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[safira, são uma luz! / banha-me, luz circular ― / sem falha de aridez! © haicai e fotografia: Joaquim Félix]

Hildegarda de Bingen & livro Cânticos de Rothschild: narrar a Trindade segundo a criatividade feminina

| 08/06/2023

[domingo depois do Pentecostes. Santíssima Trindade ― a ― 2023]

 

[safira, são uma luz! / banha-me, luz circular ― / sem falha de aridez! © haicai e fotografia: Joaquim Félix]

[safira, são uma luz! / banha-me, luz circular ― / sem falha de aridez! © haicai e fotografia: Joaquim Félix]

 

1. Nem mais! Vou solicitar o engenho criativo das mulheres
para que narrarem o grande mistério que hoje celebramos na liturgia.
Após a ‘queima dos medos’ e as ‘inaugurações’ pelo Pentecostes,
a solenidade da Santíssima Trindade reabre-nos, na nona semana,
para dar continuidade ao tempo comum, este ‘magnum continuum’,
aparentemente rotineiro, sem mistérios de Cristo em foco.
Vivemos, e bem, de mistérios que se conservam em suas aberturas
e de flamas que tão-pouco abandonam as nossas cabeças.
E na semelhança de trovadas que pairam no ar
sentimos inclusive o seu rumor a fazer estremecer o pensamento.
É verdade, o mistério da Trindade resiste, até à linguagem criativa!

2. Ontem, desenvolvi o tema da Liturgia e da sua casa a construir,
numa conferência promovida pela associação portuense ‘Romã Azul’,
refletindo a partir da sua consideração como «jogo»,
desde Romano Guardini e de um artigo de Ugo Rosa.
Talvez por isso, a primeira imagem que me ocorreu, confesso-vos,
ao recordar todas as ocorrências da nomeação da Trindade,
ao longo da liturgia da missa, foi a de uma ginasta,
que, ritmicamente, ao som de uma música em ‘crescendo’,
vai associando ao seu corpo aros, e mais aros, balançando-se.
Lembrei-me ainda daquela antiga dança dos Navajos,
que é feita, também com aros, em sublime coreografia:

3. Na verdade, a liturgia abre e faz-nos saudar o corpo
com a persignação no Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Segue-se a saudação litúrgica que, entre as indicadas pelo Missal,
pode ser trinitária, por exemplo, na formulação de S. Paulo,
que hoje ouvimos da conclusão da Segunda Epístola aos Coríntios:
«A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus
e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco» (2Cor 13,13).
Provavelmente de origem litúrgica, esta saudação ternária
― frequente nas epístolas paulinas, com ligeiras variações ―
foi adotada para as saudações litúrgicas,
inclusive para o protocolo inicial das Orações eucarísticas hispânicas
e de muitas Anáforas das liturgias cristãs orientais, e até no Precónio pascal.
Depois, no Kýrie eléison, aclamação da misericórdia de Deus,
uma a uma, as invocações são dirigidas a cada Pessoa da Trindade.
No Glória, como num hino-bouquet-de-louvores,
cantamos à Trindade, na alegria dos atributos divinos.
Depois, a Oração Coleta, hoje em particular,
recolhendo todas as nossas intenções feitas em breve silêncio,
abraça-as como uma madura gaveia de trigo ou de cevada,
com um cordão de súplica, dirigido a Deus,
entretecido desde a anamnese até à súplica do mistério a celebrar:
«Deus Pai, que revelastes aos humanos o vosso admirável mistério,
enviando ao mundo a Palavra da verdade e o Espírito da santidade,
concedei-nos que, na profissão da verdadeira fé,
reconheçamos a glória da eterna Trindade
e adoremos a Unidade na sua omnipotência» (Missal Romano, 461).
Súplica esta que se faz pela mediação cristológica,
nesta e aliás em todas as Coletas, na sua forma trinitária.

4. Após a divina Palavra, vibrante no silêncio e ‘calada’ na dupla audição,
cujas leituras foram escolhidas ex professo em função do mistério trinitário,
segue-se a Profissão de fé, segundo o Símbolo nicenoconstatinopolitano,
com os artigos para cada uma das Pessoas da Trindade.
Talvez haja expressões da sua formulação, construída em dois Concílios,
― Niceia (325 dC) e Constantinopla (381 dC) ―,
que nos pareçam desajustadas à linguagem contemporânea.
Cada palavra, porém, foi escolhida com extremoso critério,
para alimentar a unidade da fé, dirimindo questões teológicas
que estiveram na origem de várias controvérsias, de heresias mesmo,
que, além de divisões, geravam lutas acesas
e derramamento de sangue entre os cristãos.
Muitas dessas expressões ressurgem, como numa suma teológica,
no Prefácio desta solenidade, cuja linguagem ― há quem a denuncie ―
parece um ‘estribilho’ ou ‘labirinto’ para a fé à procura de entendimento.
E, por isso, não se veja muito persuadido a dar graças,
pela forma como são enunciados os motivos de louvor,
que, para serem ruminados, precisam de voz clara, calma e distinta:
«Com o Vosso Filho unigénito e o Espírito Santo,
sois um só Deus, um só Senhor;
não na singularidade de uma só pessoa, mas na trindade de uma só natureza.
Tudo quanto revelastes acerca da vossa glória,
nós o acreditamos também, sem diferença alguma,
do vosso Filho e do Espírito Santo.
Professando a nossa fé na verdadeira e sempiterna divindade,
adoramos as três Pessoas distintas,
a sua essência única e a sua igual majestade» (Missal Romano, 462).
São palavras que surgem como joias, preciosas no tempo que reúnem,
como quartzos transparentes, colhidos numa gruta ‘teológica’, não?

5. As referências à Trindade continuam por toda a Oração eucarística
e em outros gestos e eucologias, como na oração do Pai Nosso,
na Oração depois da Comunhão, nos cânticos e na Bênção final,
para concluirmos com a persignação, no mesmo sinal do início.
Quantos e quantos ‘aros’ da Trindade, se assim os podemos considerar!
Um a um, vivendo a liturgia, como corpo dançante,
não haverá Deus de alegrar-se connosco, sorrindo (cf. Prov 8, 30-31)?
Ah! mas estas palavras são duras, exclusivamente masculinas.
É verdade, parece que temos de voltar ao deserto, negociando com outros faraós,
para entender uma das finalidades do Êxodo, tão explorada por Joseph Ratzinger!
Ganharíamos imenso se tentássemos (e reconhecêssemos) outras linguagens
― não necessariamente para se obter uma paridade legal ―
que narram, pela literatura, as artes e o testemunho, a Trindade.
Eis porque ― não estou esquecido não, mas a despertar a curiosidade ―
vamos agora ao encontro da criatividade feminina para marrá-la.

Santíssima Trindade - Hildegarda de Bingen

Santíssima Trindade – Hildegarda de Bingen

 

6. Comecemos então por uma monja, Hildegarda de Bingen (1098-1179),
que no livro Scivias, na sua segunda visão, narra:
«Então eu vi uma luz brilhante,
e nesta luz, a figura de um homem da cor de uma safira,
que ardia com um fogo suave e brilhante.
E aquela luz brilhante banhou todo o fogo brilhante,
e o fogo brilhante banhou a luz brilhante;
e a luz brilhante e o fogo brilhante se derramaram sobre toda a figura humana,
de modo que os três eram uma luz em poder de potencial»
(Hildegarda de Bingen, Scivias, Liber II, visão II).
Agora contemplemos como fez a iluminura da Trindade a partir da visão:
no interior de dois círculos concêntricos, de traçado ondeante,
encontra-se uma figura humana (Cristo), num azul safira,
com as mãos elevadas em sinal de compaixão.
O traçado circular, em claro movimento, sobrepõe-se à própria cercadura,
como a dizer-nos que a sua ação é ilimitada, sem princípio nem fim.

Santíssima Trindade in Cânticos de Rothschild f.75r

Santíssima Trindade in Cânticos de Rothschild f.75r

 

7. Talvez feitas por alguém, que em Hildegarda encontrou influência,
um século mais tarde, outra mulher ― é minha opinião ― iluminou
o livro de orações conhecido como Cânticos de Rothschild,
com 19 extraordinárias iluminuras da Santíssima Trindade.
Mas que belas iluminuras! Que imaginação e capacidade de evocação!
A plasticidade narrativa é feita de forma lúdica e íntima,
como uma «dança eterna» (Barbara Newman), de grande espontaneidade.
Para usufruir de tão grande quantidade de iluminuras,
sugiro o estudo de Barbara Newman [Barbara Newman, «Contemplating the Trinity: Text, Image, and the Origins of the Rothschild Canticles.» Gesta 52, no. 2 (September 2013): 133–59)]
cuja síntese e várias iluminuras se podem apreciar em artandtheology.
Ou, através da leitura de um outro artigo, com apresentação de iluminuras
e de meditações visuais feitas por Victoria Emily Jones:
Quem desejar aprofundar este tema, leia e contemple a obra
«A arte de apresentar o mistério trinitário:
imagem, eucologia e simbólica», da autoria de Tiago Fonseca,
editada pelo Secretariado Nacional de Liturgia,
que será brevemente apresentada na igreja da Santíssima Trindade, na Covilhã.

8. Hoje, ninguém nos pedirá que pintemos iluminuras da Trindade,
ou façamos pinturas como Graham Sutherland, Marc Chagall e Mark Rothko,
mas que sejamos capazes de traduzir, através de gestos concretos de caridade,
o amor com que Deus, por e em Jesus, continua a amar o mundo (cf. Jo 3,16-18).
Sim, para que em nossas obras de iluminante caridade
― S.to Agostinho preferia-as às representações, admitidas, todavia, nos códices ―,
incarnem as palavras que o Senhor proclamou a Moisés:
«O Senhor, o Senhor é um Deus clemente e compassivo,
sem pressa para se indignar
e cheio de misericórdia e fidelidade» (Ex 34,6).

Santíssima Trindade in Cânticos de Rothschild f. 81r

Santíssima Trindade in Cânticos de Rothschild f. 81r

 

9. Longe de ser dança egótica à volta do vitelo de ouro,
a celebração deste dia, e sempre, poderia assumir-se como dança
capaz de fazer balançar o nosso corpo e o espírito com os ‘aros’ da Trindade.
E, para concluir, nada melhor do que voltar a Hildegarda de Bingen,
com uma antífona de louvor à Santíssima Trindade:
«Louvor à Trindade,
som e vida,
criadora de todos os seres vivos.
Inconfundível louvor das angélicas turbas,
inefável esplendor dos mistérios,
que são ignorados pelos homens, é,
inexaurível fonte de vida em todos» [Flor Brilhante, (Lisboa: Assírio & Alvim, 2004), 37].
Antífona que pode ser por nós cantada, hoje preferivelmente em coro,
ou então ouvida, por exemplo, na voz de Gundula Anders:

 

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