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Nada me preparou para esse momento em que, no início do concerto, no altar de uma velha igreja berlinense, se ergueram as vozes de dois coros tão diferentes unidas num apelo: "oh, Alá, abençoa!"" Foto © Helena Araújo

Sete Partidas

Harmonia polifónica germano-turca em Berlim

 

Há duas semanas, houve em Berlim um concerto de enorme importância simbólica: HeimatDIALOG. Um projecto conjunto do meu coro Bancanta e do coro do Conservatório de Música Turca, de Berlin-Kreuzberg, combinando músicas da cultura ocidental e da cultura turca. Gostei especialmente daquele Heimat [terra-mãe, pátria] no nome, porque Heimat há muitas, e é importante que todos questionem a sua e a que atribuem aos outros.

Os turcos, que começaram a chegar em grande número à Alemanha nos anos sessenta do século passado, nunca tiveram uma vida fácil neste país, e ainda agora não têm. Foi preciso mais de trinta anos para a Alemanha se dar conta de que a “mão de obra” de que a sua economia precisava era, na realidade, um grupo de seres humanos: com toda a sua complexidade, com toda a sua dignidade.

“E agora ali estávamos, após seis meses de trabalho e diálogo: a cantar uns com os outros as músicas de uns e dos outros.” Foto © Helena Araújo

À xenofobia, à indiferença e à desconfiança da sociedade em geral juntou-se o ódio dos neonazis: entre muitos outros atentados terroristas, houve casas incendiadas em Mölln, houve o massacre de Hanau e a célula neonazi NSU andou uma década a matar aleatoriamente turcos no país inteiro. Paralelamente a esta violência, uma xenofobia institucional flagrante no comportamento da polícia (que, nos crimes da NSU, em vez de investigar possíveis pistas de ódio neonazi, partiu do princípio de que seria algo das “redes mafiosas dessa gente” e chamou ao caso “os homicídios kebab”), flagrante no episódio vergonhoso das cartas de Mölln: só trinta anos mais tarde, e por mero acaso, é que as famílias das vítimas vieram a saber que de todo o país lhes tinham sido enviadas cartas a exprimir choque e solidariedade. Por falta de nomes e endereços concretos, os correios entregaram as cartas à Câmara Municipal, onde foram lidas e arquivadas, sem que a algum responsável político ou funcionário ocorresse que havia uma obrigação legal de as entregar aos destinatários.

É neste ambiente xenófobo que os imigrantes turcos e os seus descendentes vivem há mais de meio século. E foi neste contexto que surgiu a ideia do concerto HeimatDIALOG.

Devido a outros compromissos, retirei-me do projecto há cerca de um mês, ficando apenas com a responsabilidade da bilheteira no dia do primeiro concerto. E foi assim que dei comigo a assistir ao concerto do meu próprio coro sentada na última fila da igreja.

Bem sabia o que nos esperava, tanto mais que aprendera praticamente todas as peças. Mas nada me preparou para esse momento em que, no início do concerto, no altar de uma velha igreja berlinense, se ergueram as vozes de dois coros tão diferentes unidas num apelo:

“oh, Alá, abençoa!”

Este verso naquele espaço, entre o crucifixo e os típicos tijolos maciços da arquitectura sacra berlinense, levou-me para um lugar sereno dentro de mim, algures entre a alegria e a evidência: é isto mesmo, é assim que está certo. Imaginei que o Deus do Novo Testamento – o Deus do sermão da montanha, o Deus que é amor – estaria naquele momento a sorrir comigo, igualmente comovido. E continuaria a sorrir numa das peças seguintes, Alta Trinita Beata [Santíssima Trindade], de um anónimo no século XV, cantada de novo por ambos os coros. Talvez deixasse até escapar uma lágrima no Verleih uns Frieden [Dá-nos a paz], de Felix Mendelssohn, o filho de judeus.

Dá, Senhor, a tua paz
Ao nosso tempo.
Ninguém mais pode defender-nos
Senão tu, Senhor. Apenas tu.

Nos dez anos que agora completa, o coro Bancanta já teve projectos muito ambiciosos, mas este HeimatDIALOG foi, para muitos de nós, o mais difícil. Aprender as músicas do coro turco obrigou-nos a mudar a forma de trabalhar. Deram-nos – a nós, habituados a ler notas e a contar tempos – partituras com função meramente indicativa. Protestávamos: “vocês não cantam como está escrito!” Mas, a pouco e pouco, fomos aprendendo a ouvir o ensemble instrumental turco, a entrar no espírito e no ritmo do momento, a deixar-nos ir com os outros. E aprendemos também a reconhecer as pessoas e a libertá-las da categoria “turcos de Berlim”. O violinista Fahri Karaduman, que nos deixava mudos de encanto. A jovem Büşra Mercan, que tem dois professores de violino, uma alemã e um turco, e terminou agora o mestrado em tecnologia alimentar. A soprano que punha na mesa petiscos deliciosos, e nos sorria com orgulho. Ou a contralto que ficou ao meu lado num ensaio, e me contou que quando veio para Berlim, em criança, já falava três línguas: o árabe da sua etnia; o curdo, que era a língua da maioria na região onde nasceu; e o turco, que a Turquia moderna tornou obrigatório para todos.

E agora ali estávamos, após seis meses de trabalho e diálogo: a cantar uns com os outros as músicas de uns e dos outros.

Algumas das peças foram interpretadas por apenas um dos coros. O coro Bancanta apresentou A Little Jazz Mass, de Bob Chilcott, que é também um diálogo entre duas margens de Heimat da cultura ocidental: a liturgia latina e o jazz.

Mas não só de religião vive a Heimat. O programa deste diálogo musical incluía canções de amor ora em turco ora em alemão, e várias composições berlinenses, dos anos vinte aos anos cinquenta do século passado. O coro Bancanta começou com a canção de um compositor judeu alemão, W. R. Heymann, que fala do desejo de ser feliz, e do sonho de encontrar a felicidade de algum modo, algures, em algum momento: irgendwie, irgendwo, irgendwann. O coro Seda-i Aşk juntou-se então para Ich bin von Kopf bis Fuß auf Liebe eingestellt [Estou pronta para o amor, dos pés à cabeça], que conhecemos de Marlene Dietrich no filme Anjo Azul, e Heimweh nach dem Kurfürstendamm [Saudades do Kurfürstendamm], peça composta em 1949, em pleno bloqueio soviético, lembrando a mais famosa avenida da parte ocidental da cidade, que nessa época estava ainda em ruínas. Canções sobre partir e regressar, sobre a alegria e sobre o mau feitio dos berlinenses, sobre as saudades de casa – canções de Berlim, às quais o ensemble de instrumentos tradicionais turcos emprestava um cunho particular. E mais uma vez me comovi a ouvir os nossos companheiros do coro Seda-i Aşk a cantar em alemão “Ah, tenho tantas saudades do Kurfürstendamm, tenho tantas saudades de Berlim!”

Ali estavam dois coros a dizer com música que, independentemente da nacionalidade, da religião, da cor dos olhos, e do lugar onde nascemos: todos queremos o amor, todos andamos em busca da felicidade. E todos temos direito a ser parte da cidade que amamos.

“Um projecto que devia ser visto em toda a cidade de Berlim!” – exclamou alegremente o nosso maestro, no final do primeiro concerto. Penso que é bem mais do que isso. Bom seria que projectos como este fossem repetidos por muitos outros coros em toda a Alemanha e em toda a Europa. Porque precisamos cada vez mais de aprender a ouvir-nos mutuamente, olhar nos olhos daqueles a quem chamamos “os outros”. Precisamos de aprender a estima mútua.

Porque, como escreveu Goethe,
A tolerância devia ser um sentimento transitório: tem de dar lugar à estima.
A indulgência ofende.

Venham mais polifonias assim! Venha a harmonia.

(Oh, Alá, abençoa! Dá, Senhor, a tua paz ao nosso tempo.)

 

Helena Araújo vive em Berlim e é autora do blogue Dois Dedos de Conversa.

 

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