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Hans Küng, de “A Igreja” ao “Projeto Para Uma Ética Mundial”

| 06/05/2021

Hans Küng morreu aos 93 anos. Foto © UNED Universidad Nacional de Educación a Distancia/Wikimedia Commons

Nos princípios dos anos 70, do século passado, eram editados dois volumes, pela extinta Moraes Editores, da obra intitulada A Igreja, da autoria do eminente teólogo Hans Küng, que agora partiu para junto do seu Jesus.

O livro fez refletir os cristãos da época, pelo desassombro com que tratava vários assuntos da Igreja Católica Romana, e pela expressão ecuménica neles retratada. O mesmo teólogo escreveria muitos mais, mas um dos que mais marcou a minha sensibilidade foi o editado em 1990, Projeto Para Uma Ética Mundial.

Em toda a sua escrita percorria uma leveza de linguagem e não existia o medo de qualquer inquisição, colocando cada questão e saboreando a reflexão sobre o dogma da “infabilidade papal” que tão bem tratou (e que virá, não sei quando!, a escrever uma linda página da Igreja Católica Romana, quando esta eliminar este e outros dogmas, que são não-católicos, assumindo assim a Igreja uma atitude ecuménica de um novo ethos, relendo a Tradição, mas com Razão).

Küng é um profeta do nosso tempo, e isso viu-se quando a Congregação para a Defesa da Fé (antiga Santa inquisição) o sancionou, retirando-lhe a cátedra e o múnus. Hans Küng deixou na sua obra a beleza de ser cristão, da reflexão sem cadeias e a proposição de que as questões infalíveis não o são; por isso a Igreja deve estar-lhe grata e aprofundar o seu pensamento. Um dia a história saberá quem foi este grande teólogo.

Li A Igreja nos anos da sua publicação, e retive a nitidez da sua escrita. Escreve ele: “Porém Deus reinará ainda por outra forma completamente nova, diferente, manifesta a todo o mundo: quando Deus não existir em todos, mas for ‘tudo em todos’ (1.ª Coríntios 15,28) igualmente afirma o que e não o como”; e mais adiante: “Porque acreditamos no presente, podemos – contra toda a esperança – esperar um futuro. E porque esperamos um futuro, podemos – contra todo o skandalon – acreditar no presente”. Para o seu pensamento: “Uma fé destituída de crítica, dentro da teologia, passa tanto à margem das realidades como a crítica descrente. A verdadeira fé não impede a crítica, antes a fortalece. A crítica verdadeira não destrói a fé, antes a faz produzir fruto”. É este fruto que ele produz no II volume, sobre “As Dimensões da Igreja”, onde coloca a questão do dogma da infabilidade papal, com uma posição muito crítica, apontando sempre para que este dogma não é da catolicidade da Igreja.

Já no seu livro, que admirei, Projeto Para Uma Ética Mundial, chama todas as tradições religiosas para a construção de uma ética, que se oponha à guerra, porque será em nome delas (religiões) que ela surge. “É preciso que nunca nos esqueçamos: a Ética não é nem uma tética [tese, dogma] nem uma tática. Nem a lei (ética legal), nem a situação (ética de situação) devem prevalecer: normas descontextualizadas são vãs e uma situação sem normas carece de sentido.” Curioso que no seu capítulo VI, o livro descreve: “Não só liberdade, também igualdade e justiça”, “Não só igualdade, também pluralidade”, “Não só fraternidade, também irmandade entre homens e mulheres”, “Não só coexistência, também a Paz”, “Não só produtividade, também solidariedade em relação ao meio ambiente” e “Não só tolerância, também ecumenismo”.

Hans Küng era problemático, como o são todos os cristãos e cristãs, quando são profetas.

 

Joaquim Armindo é diácono católico da diocese do Porto, doutorado em Ecologia e Saúde Ambiental

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