Haiti: 10 religiosos raptados, a face visível de um país sob sequestro

| 19 Abr 21

 

Jovenel Moïse, presidente da República do Haiti, demitiu o governo para tentar serenar os ânimos, mas enfrenta muita contestação. Foto retirada do vídeo da sua mensagem de ano novo

 

Sequestros, greves, desemprego e miséria tornaram-se as marcas do quotidiano do povo do Haiti, na ilha de Hispaniola, que é partilhada também pela República Dominicana.

Na última semana, a tensão subiu de forma acentuada, na sequência das movimentações e protestos decorrentes do rapto de uma dezena de religiosos, numa zona periférica da capital, Port-au-Prince. Fruto do clamor que se gerou (dois dos sequestrados são franceses), o chefe do Governo, Joseph Jouthe, foi forçado a demitir-se pelo Presidente da República, Jovenel Moïse, ele próprio também contestado.

Um dos setores sociais mais atingidos pelos sequestros são os condutores de transportes públicos, muitos dos quais são donos dos seus pequenos autocarros e carrinhas. Por isso, não podem deixar de trabalhar, mas correm graves riscos se forem para a rua. Mas também há raptos de comerciantes, estudantes e automobilistas…

Na noite anterior ao sequestro dos religiosos, um médico e um contabilista desapareceram em Delmas 75, a oeste da capital; no passado dia 1, quatro pessoas, incluindo um pastor protestante, foram sequestrados durante um serviço religioso por homens fortemente armados, que transmitiram o ataque ao vivo pela internet, o que dá bem a ideia do à-vontade com que atuam.

O rapto de domingo, dia 11, ocorreu em Croix-des-Bouquets, envolveu cinco padres, duas religiosas e três leigos, que iam para a tomada de posse do novo pároco de Galette Chambon. Os raptores, que a polícia suspeita pertenceram a um grupo armado designado “400 Mawozo”, exigiram de imediato um milhão de dólares pelo resgate.

Em declarações há dias ao jornal Ouest-France, o jurista e politólogo Éric Sauray fez notar que, nas fileiras daquele grupo, se incluem “ex-polícias – e até mesmo agentes no ativo – e ativistas políticos ou ex-ativistas, vinculados a governantes eleitos ou detentores simbólicos de poder político e cultural”.

Em meados de março último, o Presidente Moïse declarou o estado de emergência pelo período de um mês em algumas áreas controladas por gangues armados na área metropolitana da capital e noutros locais que as forças de segurança não controlam. A medida surgiu depois de uma operação fracassada da Polícia Nacional num desses locais problemáticos, que resultou na morte de cinco agentes.

De acordo com a mesma fonte, uma boa centena de bandos armados espalham-se pelo Haiti, vivendo do tráfico, do roubo de carros e de sequestros. “Rico ou pobre, haitiano ou estrangeiro, ninguém parece seguro”, refere o jornal.

 

Bispos convocam jornada nacional

Na última quinta-feira, a Conferência Episcopal do Haiti organizou uma jornada nacional de sensibilização contra a “ditadura do sequestro”, com suspensão de atividades das instituições católicas, que se traduziu em celebrações, repique de sinos e missas (incluindo de comunidades de haitianos em países como a República Dominicana, os Estados Unidos e a França). A celebração principal decorreu numa igreja da cidade, com a presença de 11 bispos.

Esta assim designada “missa pela mudança no Haiti” não apenas lotou o espaço de culto como reuniu uma pequena multidão à volta dele. Relatos de testemunhas indicam que grupos de jovens entoaram slogans de repúdio pela violência (“Estamos fartos! Estamos fartos!”) e de crítica aos governantes (“Abaixo Jovenel!”, referindo-se ao Presidente do Haiti), em alguns momentos do ato.

No final da missa, quando o cortejo dos celebrantes descia pelo meio do tempo, a tensão degenerou em caos, quando se ouviram gritos de que estavam a lançar gás lacrimogéneo, levando a que uma parte dos presentes tivesse de ser socorrida. A outra parte, que veio para a rua, foi objeto de violência de forças policiais que se encontravam no exterior da igreja.

O Presidente da República do Haiti procurou acalmar a situação ao demitir o Governo e prometendo convocar finalmente novas eleições em setembro próximo (deveriam ter ocorrido em 2019). A instabilidade política (meia dúzia de governos nos últimos cinco anos), a insegurança e o medo têm pautado a vida deste país de maioria católica, com uma área de um terço da de Portugal e perto de 12 milhões de habitantes.

 

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