Henri Tincq (1945-2020): referência da informação religiosa francesa e europeia

| 2 Abr 20

Henri Tincq, jornalista (1945-2020)

Henri Tincq, jornalista (1945-2020), num vídeo da Librairie Mollat, acerca do seu livro sobre o cardeal Jean-Marie Lustiger.

 

Jornalista do La Croix e, depois, de Le Monde, Henri Tincq morreu domingo passado, 29 de Março, vítima do novo coronavírus. Tinha 74 anos e, além de autor de dezena e meia de livros sobre questões religiosas (entre os quais Os Génios do Cristianismo, publicado em Portugal pela Gradiva), era uma referência da informação na área quer em França quer na Europa, que o jornal protestante La Réforme definiu como “o mais reputado de França” e pessoa de uma fé profunda e “comprometida”.

Nascido em 2 de Novembro de 1945 em Fouquières-lez-Lens (Pas-de-Calais, Norte de França), Tincq viria a licenciar-se em Literatura Moderna, graduando-se depois no Instituto de Estudos Políticos de Paris e na Escola de Jornalismo de Lille. No jornal La Croix, começaria a sua carreira de jornalista de âmbito nacional – primeiro na área económica e social e, depois, na política, a partir de 1977 – chegando a editor-chefe adjunto em 1981 e responsável da secção de Religião daquele diário.

Em 1985, foi convidado pelo Monde para substituir Henri Fesquet, fundador da secção de Religião no prestigiado diário francês. “Quase pedia desculpa por deixar o La Croix, onde só tinha amigos”, recordava Dominique Gerbaud, ex-editor-chefe do jornal de inspiração católica e companheiro de Henri.

Perspicaz e atento, jornalista rigoroso e profundo, acompanhou ainda o conclave de 2005 e previu que não haveria outro eleito que não fosse Ratzinger. Na véspera da eleição, garantia mesmo, em conversa com um pequeno grupo de camaradas, que o processo de escolha seria breve – acertou em ambos. Três anos depois disso, deixou o diário fundado por Hubert Beuve-Méry e passou a colaborar com o jornal digital Slate.fr e com a revista Le Monde des Religions. Nesta publicação, Jean-Yves Nau recorda a sua paixão pelo jornalismo integral, pela pedagogia, tradução, transmissão e partilha. E, também o enorme “apetite” por aprender sobre os temas que não dominava.

De trato fino e delicado, Nicolas Senèze recorda, no perfil que sobre ele escreveu no La Croix, que os colegas mais próximos também relembram igualmente momentos de irritação e sensibilidade à flor da pele, sempre acompanhados pelo profundo sentimento de camaradagem que ultrapassava tudo. De tal modo que, em 1994, os seus colegas o escolheram para presidente da Associação de Jornalistas de Informação Religiosa, cargo que exerceu por cinco anos.

 

O facto religioso “em todas as dimensões”

Boa parte do tempo em que esteve no Monde, Henri Tincq acompanhou o pontificado de João Paulo II. Em 1997, publicou um livro sobre os desafios dos sucessores imediatos do Papa polaco, que morreria em 2005.

Também a acção do cardeal Jean-Marie Lustiger, como arcebispo de Paris, foi acompanhada de perto por Tincq, que admirava o cardeal nascido judeu e que se tornaria católico só na juventude. Na biografia que lhe dedicou, Jean-Marie Lustiger, le cardinal prophète, o jornalista explicava a sua admiração e justificava o título dizendo que o cardeal alertava o mundo para os dramas e os problemas que tanta gente vivia, mesmo a partir de uma “visão um pouco trágica do mundo”, ligada à sua infância judaica.

Analista fino, preocupava-o e lamentava também a deriva identitária de uma certa direita religiosa ou mesmo católica. Em 2008, na altura da saída do Monde, dizia que a “religião institucional e as discussões internas já não interessam” aos leitores, defendendo a importância de “observar o facto religioso em todas as suas dimensões, históricas, éticas e culturais”, com uma atitude não de ser “a favor ou contra, mas de respeitar, informar, organizar o debate e permitir que o leitor forme uma opinião”. Aliás, no seu trabalho no Monde, no Slate ou Monde des Religions, escreveu sempre sobre outros campos religiosos, com a mesma qualidade que se lhe reconhecia quando falava do catolicismo.

Apesar disso, voltou a entusiasmar-se com os debates lançados pelo Papa Francisco no interior da Igreja Católica e continuou a publicar. Em 1998 já tinha escrito um livro sobre os média e a Igreja Católica em que analisava as deficiências de relação do catolicismo com o campo mediático. Em Outubro passado, publicou Vatican, la fin d’un monde, onde perspectivava o futuro da Igreja num quadro de crise moral, crise de governo e escândalos sexuais ou financeiros. E onde verberava o “clericalismo” que o Papa Francisco tem apontado como a fonte de todos os abusos.

Os problemas renais de que sofria, apesar de um transplante feito há anos, deixaram-no fragilizado. O novo vírus apanhou-o nessa fragilidade, acabando por morrer, acompanhado pela equipa médica que o assistiu.

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