
Vários líderes religiosos de Springfield apelaram à oração pela comunidade haitiana, acusada por Trump de comer cães e gatos. Foto © JennaJordanTV
Na cidade de Springfield, no estado de Ohio, nos Estados Unidos da América, há uma comunidade frustrada e magoada, desde o dia 10 deste mês de setembro. Foi quando o candidato presidencial Donald Trump, em pleno debate televisivo com Kamala Harrris, se lembrou de argumentar em favor das suas ideias anti-imigração alegando que aquela cidade havia sido “tomada” por haitianos que, para não morrerem à fome, comiam cães e gatos da vizinhança. Esta comunidade e a própria cidade viram-se envolvidos e perturbados por uma falsidade, mas uma comunidade cristã local foi, no último domingo, espaço de acolhimento e de solidariedade.
De facto, a comunidade haitiana já sofria há algum tempo, desde que essa informação falsa começou a correr nos círculos trumpistas e foi amplificada no plano nacional por figuras republicanas de primeiro plano. Apesar de ter sido imediatamente denunciada e desmentida, o candidato republicano não hesitou em recorrer a ela no debate e, apesar do escândalo gerado, repeti-la nos dias seguintes.
As autoridades locais procuraram assegurar não haver qualquer registo oficial de tal prática por parte de indivíduos da comunidade imigrante. A resposta foi o surgimento de ameaças de bomba que levaram, na última semana, ao encerramento da câmara municipal e de duas escolas.
As declarações de Trump fizeram temer o surgimento de divisões e conflitos numa cidade que tem conseguido uma convivência pacífica e em que o governador estadual, que é republicano, reconheceu, em declarações à televisão ABC, que os haitianos são “boas pessoas e trabalhadoras”, que estão legalmente nos Estados Unidos e que “os falsos rumores são lixo da Internet”.
A cidade de Springfield, que tem cerca de 60 mil habitantes, abriga, segundo a CNN, de 12 mil a 15 mil imigrantes, entre os quais os imigrantes haitianos que estão lá legalmente. Nos últimos anos, com o Haiti controlado em vastas zonas por gangues criminosos, esses imigrantes recorreram a uma cláusula legal que permite solicitar a vinda de familiares do Haiti para os EUA e alguns milhares entraram assim regularmente.
No último domingo, o primeiro depois do debate eleitoral, a comunidade haitiana reuniu-se como de costume para a celebração dominical, mas como refere um trabalho da Associated Press, desta vez ela “precisava mais do que nunca de um bálsamo encorajador”, porque, de repente se tornou, por falsas razões, a causa da perturbação da vida de toda a cidade.
O líder do Centro de Ajuda e Apoio à Comunidade Haitiana em Springfield aceitou o convite do pastor da Igreja Cristã Central, Carl Ruby, para juntar em oração os membros da comunidade haitiana à congregação que ali celebra o serviço dominical.
Uma vez reunidos, Ruby incentivou a assembleia a colaborar na distribuição de milhares de cartões aos habitantes da cidade, impressos em crioulo e inglês, com uma mensagem de apoio aos haitianos que, segundo a reportagem da AP, diz: “Estou feliz que estejas aqui. Cristo ama-te e eu também.”
Ele pediu aos cristãos que frequentam habitualmente aquele espaço que orassem e pensassem sobre “o que significa ser um pai haitiano que manda o seu filho para a escola esta semana”. Foi também exigido um pedido de desculpas, por parte de quem lançou e propagou a mensagem ofensiva.
“Pedimos respeitosamente a todos os políticos e personalidades dos média que estão a propagar esse boato que ajudem a tornar Springfield grande e segura novamente, contando a verdade sobre a nossa comunidade”, pediu o clérigo.









