaço também, era o de encarnar a u-topia ou o sonho de uma casa terebintina, ainda que por breves instantes, entre arte, reflexão, silêncio, voz, palavra, poesia, filosofia, mas como uma linha ou timbre que une o encontro inesperado do diverso, para não ser caos, mas casa caosmática rizomática…».

Um bem-haja ao amigo João Paulo Costa por concluir o seu instigante tríptico, formado por este ensaio e os dois precedentes: Indícios. À escuta dos traços de Deus (Costa 2016) e À sombra do Invisível. Fragmentos de um crer sapiencial (Costa 2020). Tríptico que fica bem coroado, não com cerejas maduras, mas com Urdiduras espaciais. Através da sua leitura, habitaremos a Casa da Sabedoria Terebinthus.

Panorâmica parcial dos habitantes da Casa da Sabedoria Terebinthus em que sala do Mercado Cultural do Carandá * Arte Total se tornou © fotografia: Joaquim Félix

Panorâmica parcial dos habitantes da Casa da Sabedoria Terebinthus em que sala do Mercado Cultural do Carandá * Arte Total se tornou © fotografia: Joaquim Félix

 

Referências

Gaston Bachelard, La psychanalyse du feu. Saint-Amand: Folio Essais, 1938.
Rui Chafes, O Silêncio de… Lisboa: Assírio & Alvim, 2006.
João Paulo Costa, Indícios. À escuta dos traços de Deus. Lisboa: UCP Editora, 2016; À sombra do Invisível. Fragmentos de um crer sapiencial. Lisboa: Documenta, 2020; Com sabedoria se habita uma casa. Meditações à sombra de um terebinto. Porto: Officium Lectionis, 2026; Urdiduras espaciais. Porto: Officium Lectionis, 2026.
Carlos Poças Falcão, «Tecer uma casa para habitar o mundo». Em João Paulo Costa, Urdiduras espaciais, 5-7. Porto: Officium Lectionis, 2026.
Carlo Rovelli, Há lugares no mundo onde a gentileza é mais importante do que as regras. E outras ideias sobre física, filosofia e o mundo. Lisboa: Objectiva, 2024.

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens. Este texto corresponde à intervenção na sessão de apresentação dos livros de João Paulo Costa.

 

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