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Henrique Alves Costa foi pioneiro do cineclubismo português e empenhou-se na organização e fundação da FPCC durante a ditadura e após a Revolução do 25 de Abril de 1974. Foto: Direitos reservados. cinema
Henrique Alves Costa foi pioneiro do cineclubismo português e empenhou-se na organização e fundação da FPCC durante

Dia Mundial do Cineclube

Henrique Alves Costa, um fabuloso contador de histórias

| 12/04/2026

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Uma evocação em forma de carta ao pioneiro do cineclubismo em Portugal

 

O Dia Mundial do Cineclube deverá ser celebrado como um momento de reflexão e debate quanto aos caminhos do cineclubismo. Acontece na próxima terça-feira, 14 de Abril, e a data tem um profundo significado político e cultural. Nasceu como homenagem ao primeiro cineclube mundial em França, impulsionado pelo director da revista Phono-Ciné Gazette. Por cá, a Federação Portuguesa de Cineclubes (FPCC) costuma acompanhar a efeméride com uma série de iniciativas, mas jamais poderá ser esquecido o papel e a importância que teve Henrique Alves Costa não só como pioneiro do cineclubismo português, mas também, o seu persistente empenho na organização e fundação da FPCC durante a ditadura e após a Revolução do 25 de Abril de 1974. Por isso, neste Dia Mundial do Cineclube, a melhor homenagem que o país poderá prestar e os cineclubistas em particular, será lembrar o seu legado, o seu exemplo de cidadania e forma de servir a cultura cinematográfica.

Quanto te conheci no Cineclube do Porto, finais dos anos 1960, mantinhas o teu olhar atento e jovial, sempre afável e sorridente. Um gentleman. Nas muitas conversas que fui mantendo, comparei-te ao Senhor Hulot e, por instantes, imaginei uma personagem saída de um filme de Tati. Eu era um jovem atraído pelo cinema, tu já tinhas corrido meio mundo em festivais, encontros de cineclubes, palestras, debates, assinando crónicas no programa radiofónico Vamos Falar de Cinema, nas revistas Invicta Cine, Close-Up, Sol Nascente e Vértice, mas também, na Enquadramento, onde em 1972, escreves um longo ensaio sobre Manoel de Oliveira. Estás em todo o lado onde o cinema acontece: nas revistas estrangeiras, nos jornais O Comércio do Porto e Jornal de Notícias, onde tens sempre espaço para a crítica de filmes e acontecimentos ligados ao cinema.

A tua vida é comandada pelo cinema, pela escrita como a edição dos Cadernos de Cinema Projeção (uma preciosidade) com textos sobre Charlie Chaplin (1949); “Modernas Tendências do Cinema Europeu” e “O Cinema e a Criança” (1954); mas sobretudo, no Cineclube do Porto, onde foste sempre presença assídua e constante. Tudo passava pelas tuas mãos, porque só tu mantinhas os contactos, as pessoas certas para resolver os problemas mais ou menos caseiros, como a falta de pagamento da renda ao senhorio e logo arranjavas maneira de fazer um leilão com artistas da Árvore e resolver a aflição do hipotético despejo.

A defesa de Manoel de Oliveira

Imagem de Douro Faina Fluvial, de Manoel de Oliveira.

Imagem de Douro, Faina Fluvial (1937), de Manoel de Oliveira: quando o realizador portuense recebeu pateada após a apresentação deste filme, Henrique Alves Costa foi um dos poucos a lutar contra o obscurantismo cultural e mental da época.

A tua paixão do cinema começou com o nascimento do cinema de mão dada com o pai, películas de nitrato rodadas no Salão-Jardim Passos Manuel; ficaste para sempre contagiado pela figurinha de Charlot, as pantomimas de Buster Keaton, os planos mágicos de Griffith. Foram os primeiros passos de uma longa-metragem sempre à volta do cinema e do cineclubismo militante, a ler e ver cinema, a escrever para vários sítios; sim, porque a vida foi sempre muito difícil, mais ainda quando o país vivia em ditadura e era preciso ser muito criativo para fintar os cortes da censura, o lápis azul dos serventuários do Estado Novo.

Depois do liceu, ainda estiveste com um pé na universidade, mas a tua opção foi outra: seguir as pisadas do teu pai, despachante alfandegário com escritório na Alfândega do Porto, um cenário também ele cinematográfico e cheio de muitas memórias em parte cartografadas pelo grande fotógrafo Emílio Biel. O cinema como preocupação principal, sobretudo aquele que valia a pena ver, incentivar e divulgar. Por isso, escrevias noite dentro, sempre ocupado com mil e um afazeres, todos ligados à tua paixão e defesa de causas em que acreditavas. Quando Manoel de Oliveira recebeu pateada após a apresentação de Douro, Faina Fluvial (1937), foste um dos poucos a lutar contra o obscurantismo cultural e mental da época. Ainda hoje, são preciosos os teus escritos sobre esta obra-prima do documentarismo português. Resistiram ao tempo, porque o tempo se encarregou de repor justiça e admiração.

Projectos adiados

Imagem de Douro, Faina Fluvial (1937), de Manoel de Oliveira. cinema filme

Imagem de Douro, Faina Fluvial (1937), de Manoel de Oliveira. Henrique Alves Costa só estava feliz a animar culturalmente o Porto, a sua cidade de eleição.

O mesmo sentimento permaneceu quando Oliveira, muitos anos depois, venceu as injustiças dos projetos sempre adiados por falta de apoio e começou a filmar regularmente em Portugal, mais ainda, depois de O Passado e o Presente (1971); Benilde, ou a Virgem Mãe (1974), Amor de Perdição (1978) a célebre tetralogia dos “amores frustrados”, com críticas azedas em Portugal, em contraponto ao reconhecimento internacional, entrevistas de várias páginas nos Cahiers, prémios em Cannes e Veneza. Só a tua inquebrantável amizade nunca vacilou. No meio da patetice nacional vieste em defesa da singularidade dos seus filmes. Por isso, não se pode falar de Oliveira sem falar de ti e vice-versa. O reconhecimento da nossa cinematografia nunca aconteceria no mundo inteiro sem o teu contributo, labor, divulgação. Oliveira sabia-o muito bem e, generoso como sempre foi, acompanhou-te e amparou-te quando mais precisavas, como na morte da tua mulher, Maria Helena Costa, animadora da secção de cinema infantil do Cineclube do Porto, cuja instituição serviste com amor ao cinema, à arte e à cultura.

Irrequieto como sempre, só estavas feliz a animar culturalmente o Porto, a tua cidade de eleição. “Gosto de partir do nada e fazer coisas. Quando estão a andar já não sou preciso para nada”, disseste numa entrevista ao JN. Depois, partias para outra aventura; sim, a tua vida foi sempre guiada pela magia do cinema e por tudo aquilo que o rodeia: as pessoas, os amigos, as histórias que estão por detrás do argumento.

Henrique Alves Costa juntou-se em 1945 ao grupo de fundadores do CPC/CCP - Centro Português de Cinematografia/Cineclube do Porto. Foto: Direitos reservados. cinema

Henrique Alves Costa juntou-se em 1945 ao grupo de fundadores do CPC/CCP – Centro Português de Cinematografia/Cineclube do Porto. Foto: Direitos reservados.

Tal e qual como num filme, vou puxar a fita atrás e recordar alguns factos históricos: nasceste em 1910, viveste sob fortes convulsões sociais e políticas devido às lutas entre monárquicos e republicanos, mais ainda após a revolta do 28 de Maio de 1926 que legitimou a ditadura com a supressão das liberdades cívicas e constitucionais, ausência de liberdade de opinião e de Imprensa. Foi, pois, neste ambiente mental, social, político e cultural completamente adverso a qualquer sinal de modernidade que cresceste enquanto jovem Henrique. Após completares o sétimo ano no Liceu Alexandre Herculano, no Porto, juntas-te ao grupo de fundadores do CPC/CCP – Centro Português de Cinematografia/Cineclube do Porto (1945) onde já estavam outros amigos: Hipólito Duarte, Fernando Condesso, Fernando Gonçalves Lavrador e mais tarde, Mário Bonito, Virgílio Pereira, Júlio Gesta, Manuel de Azevedo, Luís Neves Real.

Com o teu conhecimento do cinema e capacidade de diálogo, consegues dinamizar a vida associativa do CPP/CCP e, a partir da tua entrada, a vida da instituição conhece outro impulso, chegando a atingir cerca de 2500 sócios, sendo considerado o maior da Península Ibérica. Nesta altura, assiste-se a uma intensa atividade do CPP/CCP, que promove não só a descoberta de autores até então desconhecidos, ou pouco estudados pelo grande público, como incentiva a criação de novas estruturas das quais merece destaque a secção de Cinema Infantil dinamizada pela tua esposa Helena, e a secção de Cinema Experimental, da qual nasce a ideia de produzir e realizar O Auto de Floripes, cuja repercussão foi enorme, não só pelo ineditismo em recriar uma manifestação popular e antropológica sobre a romaria da Senhora das Neves, em Barroselas, Viana do Castelo, como também, contar na equipa gente com créditos firmados no cinema: António Lopes Fernandes (câmara); Luís Ferreira Alves (fotógrafo) e a colaboração dos cineastas António Reis e Manoel de Oliveira.

Dreyer no Porto

Longe dos holofotes da capital, o Cineclube exibiu em 1970 pela primeira vez filmes como A Palavra (1964), entre outras obras do afamado e mal conhecido realizador, Carl Dreyer. cinema

Longe dos holofotes da capital, o Cineclube exibiu em 1970 pela primeira vez filmes como A Palavra (1964), entre outras obras do afamado e mal conhecido realizador, Carl Dreyer.

A atividade cultural do Cineclube do Porto intensifica-se e transforma-se numa casa de todas as artes, cujo exemplo mais eloquente será a criação da secção de Música; um dos seus acontecimentos marcantes foi a vinda ao Porto do Coro dos Amadores de Música, dirigido pelo maestro e compositor Fernando Lopes-Graça, cuja atuação no Cinema Trindade mereceu os maiores elogios e aplausos, além da divulgação de cinematografias pouco conhecidas e estudadas, como a dinamarquesa, da qual foi feita pela, primeira vez, em 1970, uma enorme retrospectiva da obra do cineasta dinamarquês Carl Dreyer, exibida e comentada no Cinema Batalha.

A este propósito convém recordar e enaltecer não só o teu papel, mas também, do cineclubista Manuel Poças Pintão, na altura em que, graças aos seus conhecimentos e amizade com os responsáveis da Cinemateca da Dinamarca, consegue o apoio da instituição e a custo zero mostrar ao público do Porto esta importante cinematografia. Imagine-se a ousadia: longe dos holofotes da capital, exibia-se pela primeira vez A Paixão de Joana D´Arc (1930) e A Palavra (1964) entre outras obras do afamado e mal conhecido realizador.

Entretanto, o Cineclube continuava com a sua programação normal, sessões aos domingos de manhã no Batalha, enquanto a secção de Cinema Amador, onde pontificava o entusiasmo de Luís Vilaça e Moreira de Pinho, se encarregava da produção de dezenas de filmes em Super 8 e 16 mm, muitos deles galardoados em diversos festivais, nomeadamente, nos festivais internacionais de Cinema de Guimarães e do Algarve, a par de intensa atividade na sede, ciclos de cinema de várias filmografias organizados em colaboração com embaixadas, institutos culturais alemão e francês, a par dos debates, mesas-redondas, encontros com cineastas. Em síntese, o cinema renascia todos os dias.

Em 1967 tens a ideia genial de organizar praticamente sozinho e contra a corrente, a famosa Semana do Cinema Português, um ano histórico sob todos os pontos de vista, uma vez que consegues trazer de Lisboa ao Porto a maior parte dos realizadores, técnicos, operadores de câmara, críticos e cineclubistas e, à volta da mesma mesa, colocar uma série de questões que atormentavam o cinema português, sobretudo o modelo de apoio e financiamento. À partida só tinhas a promessa de apoio da Gulbenkian, mais tarde concretizadas – e, em colaboração com a Câmara do Porto e a Cooperativa Árvore, consegues organizar um leilão de obras de arte, cuja receita reverteu para pagar despesas inerentes ao encontro.

A imaginação

Capa do livro de Henrique Alves Costa, Memória do Cinema.

Capa do livro de Henrique Alves Costa, Memória do Cinema.

Onde existia uma dificuldade, a imaginação impunha-se e contaminava tudo e todos. O encontro foi um êxito. Permitiu não só o consenso dos participantes à volta de um texto fundamental intitulado “O Ofício do Cinema em Portugal”, bem como a criação do Centro Português de Cinema (CPC) espécie de cooperativa para onde as verbas da Gulbenkian eram enviadas, possibilitando financiamento para alguns cineastas continuarem a filmar. Entre eles, José Fonseca e Costa que, consegue rodar O Recado (1971). “Foste tu [Henrique Alves Costa] que nos inventaste a todos”, dirá Fonseca e Costa (revista Cineclube, Cineclube do Porto, página 33, 1987) perante o arranque de uma nova etapa e modelo de produção do Novo Cinema Português. Na famosa e memorável Semana do Cinema Português marcaram presença entre outros, Fernando Lopes, Alberto Seixas Santos, Lauro António, Paulo Rocha, Manoel de Oliveira, gente das artes e da Cultura, como José Régio, Sophia de Mello Breyner Andresen, José Cardoso Pires, Luís de Pina, Maria Barroso e Orlando Carvalho, catedrático de Direito de Coimbra.

Apesar dos “crónicos constrangimentos orçamentais”, o encontro fez-se, foi um êxito e, três anos depois, em 1970, algumas coisas já tinham mudado, mas o cinema continuava numa encruzilhada. Como a “incerteza não foi debelada” promoveste outro encontro de críticos, realizadores e técnicos. Uma vez mais, veio ao de cima a tua mentalidade irrequieta, sonhadora, insubmissa.

Ponte cultural com Espanha

Capa do livro de Henrique Alves Costa sobre Eric von Stroheim, "Génio Insubmisso de Holyywood". cinema

Capa do livro de Henrique Alves Costa sobre Eric von Stroheim, “Génio Insubmisso de Hollywood”.

Em 1976, organizas as Primeiras Conversações Cinematográficas Luso-Espanholas, espécie de cimeira ibérica com diversos realizadores, críticos e jornalistas de ambos os países, ao mesmo tempo que vais escrevendo para jornais e revistas, desdobrando-se em contactos com vista ao aparecimento de novos projetos culturais. Espírito inconformista e independente, Henrique Alves Costa, além do teu fervor militante no Cineclube do Porto, ajudaste a fundar a Cooperativa Artística Árvore (1965); foste o principal impulsionador da Federação Portuguesa de Cineclubes (em 1977) lançada no decorrer do 9º Encontro Nacional de Cineclubes de Espinho, diretor da Revista Cinema, dinamizador do Festival Internacional de Cinema de Animação de Espinho, por muitos considerado o “pai espiritual” do Cinanima, pois foi graças ao teu contributo que se divulgou nos jornais e revistas o aparecimento deste projeto vocacionado para o cinema de animação, sem esquecer a Filmoteca do Porto, no Museu Nacional Soares dos Reis, espécie de embrião da Cinemateca do Porto, de cuja comissão instaladora fizeste parte.

Admirador confesso de grandes autores do cinema com percursos estéticos e estilísticos tão diferentes como Chaplin, Tati, Murnau, Renoir, Jean Vigo, Truffautt, Buñuel, Manoel de Oliveira, Paulo Rocha, conviveste com grandes nomes da cultura portuense como Ilse Losa (escritora); Arménio Losa (arquiteto); Luís Neves Real (catedrático da UP e cineclubista); José Régio (escritor), Sophia de Mello Breyner Andresen (poetisa); Manoel de Oliveira (cineasta); Eugénio de Andrade (poeta) entre muitos outros intelectuais da cidade.

Jean Renoir, autor do belíssimo A Regra do Jogo, disse uma frase premonitória: “um bom filme tem de saber contar uma boa história.” Este conceito aplica-se à personagem a resgatar da penumbra e do esquecimento. Henrique Alves Costa, foste sempre um fabuloso contador de histórias, muito mais do um autodidata das imagens, pois sempre repartiste a tua enorme sabedoria por vários campos da arte: o cinema em primeiro lugar, mas também um amante da literatura, poesia, pintura, fotografia e teatro. Foste um homem que viveu ao correr do tempo, com uma forte visão de futuro, sempre otimista, sentido de humor e sorriso cativante. Foste um cinéfilo de grande craveira intelectual e daí teres escrito várias obras que, ainda hoje, são referência para quem quiser estudar e aprender cinema.

Manuel Vitorino é jornalista, mestre em Fotografia e Cinema, com especialização em Cinema Documental e Experimental, e pós-graduação em Direito da Comunicação. Foi professor, cofundador do Cineclube do Norte (1977), militante cineclubista antes e depois de Abril. Autor de vários livros e realizador dos documentários Imigrantes do Mar (2023) e Henrique Alves Costa, Cinéfilo Inconformista (2024), tem colaborado com o 7MARGENS.

 

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