Helena Águeda Marujo explica como aprender a sonhar e construir a esperança

| 25 Nov 23

Helena Águeda Marujo: “O impacto do que acontece à nossa volta é profundo e inevitável”. Foto © António Marujo/7MARGENS

Helena Águeda Marujo: “O impacto do que acontece à nossa volta é profundo e inevitável”. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

Um inquérito feito a 200 famílias beneficiárias do Rendimento Social de Inserção, nos Açores, que perguntava sobre com que sonhavam as pessoas, concluiu que muitas delas nem sequer tinham a dimensão abstracta do sonho. E um outro, feito junto de população de etnia cigana, concluía que, perguntadas sobre o futuro, muitas pessoas não eram capazes de dizer nada para além do imediato.

Estes são alguns dados referidos pela psicóloga Helena Águeda Marujo, entrevistada esta semana no programa 7MARGENS, da Antena 1. Convidada a falar sobre a esperança, a professora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, doutorada em psicologia, explicou também os resultados de um inquérito internacional em que está envolvida desde 2011 e que tem tentado medir as esperanças de pessoas e povos, com dados recolhidos junto de 40 mil pessoas entre 2017 e 2021.

Nos dois anos finais do inquérito, a experiência da pandemia influenciou alguns dos resultados, diz Helena Marujo, a que agora devemos acrescentar as guerras, a emergência climática ou a falta de perspectivas económicas e sociais para muitas famílias e muitos jovens ou o predomínio do poder financeiro sobre as vidas das pessoas.

Factores como estes “influenciam extraordinariamente” o modo como olhamos a realidade. “O impacto do que acontece à nossa volta é profundo e inevitável”, diz a entrevista. “Somos seres sensíveis aos acontecimentos que nos rodeiam” e em relação às novas gerações o que se passa é “particularmente inquietante”, admite: “É muito difícil imaginar que alguém cresce e tem vontade de ir para o futuro sem ter esperança no que aí vem.”

De qualquer modo, as esperanças individuais (acabar um curso, encontrar um emprego), foram “menos” abaladas do que a dimensão coletiva da esperança. E, em 2022, 75% portugueses admitia o pior dos cenários em vários âmbitos. Paradoxalmente, acrescenta Helena Marujo na entrevista, “o desânimo está mais elevado em países ricos como a Suíça e os países onde encontramos mais entusiasmo em relação ao futuro são os países africanos”.

Helena Águeda Marujo, que coordena também a cátedra Unesco em Educação para a Paz Global Sustentável e as pós-graduações em Psicologia Positiva Aplicada e em Educação para a Paz Global Sustentável, explica ainda o que é a psicologia positiva, área a que se tem dedicado na investigação e divulgação académicas, e comenta algumas das ideias no padre Vítor Novais, reitor do seminário de Braga, na sua tese sobre A Proposta da Esperança Cristã Hoje (ed. Universidade Católica Editora), e que teve uma apresentação pública em Braga, no final de Junho.

 

“Agir para que as coisas aconteçam na direcção que desejamos”

 

Helena Marujo durante a entrevista: “As pessoas que estão felizes e são cuidadas contribuem mais, são mais produtivas”. Foto © Carlos Jorge Antunes/Antena 1

Helena Marujo durante a entrevista: “As pessoas que estão felizes e são cuidadas contribuem mais, são mais produtivas”. Foto © Carlos Jorge Antunes/Antena 1

 

Helena Marujo cita o pedagogo brasileiro Paulo Freire para afirmar que ter esperança “não é ficar à espera que as coisas aconteçam, é agir para que elas aconteçam na direcção que desejamos”. E acrescenta: “Uma das maneiras que ajuda nesse processo é transformar a esperança numa esperança activa.”

Isso faz-se, exemplifica, estimulando que cada pessoa “aja enquanto cidadão actuando no seu espaço” – seja o prédio ou a mobilização de projectos da sociedade civil, porque “quando começamos a trabalhar em alguma coisa construtiva, começamos a acreditar uns nos outros”, diz.

Helena Marujo refere ainda, a propósito da dimensão espiritual e religiosa que a esperança também tem, que as condições de felicidade florescem mais nos seres humanos “que têm conhecimento das suas forças, que as usam no quotidiano” ou nas pessoas que têm “vidas com propósito” ou que “promovem diariamente as emoções mais positivas como a gratidão, esperança, amor, humor, alegria”. E recorda que os estudos são muito claros: por exemplo nas empresas, a psicologia positiva “mostra que as pessoas que estão felizes e são cuidadas contribuem mais, são mais produtivas”.

Um outro estudo sobre a esperança pode ser respondido nesta ligação.

Como sugestão, Helena Águeda Marujo referiu dois dos livros em que participou, em co-autoria: Educação para a Paz Global Sustentável e Humanizar as Organizações – Novos Sentidos para a Gestão de Pessoas.

Cita ainda o espectáculo Todas as Coisas Maravilhosas, de Ivo Canelas, e o ensaio O Silêncio Interior, de Alberto Filipe Araújo, publicado no 7MARGENS.

A entrevista pode ser ouvida na íntegra em https://www.rtp.pt/play/p12257/7-margens

 

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