Hans Küng: morreu um gigante da teologia e do questionamento

| 7 Abr 21

Hans Küng

Hans Küng morreu aos 93 anos. Foto © UNED Universidad Nacional de Educación a Distancia/Wikimedia Commons

 

Uma das grandes figuras da teologia contemporânea, estudioso e defensor do movimento ecuménico: Hans Küng morreu esta terça-feira, 6, na Alemanha, país em que há muito vivia, com a idade de 93 anos. 

Foi um dos teólogos mais populares do mundo, com obras traduzidas em mais de 20 línguas, algumas das quais chegaram a ser mesmo best sellers. Quando o Papa João XXIII surpreendeu a Igreja Católica e o mundo com o anúncio da convocação de um concílio, no início de 1959, Küng entregou-se à tarefa de estudar a fundo o assunto e apareceu a publicar, no ano seguinte, a obra Concílio e Retorno à Unidade – Renovar-se para suscitar a unidade, traduzido pelas Éditions du Cerf para francês em 1961. 

Em 1962, o Papa nomeava-o consultor do Concílio, assessorando a delegação de bispos  da República Federal Alemã. Nessa tarefa, que o ocupou até ao fim da assembleia magna da Igreja, voltou a cruzar-se com um colega da docência, na Universidade de Tubinga, Joseph Ratzinger.

Hans Küng nasceu em 19 de março de 1928 em Sursee, Lucerna (Suíça), filho de um pequeno comerciante de calçado, e licenciou-se em Teologia pela Gregoriana de Roma. O seu posicionamento crítico surgiu logo numa das primeiras homilias em Roma, onde foi ordenado padre. O texto surge num dos volumes autobiográficos e refere um tema que o acompanharia toda a vida: governar, no Reino de Cristo, significa servir, mas isso está a apagar-se em Roma e na Igreja. O que há, em vez de serviço, é um desejo de poder. 

Nos anos 60 e 70, publicou algumas obras marcantes, com destaque para Ser Cristão, Existe Deus?, A Igreja ou Infalível – Uma Pergunta que irradiaram por todo o mundo, mas que começaram a ser escrutinadas pela Congregação da Doutrina da Fé. Muitas das posições doutrinais da Igreja foram abertamente contestadas pelo teólogo, desde logo a infalibilidade papal, posição dogmática decidida no século XIX e que ele via como obstáculo intransponível para o diálogo ecuménico.

O problema com Küng foi que ele, nas matérias mais diversas e também mais polémicas, como o sacerdócio feminino, o celibato eclesiástico obrigatório, não esgrimia discursos panfletários ou fundamentalistas, antes as ancorava em profunda reflexão histórica, filosófica e teológica. Talvez mais do que isso, como sublinham diversos estudiosos da sua obra, ele radica a sua indagação e a sua produção numa fé profunda numa Igreja animada pelo Evangelho de Jesus.

As objeções e questionamentos da Congregação da Doutrina da Fé, já durante o pontificado de Paulo VI, culminaram na sanção que aquela lhe aplicou de cancelar a autorização eclesiástica para lecionar teologia católica. Foi o primeiro teólogo punido e silenciado, no pontificado de João Paulo II, em 1979. Teve, por isso, de deixar a cátedra que tinha na Faculdade de Teologia da Universidade de Tubinga, ficando impedido de usar o título de teólogo católico. 

Ao receber a notificação com o veredicto romano, declarou aos jornalistas que o esperavam, na Universidade: “Tenho vergonha da minha Igreja pelo facto de processos secretos inquisitoriais ainda estarem vigentes em pleno século XX.”

A mesma Universidade de Tubinga, contudo, encontrou um estatuto que lhe possibilitou continuar a ensinar no âmbito da cátedra de Teologia Ecuménica e Dogmática, e a dirigir o Instituto de Investigação Ecuménica, como recorda a agência Efe.

Como defendeu na obra sobre o Cristianismo, na trilogia que dedicou às três grandes religiões do Livro, tornava-se necessário buscar, para o futuro do Cristianismo, um novo modelo ou paradigma, que designou por “pós-confessional” ou “ecuménico”. Isto para evitar que as igrejas se transmutassem em seitas.

Uns anos depois, nesta mesma linha, decidiu criar e veio a assumir a presidência da Fundação Ética Mundial “Weltethos” (Ethos universal), com a finalidade de estudar e fomentar o diálogo entre religiões, culturas e nações, como via para a paz e a convivência. 

Os colegas e amigos de juventude – Hans Küng e Joseph Ratzinger – seguiram caminhos diversos na forma de viver e exprimir a fé cristã no quadro da Igreja. Em 2005, o então Papa Bento XVI convidou Küng para um jantar em Castelgandolfo. Aparentemente, o gesto não teve consequências. E quando o Papa abriu as portas aos seguidores do bispo Marcel Lefebvre, que recusavam os textos do Concílio Vaticano II, ou aos clérigos anglicanos que queriam mudar para o catolicismo, Küng não poupou nas críticas aos rumos que ele estava a dar à Igreja. 

Não espanta que o teólogo tenha visto em Francisco uma esperança de mudanças e, sobretudo, a vontade de querer tirar todas as consequências do Concílio Vaticano II. Durante algum tempo trocaram mensagens e Küng confessou a sua alegria por ver o Papa disposto a dialogar com ele. Mas também daqui não se seguiram passos que poderiam ser expectáveis.

Hans Küng foi um pioneiro em muitas matérias e também uma voz profética. Desejou convictamente uma Igreja menos clerical, menos arrogante e mais aberta, dialogante e com mais frescura. Mais próxima de todas as margens da vida.

 

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