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Hans Küng e o argumento ontológico

| 20/04/2021

Hans Küng na Sinagoga de Hechingen, 2 Março 2009: “Tal como o próprio diz, ele nunca desejou apenas acreditar, mas também saber.” Foto © Muesse/Wikimedia Commons

 

A morte recente do teólogo suíço Hans Küng despertou-me para a leitura da sua obra. O título mais disponível de imediato foi Aquilo em que creio (Was ich glaube), publicado originalmente em 2009. Neste livro, Küng expõe detalhadamente as suas crenças filosóficas, éticas, religiosas e científicas, revelando uma visão anti-dogmática acerca da fé, desfazendo habilmente alguns mitos acerca de Deus, do Homem e da relação entre fé e ciência, convidando-nos de facto a partilhar de uma visão integral e humanista do fenómeno humano.

Tal como o próprio diz, ele nunca desejou apenas acreditar, mas também saber. A sua fé nunca o deteve – muito pelo contrário, aliás – de procurar na antropologia, na física, na filosofia, e no diálogo entre todos estes campos do saber, uma visão mais esclarecida de Deus e do Homem, e também um plano de racionalidade passível de superar todas as divisões entre os seres humanos no sentido de um novo humanismo global que não excluísse ninguém.

Porém, discordo de Küng num ponto filosófico-teológico particular: a sua refutação recorrente do argumento ontológico. Influenciado, naturalmente, por Kant, Küng recusa que seja possível inferir a partir da ideia de Deus a sua existência, como defenderam, cada um à sua maneira, Santo Anselmo de Cantuária, Descartes, Leibniz e o próprio Hegel. Partindo da formulação de Deus como Infinito, Küng escreve que “da ideia de uma tal realidade infinita não é lícito deduzir a sua existência, isto é, de um ser perfeito ou absolutamente necessário não se deriva, sem mais, a sua existência real.” (2014, p.149)

Como já tive oportunidade de escrever noutras ocasiões, tenho opinião contrária. Julgo que é efetivamente possível deduzir o ser absolutamente necessário (Infinito, Absoluto ou Ser) a partir da ideia correspondente. Mais: acredito que não é preciso sequer partir da ideia mais elaborada e perfeita que podemos conceber (a de Suma Perfeição, Suprema Existência); podemos começar simplesmente pela evidência mais imediata e empírica que podemos ter: a de que há ser, precisamente porque somos e porque percecionamos o ser. Ora, é absolutamente evidente que há ser. Se o ser é tudo o que, de algum modo, qualquer que ele seja, existe, então o que existe não tem limites. Se o ser tivesse limites, que coisa poderia limitá-lo senão o nada, o não-ser? Mas, se o nada existisse, seria ser; e se não existisse (como não pode de todo existir, ou não seria absoluto nada) não poderia ser limite de nada.

Como explicava o grande filósofo dominicano do séc. XVI, Giordano Bruno, na sua magnífica obra Acerca do Infinito, do Universo e dos Mundos: “Pelo que vemos, portanto, devemos afirmar o infinito, visto que nenhuma coisa nos ocorre que não termine noutra, e nenhuma consta que termine em si própria.” Ou seja, nada termina no nada, mas sempre em alguma coisa. Por conseguinte, tudo o que há é ser, e o ser não tem limites, é infinito. Conclui-se então que existe o Infinito.

O Infinito não é só dimensão extensa, mas também – e sobretudo – plenitude de ser; isto é, Absoluto. Posto infinitamente em cada uma das suas partes, como um fractal reproduzindo-se ad infinitum, o Absoluto é absolutamente contínuo, sem falhas. Afirmar o contrário seria admitir nele a presença do nada como possibilidade, esse nada absoluto que absolutamente não pode existir. Conclui-se então que o Absoluto existe, a Suma Perfeição é real.

Mas, enfim, não obstante toda esta argumentação (que aparece aliás frequentemente na filosofia desde os pré-socráticos), o que julgo aqui mais essencial ainda é a intuição. Penso que toda a intuição subjetiva de que se é – intuição radical que a todos nos atravessa se ponderarmos bem no mistério radical de que somos e o que isso significa no reduto da nossa irredutível intimidade – contém já em si a evidência, não apenas da necessidade do meu ser particular, mas da necessidade absoluta do próprio Ser e sua infinitude. Há, portanto, aqui uma necessidade de desdobrar argumentativamente algo que estará já patente na intuição subjetiva. Sem esta intuição “ontológica”, não é possível compreender o alcance do argumento. A teologia, neste respeito, talvez devesse ceder o lugar à mística.

 

Ruben Azevedo é professor e membro do Ginásio de Educação Da Vinci – Campo de Ourique (Lisboa).

 

Bibliografia
KUNG, Hans (2014), Aquilo em que creio, trad. portuguesa de Artur Cardoso, Lisboa: Círculo de Leitores.

BRUNO, Giordano, Acerca do Infinito, do Universo e dos Mundos, Lisboa: FCG.

 

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