Religiosa levanta a dúvida

Haverá um lado negro no Centro Aletti, do padre Rupnik?

| 6 Abr 2023

Marko Ivan Rupnik, Arte, Cordeiro, Crucifixo, Fátima, Basílica da Santíssima Trindade

O Cordeiro, no painel de mosaicos desenhado por Rupnik, no altar da Basílica da Santíssima Trindade, em Fátima, “tapado” pelo crucifixo em bronze, da artista irlandesa Catherine Green: o que pode tapar o Centro Alleti? Foto © António Marujo/7Margens

 

Na Villa Alleti, situada na via Paolina, em Roma, funcionam várias entidades religiosas interligadas: uma comunidade de padres da Companhia de Jesus; uma comunidade de consagradas; e o Centro Aletti, fundado e ao longo de muitos anos dirigido pelo padre de origem eslovena Marko Rupnik, que tem sido acusado de abusos sexuais e de poder por várias mulheres. Este Centro é constituído por uma editora e por um atelier de arte e foi, em 2019, reconhecido canonicamente como “associação pública de fiéis pelo cardeal vigário da diocese, Angelo de Donatis.

O Centro Aletti está a ser objeto de uma “visita apostólica” atípica, ordenada por Donatis – foi há dias noticiado em Itália. A visita é conduzida por Giacomo Orazio Incitti, professor de Direito Canónico na Universidade Urbaniana, juiz no Tribunal de Recursos do Vicariato de Roma e prelado canonista do Tribunal da Penitenciária Apostólica.

Oficialmente não há informação sobre esta medida que, pelo simples facto de ter sido tomada, indicia matéria que suscita preocupação. E não se sabe, sequer, qual ou quais das entidades são especificamente objeto da indagação.

Contudo, o blog Messa in Latino (“Missa em latim”) que deu a notícia e que tinha sido um dos primeiros a noticiar os abusos sexuais e de poder do artista e teólogo Marko Rupnik, no início de dezembro último, refere que a visita é motivada pela “suspeita de que os funcionários do Centro, em vários cargos, há anos dão cobertura a Rupnik, garantindo-lhe a impunidade”.

Como explica Luisella Scrosati, num artigo publicado na última terça-feira, 4 de abril, en La Nuova Bussola Quotidiana, existe um entrelaçado complexo entre as várias instituições que convivem na Villa Aletti e até entre quem ordena a visita e quem é examinado. Vários membros da comunidade jesuíta ocupam cargos diretivos no Centro Aletti e o diretor da comunidade é consultor do Centro.

“Não é nada claro – escreve Luisella Scrosati – aquilo que a associação pública de fiéis inclui e que, à primeira vista, dá a ideia de ser uma quarta entidade que parece abranger a comunidade de mulheres e o Centro, mas em certa medida também envolve a Comunidade Jesuíta”.

 

Um novelo difícil de deslindar

Arte, Marko Ivan Rupnik, Lourdes, Basílica de Nossa Senhora do Rosário, Porta da Vida

Porta da Vida, na Basílica de Nossa Senhora, em Lourdes (França), da autoria de Rupnik: a relação de várias pessoas com o padre esloveno foi uma via-sacra. Foto © António Marujo/7Margens

 

“Seria um sinal de clareza e transparência se o Vicariato de Roma publicasse o decreto” que decidiu a visita, no qual se dá porventura “a conhecer a ‘fisionomia’ do destinatário”, acrescenta a colunista.

Também a “chegada” do padre Hans Zollner às funções de consultor do Serviço de Proteção de Menores e Pessoas Vulneráveis da diocese de Roma é um elemento a considerar neste contexto. Ele deixou no final de março a Pontifícia Comissão para a Proteção de Menores e justificou a demissão com as novas funções que vai desempenhar (além das críticas que enunciou sobre o funcionamento da referida Comissão). [ver 7MARGENS]

Zollner será mais um jesuíta neste puzzle que rodeia o caso Rupnik, em que já se encontram os superiores jesuítas do artista, o bispo auxiliar de Roma, Daniele Libanori, que foi – e, formalmente continua a ser – o comissário da visita à Comunidade Loyola, na qual Rupnik terá praticado vários abusos de que agora é acusado; o cardeal Luis Ladaria, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, que por duas vezes teve em mãos os abusos do padre Rupnik; e o próprio Papa Francisco que recebeu Rupnik quando ele acabava de ser punido pela Companhia, embora tenha confessado recentemente que não teve intervenção no processo. Para completar o puzzle, o cardeal Angelo de Donatis é tido como um amigo próximo de Rupnik.

O argumento que o Dicastério para a Doutrina da Fé usou para não condenar o fundador do Centro Aletti foi o facto de os casos de abusos denunciados terem prescrito, não pondo em questão a veracidade das denúncias. Mas o mesmo serviço do Vaticano já tinha reconhecido, dois anos antes, a excomunhão latae sententiae de Rupnik por absolvição de uma cúmplice num caso de relações sexuais, datado de 2015, excomunhão levantada umas semanas depois, com a alegação de que o condenado tinha pedido perdão.

 

Religiosa fugia de abuso conventual, meteu-se na boca do lobo

Marko Ivan Rupnik, Arte, Inferno, Fátima, Basílica da Santíssima Trindade

Visão do inferno no painel do altar da Basílica da Santíssima Trindade, em Fátima: a irmã Samuelle tentou “fugir do inferno”, contou ela esta semana. Foto © António Marujo/7Margens

 

Pelos dados que eram do domínio público poderia, apesar de tudo, construir-se a ideia de que Rupnik, a partir de meados dos anos 90 e durante os 20 anos subsequentes – ou seja, a partir da altura em que rompeu com a superiora geral da Comunidade Loyola, e quando criou o Centro Aletti – tinha modificado o seu comportamento de abusador, apesar de muitos sinais de que tal não tinha sucedido.

É neste contexto que o caso dramático de uma religiosa, divulgado na página digital do semanário La Vie, na última terça-feira, 4 de abril, se reveste de um significado especial.

Trata-se de uma jovem mulher francesa, de seu nome Samuelle que, aos 21 anos, já com um diploma de trabalhos em madeira, opta pela vida religiosa para “seguir Cristo e descobrir o seu rosto”, entrando para as Fraternidades Monásticas de Jerusalém.

Nesta congregação sentiu-se violentada e abusada espiritualmente, incluindo na confissão, por práticas de repressão das amizades que pudessem surgir naquele contexto e que a levaram a isolar-se das outras religiosas. Fazendo a retrospetiva, Samuelle fala hoje de um “crescimento emocional que estagnou”, “quase um desenraizamento de si mesma, que ela arrastou ao longo de toda a sua vida”, nas palavras da jornalista Sophie Lebrun, que a entrevista.

Procurando “fugir do inferno”, dirige-se a Roma e busca refúgio no atelier de um tal Marko Ivan Rupnik, padre e artista de mosaicos já então internacionalmente conhecido. Estávamos no ano de 2006. A aproximação foi-se fazendo e, em 2010, Samuelle inicia com o padre artista um curso de quatro anos, como interna do Centro Aletti, onde Rupnik vivia e trabalhava.

Sem saber, estava mais que “preparada” para ser um alvo. “Ele percebeu a minha aflição, viu as brechas em mim… e correu para elas”, denuncia ela à jornalista. Foi resistindo enquanto pôde, até que cedeu. A partir daí, ele impôs-se como seu guia espiritual. “Entrou na minha mente, tomou o controlo e eu era sua prisioneira”, sempre sem ultrapassar limites perigosos.

Em 2014, Samuelle urde uma estratégia engenhosa para se libertar e voltar a França. Ainda passa por um mosteiro, mas não aguenta mais de um mês. Nesse ano, ainda se cruza com Rupnik, a quem decide dizer que ele não tinha tido uma relação sã com ela. Ele invetivou-a dizendo que ela “via sexo em todo o lado”. E, antes de se retirar furioso, foi dizendo que ela o estava a trair e que era de consciência tranquila que a deixaria para ir celebrar a Eucaristia.

Só em 2018 Samuelle cortou com as Fraternidades de Jerusalém. Voltou a fazer votos de pobreza, obediência e castidade perante a diocese onde passou a viver como ermita e artista. Todo o seu trabalho, nos últimos anos, tem sido reaprender a viver, “ressuscitar” para a vida. Apoiada na criação artística e na liturgia das horas. Tem procurado ser ouvida e ser reparada quer pela ordem em que esteve 20 anos, quer pelos Jesuítas. Estes têm mostrado uma “amável atenção” para com ela; com as Fraternidades de Jerusalém, os intercâmbios têm sido mais difíceis.

O que este caso torna manifesto, além da coragem desta artista e ermita, é que Marko Rupnik presumivelmente não mudou de rumo e que há, agora, razões acrescidas para rever o seu caso, a extensão dos danos que tem causado, e investigar com atenção o que foi o Centro Aletti, por detrás da editora e do atelier artístico. Haverá um “lado negro” deste Centro, que seja necessário trazer à luz do dia? Os testemunhos de várias vítimas para aí apontam, daí a urgência de conhecer a verdade.

 

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