Hamelin e a relativização do mal

| 2 Dez 20

A pintura mais antiga do Flautista de Hamelin, da autoria de Augustin von Moersperg, cópia do vitral da Igreja do Mercado (Marktkirche) em Hamelin, Alemanha(c.1300-1633) .

 

Um dos maiores incómodos dos nossos dias para as pessoas de princípios é o de verificar que os populismos tendem a relativizar o mal ou mesmo a branqueá-lo. Mas o incómodo transforma-se em perplexidade quando se conclui que muitos cristãos entraram nessa onda e venderam a alma ao diabo.

 

Se o diabo em pessoa surgisse bem vestido, com um discurso conservador, a relativizar a falta de ética social, a falta de amor e de cuidado pelo próximo, aliado aos poderosos, mas a marginalizar minorias e a apontar o dedo a determinados comportamentos relacionados com uma certa moral sexual, muitos cristãos o seguiriam como os ratos seguiram o flautista de Hamelin, hipnotizados, até se afogarem no rio. No conto dos irmãos Grimm, O Flautista de Hamelin, narra-se a estória de como aquela comunidade germânica se viu livre duma praga de ratos, no séc. XIII.

Se um Hitler ou um Estaline voltassem à terra e se candidatassem a eleições, bastava dizerem que eram contra o aborto, os gays e que apoiavam Israel e as igrejas para terem o apoio dos sectores cristãos mais conservadores. Os mesmos sectores que resolveram relativizar o mal. Elienai Cabral Jr. põe o dedo na ferida: “A questão que me atordoa: por que evangélicos, portadores de uma moral de costumes rigorosa, faz uma aliança tão firme com Trump, um dono de cassino no terceiro casamento, cercado de escândalos sexuais, que se gabava de ‘agarrar mulheres’ e de ’nunca ter pedido perdão a Deus’?”

Donald Trump passa pelos pingos da chuva com a maior das facilidades sem se molhar. A possível destituição devido a crimes graves em política internacional foi anulada pelo facciosismo dos seus apoiantes no Senado. O escândalo de ter mandado o seu advogado pagar 130 mil dólares a uma prostituta para se calar e não prestar testemunho contra ele passou-lhe ao lado. O facto da persistente fuga ao fisco e das dívidas astronómicas nem fez tremer a sua imagem pública no seio dos apoiantes, nem os insultos a adversários políticos ou o seu discurso machista, racista e xenófobo, ou mesmo as dezenas de milhares de mentiras comprovadas que proferiu publicamente durante o seu mandato ou a incitação à violência das milícias paramilitares dos supremacistas brancos. Chegou a dizer que, mesmo que matasse a tiro um homem na 5ª. Avenida, em Nova Iorque nada disso molestaria a sua imagem perante os apoiantes, e provavelmente tinha razão.

Entretanto, os líderes evangélicos não se limitaram a um apoio cego ao trumpismo, como ainda quiseram meter Deus ao barulho, ao profetizar uma vitória clara de Donald Trump. Viram-se agora obrigados a dar o braço a torcer. Foi o caso do californiano Kris Vallotton que pediu desculpa a Biden. Mas outros são tão orgulhosos que não conseguem fazê-lo ainda, como Jeremiah Johnson, da Carolina do Norte ou o controverso televangelista Kenneth Copeland. Também Pat Robertson, apresentador do Club 700 e fundador da rede de televisão Christian Broadcasting Network e da conservadora Christian Coalization, afirmou a pés juntos que o presidente dos Estados Unidos seria reeleito, ao afirmar que Deus lhe teria mostrado que Donald Trump venceria as eleições. Pura estultícia.

Franklin Graham – que herdou do pai o nome mas não a sabedoria nem o prestígio – fez tudo para amedrontar os cristãos com a possível vitória de Biden, dizendo que haveria “um ataque contra as empresas cristãs” e manipulou-os para que votassem no presidente que se tem revelado a maior ruína moral de que há memória na Casa Branca. Ou seja, um segmento visível da igreja americana alimentou o monstro do trumpismo à mão e viu-o crescer. Esperemos que não venha agora a ser devorada por ele.

As palavras do profeta Isaías dirigidas ao reino de Judá, há cerca de 2400 anos ainda soam actuais: “Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; que fazem das trevas luz, e da luz trevas; e fazem do amargo doce, e do doce amargo! Ai dos que são sábios a seus próprios olhos, e prudentes diante de si mesmos! Ai dos que são poderosos para beber vinho, e homens de poder para misturar bebida forte; Dos que justificam ao ímpio por suborno, e aos justos negam a justiça!” (Isaías 5:20-23).

A sedução do poder é tal que nem as vozes sensatas e moderadas são ouvidas, como é o caso do famoso escritor cristão Philip Yancey: “Muitas pessoas nos EUA, especialmente os evangélicos, estão a agarrar-se a uma agenda política, mesmo quando as pessoas que lideram esse movimento político não demonstram as qualidades de Jesus.”

É incrível como o relativismo moral imputado ao pensamento pós-moderno, e bem, afinal assenta como uma luva ao fundamentalismo religioso, neste caso interpretado por parte da igreja americana. Os ratos seguem em massa, hipnotizados pela flauta da pós-verdade, a caminho da morte. O drama é que, aqueles que caem na asneira de relativizar o mal, quando este se virar contra eles já não terão defesa possível, pois ninguém vai querer ouvir o seu grito de socorro.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

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