Hagya Sophia de novo mesquita: o olhar de quatro muçulmanos portugueses

| 26 Jul 20

Hagya Sophia. Istambul

Mosaicos cristãos e símbolos muçulmanos na Hagya Sophia (Istambul). Foto © António José Paulino

 

Antes uma igreja que um museu, um centro de diálogo inter-religioso de excelência, ou mesmo a possibilidade de cristãos e muçulmanos poderem utilizar o espaço para rezar, mesmo que em sítios separados. Quatro muçulmanos portugueses respondem com estas possibilidades a um curto inquérito do 7MARGENS sobre o modo como olham para a reconversão de Hagya Sophia em mesquita.

A decisão, tomada pelo Presidente Erdogan, foi consumada na sexta-feira, 24 de Julho, quando milhares de pessoas se juntaram nas imediações da antiga basílica cristã e ex-museu, para acompanhar a oração, onde Erdogan esteve presente.

O propósito e a decisão foram recebidos com muitas críticas por meios cristãos (sobretudo as igrejas ortodoxas, para as quais Hagya Sophia tem a carga simbólica que São Pedro do Vaticano tem para os católicos). Mas também houve líderes muçulmanos a condenarem a decisão, enquanto outros cristãos defendiam que é melhor que o edifício seja uma mesquita que um museu.

Na mesma linha se colocam dois dos inquiridos pelo 7MARGENS: “Como crente preferiria que fosse uma igreja do que um museu”, diz Khalid Jamal, comentador do programa E Deus Criou o Mundo, da Antena1. “Uma vez que foi também uma basílica, poderia haver os dois cultos” no edifício, muçulmano e cristão.

Também Mahomed Yiossuf Mohamed Adamgy, que há quatro décadas edita a revista Al Furqán (que significa “o critério do bem e do mal”) “veria com bons olhos” quer um centro de diálogo inter-religioso, quer a possibilidade de um lugar de culto onde cristãos e muçulmanos pudessem rezar.

Já Mahomed Abed, ex-responsável do programa da Comunidade Islâmica de Lisboa (CIL) na RTP e também ex-dirigente da CIL, defende que deveria fazer-se “uma campanha de sensibilização para ser criado um centro de diálogo inter-religioso de excelência” em Hagya Sophia. Abed chama a atenção também para o carácter político da decisão de Erdogan, que considera ter “a ver com o impasse no processo de adesão da Turquia à União Europeia”.

As perguntas feitas pelo 7MARGENS e as respostas completas dos quatro inquiridos são as seguintes:

  1. Como olha para a decisão de reconverter a Hagia Sophia em mesquita?
  2. Que razões considera que devem ser trazidas ao debate?
  3. Como encara as opiniões segundo as quais ela deveria ser transformada em lugar de culto misto (cristão e muçulmano) ou um centro de diálogo inter-religioso?

 

Xeque David Munir, imã da Mesquita Central de Lisboa:
Não há “transgressão nem violência”

Xeque David Munir, imã da Mesquita Central de Lisboa

  1. Foi o tribunal turco que decidiu, mais Hagya Sophia tem uma história, que provavelmente muitas pessoas desconhecem: quando no ano 1451 o sultão Mahmet conquistou Constantinopla, comprou este espaço. Fez um acordo e há documentos escritos sobre essa compra. Depois disso é que fez do edifício uma mesquita, até Kemal Ataturk o transformar num museu.
    Erdogan disse, na sua campanha, que iria propor ao Tribunal que Hagya Sophia voltasse a ser mesquita. O tribunal, como órgão independente, deu autorização. Uma vez que o edifício foi comprado e era uma mesquita e voltou a ser o que era, penso que não há aqui nenhuma transgressão nem nenhuma violência.
  1. Muitas mesquitas foram transformadas em igrejas e catedrais, na Grécia, Bulgária, Hungria, Portugal (temos exemplos em Mértola e Tavira), em Espanha e muitos outros sítios, transformadas. O debate devia, por isso, ser muito mais amplo. A religião é uma coisa muito sensível. Temos de ter muita cautela, para perceber se isto pode beneficiar ou não a sociedade.
  2. Cada país é soberano e as pessoas têm o direito de opinar. Se os turcos achasse que poderia ser um lugar misto, muito bem. Hagya Sophia é um edifício marcante e histórico. Uma vez que foi também uma basílica, poderia haver os dois cultos: de um lado os muçulmanos e, sem incomodar os cristãos, que também estes tivessem o seu espaço.

 

 
Khalid Abdool Sacoor D. Jamal, comentador do programa E Deus Criou o Mundo, da Antena1:
“Não vejo problema”

Khalid Jamal D. Jamal

  1. Ao contrário do que tem sido veiculado na imprensa, não vejo problema. Do mesmo modo que não vejo problema na conversão da outrora mesquita de Mértola numa igreja.
    Dito isto, há considerandos importantes, designadamente o imperativo de não ser destruído o património (que por exemplo ocorreu com os Budas do Afeganistão) e de haver sempre a possibilidade de visitas a todos (conforme aliás já avançado pelo Presidente Erdogan) tendo presente que o edificado é reputado como um dos baluartes da arquitectura bizantina.
    É preciso não esquecer que essa decisão cabe ao povo turco, soberano e cujo Presidente foi eleito e a decisão não brota de uma ideia do próprio, mas é legitimada pelo Conselho de Estado.
    É inevitável pensarmos também se tal pode ser consequência e o expressar uma onda de intolerância, crescente infelizmente um pouco por todo o mundo.
  2. Há vários factores que devem ser atendíveis: (i) A funcionalidade do espaço, que no meu entender deve servir a maioria – que é islâmica, daí dizer que embora compreenda a inquietação, não me oferece espanto nem resistência; (ii) O fundamento da conversão em museu pelo jovem líder de então Mustafa Kemal, que estava desejoso de “oferecê-la à humanidade” e a alegada falsificação da sua assinatura; que potenciam e sustentam o volte-face; (iii) com menos importância, a questão arquitectónica (pessoalmente vejo uma mesquita e tal suporta a decisão) e a questão do número de anos (tendo sido igreja o dobro dos anos que foi mesquita, e sendo aplicado este critério devendo manter-se como tal; (iv) a legitimidade e o poder da UNESCO em emitir pareceres ou não e em que medida é que estes são vinculativos (seja para este caso ou para o futuro).
  3. Vejo tal com muita apreensão, dado que sou um defensor acérrimo do diálogo inter-religioso mas não do sincretismo. Cristãos e muçulmanos devem orar, para uma mesma causa, mas não criando uma oração conjunta, pois tal é difícil, para não dizer impossível e isso só esvazia ambas as fés.
    Defendo pois, que o espaço deve ser usado para as orações e como crente preferiria que fosse uma igreja do que um museu.

 

Mahomed Abed, ex-responsável do programa da Comunidade Islâmica de Lisboa na RTP e ex-dirigente da CIL:
“Uma decisão política”

Mahomed Abed

  1. A basílica foi construída para ser catedral [bizantina] de Constantinopla, passou depois a catedral católica romana, depois para mesquita e finalmente, depois de reconstruída, passou a ser um museu.
    Agora é reconvertida novamente em mesquita! É uma decisão política e de afirmação de soberania do Presidente Erdogan e tem a ver com o impasse no processo de adesão da Turquia à União Europeia.
  1. O processo de adesão da Turquia à UE e a islamofobia. Ter em atenção que a Turquia é um aliado estratégico da OTAN [Organização do Tratado Atlântico Norte] devido, em parte, à sua situação geográfica. Alguns pontos para reflexão: (i) a Turquia assinou um acordo com a então Comunidade Económica Europeia em 1963; (ii) desde Abril de 1987 que há um pedido da Turquia para adesão à União Europeia [UE]; (iii) em 1995 assinou um acordo de união aduaneira com a UE; (iii) em 1999 foi reconhecida como candidato à adesão à UE e já lá vão 21 anos!
  1. Sendo um facto consumado a reconversão do museu em mesquita e tendo sido considerado Património Mundial pela UNESCO, penso que deveria haver uma campanha de sensibilização para ser criado um centro de diálogo inter-religioso de excelência.

 

Mahomed Yiossuf Mohamed Adamgy, editor da revista Al-Furqán:
“Compete aos turcos a decisão”

Mahomed Yiossuf Mohamed Adamgy

  1. Segundo informações divulgadas pelo Monitor do Oriente Médio: “Um alto tribunal turco pôs fim ao decreto de 1934 que transformou a Hagia Sophia de Istambul num museu, abrindo caminho para o seu uso novamente como mesquita, após um hiato de 85 anos”.
    O Serviço de Fundações Permanentes para Artefactos Históricos e Associação de Meio Ambiente, uma ONG de Istambul, havia apresentado uma petição ao Conselho de Estado pedindo a anulação da decisão de converter Hagia Sophia em museu depois de ter sido usada como mesquita por quase 500 anos.
    O tribunal ouviu os argumentos das partes numa audiência de 2 de julho, antes de emitir a sua decisão.
    De acordo com a decisão do tribunal, Hagia Sophia era propriedade de uma fundação criada pelo sultão otomano Mehmet II e foi apresentada à comunidade como uma mesquita.
    A decisão dizia que, na sua escritura, Hagia Sophia foi definida como uma “mesquita” e isso não pode ser legalmente alterado.
    Concluiu que não é legalmente possível usar o edifício como algo que não seja uma mesquita, como definido na escritura.
    Sob o Império Bizantino, Hagia Sophia foi usada como Igreja por 916 anos. Em 1453, depois de o Império Otomano ter conquistado Istambul, foi convertida em mesquita pelo sultão Mehmet II.
    Um tesouro incomparável da arquitetura mundial, Hagia Sophia passou por obras de restauração durante a era otomana, incluindo a adição de minaretes para a chamada à oração pelo famoso arquiteto Mimar Sinan.”
  1. Propriedade de uma fundação criada pelo sultão otomano Mehmet II, convertida em mesquita depois da tomada de Constantinopla pelos otomanos, em 1453, a mesquita foi transformada em museu em 1934 pelo fundador da República Turca secular, Mustafa Kemal Ataturk, que proibiu até o chamamento à oração. As ordens espirituais foram banidas, vestimentas religiosas foram vetadas, e até mesmo o Alcorão no próprio idioma foi proibido pelo Governo secular da Turquia daquela época. Deve-se debater se a actuação do governo de Ataturk foi legal ou ilegal?
  2. Por mim, veria com bons olhos qualquer uma dessas duas hipóteses. Mas julgo que compete ao povo turco a decisão final.

 

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