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Hanuká, a luz judaica do renascimento

| 22/12/2019

Hanuká, a luz judaica do renascimento

by | 22 Dez 19 | Destaques, Últimas

Coincidência de calendário, os judeus celebram normalmente a sua festa de Hanuká na mesma época em que os cristãos celebram o Natal. A festa das Luzes celebra a purificação do Templo de Jerusalém, depois da profanação selêucida. A luz e o nascimento são símbolos que atravessam também o islão, o budismo ou o hinduísmo…

No hanukiá, o candelabro de Hanuká, acende-se uma vela cada um dos oito dias e uma outra diariamente. Foto: Direitos reservados

 

Os judeus iniciam a festa de Hanuká neste domingo, 22 de Dezembro, ao pôr-do-sol. A Festa das Luzes ou da Dedicação, é uma das mais importantes do calendário judaico: durante oito dias, recorda-se a reinauguração do Templo de Jerusalém, depois de este ter sido profanado pelos selêucidas sírios.

Em 165 a.E.C. (antes da Era Comum), foi Judá Macabeu quem liderou uma guerra de guerrilha contra a ocupação selêucida. A perseguição era violenta: o rei Antioco Epifânio queria helenizar a Síria e a Judeia. Proibiu a celebração do Sabat, a leitura da Bíblia e a circuncisão. Duas mulheres que tinham circuncidado foram apanhadas e atiradas pela muralha de Jerusalém. Pior ainda: o rei ordenou sacrifícios com porcos no Templo de Jerusalém, colocando nele uma estátua de Júpiter.

Quando, depois da reconquista de Jerusalém, os judeus purificaram o Templo, conta-se que foi encontrado um pote com azeite para acender a chama sagrada durante um dia. Mas o azeite durou oito dias. Por isso, em memória desse acontecimento, os judeus acendem anualmente (segundo o calendário lunar), em cada um dos oito dias, uma lamparina do candelabro de Hanuká, e mais uma que é acesa diariamente.

Tal como o Natal para os cristãos, a festa é, essencialmente, familiar. Há doces e, em alguns casos, prendas para as crianças, tradição iniciada talvez por causa do Natal. Tendo em conta a importância do azeite nesta festa, os doces são sobretudo fritos, como as rabanadas ou os sufganiot (com farinha, açúcar e canela). A família reúne-se em volta do hanukiá, a lâmpada de Hanuká. Enquanto se acendem as velas de Hanuká, reza-se uma bênção, canta-se uma das muitas canções da festa e recita-se o salmo 30: “Ao cair da noite, vem o pranto; e, ao amanhecer, volta a alegria./ Senhor, foste bom para mim e deste-me segurança;/ mas, se escondes a tua face, logo fico perturbado.”

 

A luz e o renascimento nas grandes tradições religiosas

Se o renascimento do Templo é importante, o nascimento de grandes figuras tem sempre dimensões extraordinárias. No judaísmo, podem citar-se os nomes de Moisés, Isaac e Samuel. Moisés é retirado das águas, Isaac e Samuel nascem de mães que tinham sido estéreis até muito tarde. “Senhor do universo, se te dignares olhar para a aflição da tua serva e te lembrares de mim, se não te esqueceres da tua serva e lhe deres um filho varão, eu o consagrarei ao Senhor, por todos os dias da sua vida”, rezava Ana (I Samuel 1, 11), a futura mãe de Samuel (nome que significa “Deus escutou”).

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Mais tarde, um outro judeu, Jesus, nasce de uma virgem, tal como acontecera com Confúcio. Também o Alcorão lê de forma miraculosa o nascimento de Maria e de Jesus. “Assim será. Deus cria o que quer. Quando decreta alguma coisa, diz apenas: ‘Seja!’, e é” (Alcorão, 3, 47).

No budismo, a ideia do renascimento é central: “A vida começa como acaba: com a luminosidade-base”, escreve Sogyal Rinpoche (O Livro Tibetano da Vida e da Morte, ed. Círculo de Leitores). E no hinduísmo também o símbolo da luz é essencial: no Diwali, a festa das luzes que este ano os hindus celebraram no final de Outubro, celebra-se a vitória sobre a obscuridade e o mal, acendendo velas e lâmpadas nas casas e nas ruas.

A reflexão sobre o nascimento ou a criação do mundo é também um tema estético e largamente presente na história da arte, tomando, por exemplo, o ciclo de sete dias proposto pela tradição judaico-cristã. Comum a todas as religiões, incluindo as primitivas, a ideia da criação do mundo foi elaborada no judaísmo depois da libertação da escravatura egípcia e à luz desse acto fundador. A ideia foi retomada no cristianismo dando à criação e à salvação a unidade de um só acto. No islão, o Alcorão (55, 29) recorda que “todos os dias Alá cria qualquer coisa nova” e o livro do Apocalipse/Revelação da Bíblia cristã escreve, quase no final: “Eis que faço novas todas as coisas.” (Ap., 21, 5)

Na bênção inicial de Hanuká, a família judaica reza: “Ó Eterno, nosso Deus: acendemos estas velas por causa dos milagres, redenções, grandes feitos, salvações, maravilhas e consolações que fizeste para com os nossos antepassados.”

(Este texto adapta um artigo publicado a 23 de Dezembro de 2005, no Público)

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