Pré-publicação

História das Religiões – Da Origem dos Deuses às Religiões do Futuro

| 25 Nov 2023

 

Este livro apresenta-se como uma viagem por uma geografia que se estende da Escandinávia até África e do Brasil até à China, com epicentro na região do Crescente Fértil. Coordenado por João Gouveia Monteiro, professor catedrático da Universidade de Coimbra, História das Religiões – Da Origem dos Deuses às Religiões do Futuro apresenta, na primeira parte, seis politeísmos antigos: as religiões étnicas (com exemplos de Moçambique e do Brasil); as religiões da Mesopotâmia (em especial da Suméria); a religião do Egipto Antigo; os casos dos celtas e dos nórdicos; e as religiões da Grécia e da Roma antigas, sementes da ideia de Europa. Há ainda um capítulo sobre o zoroastrismo – o monoteísmo dual que foi a religião oficial da Pérsia durante doze séculos. Na segunda parte, propõe-se uma antevisão dos modelos religiosos do futuro: o teocrático; o da religião oficial nacional; o secular radical; e o multirreligioso. A terceira parte é dedicada ao taoísmo, a joia espiritual da China Antiga. O Tao Te Ching, de Laozi, é, depois da Bíblia, um dos livros mais traduzidos em todo o mundo!

Professor de História Militar e História das Religiões, João Gouveia Monteiro é investigador do Centro de História da Sociedade e da Cultura, fundou e dirige a Academia para o Encontro de Culturas e Religiões (APECER-UC) e coordenou, antes, uma História Concisa das Grandes Religiões (Manuscrito, 2021). Nesta obra, colaboram outros sete autores.

O livro será apresentado por Maria de Lurdes Rosa, professora da Universidade Nova, na Fnac Colombo, em Lisboa, na próxima terça-feira, a partir das 18h30.

Em pré-publicação, o 7MARGENS publica um excerto do texto de Francisco Diez de Velasco sobre o papel das religiões na construção de um modelo de convivência global. Velasco é professor catedrático da Universidade de La Laguna (Tenerife, Canárias, Espanha) e é membro da Comissão Consultiva para a Liberdade Religiosa do Ministério da Presidência de Espanha.

 

 

As religiões na construção de um modelo de convivência global

 

Texto de Francisco Diez de Velasco

 

 

Do ponto de vista da reflexão sobre o futuro, como já explicámos anteriormente, coloca-se um grande desafio no mundo atual: construir uma ética-mundo[i], um modelo global de coexistência que configure um quadro estável e regras do jogo que sirvam para a humanidade enquanto comunidade. Mas esta não é uma tarefa fácil.

O mundo de hoje caracteriza-se por duas correntes identitárias cuja combinação é complexa. O global, a assunção de valores comuns a toda a sociedade humana, mas que não pode ignorar a sensibilidade em relação ao local, aos valores da diferença que veiculam identidades culturais específicas de certas sociedades. A ética-mundo poderia tentar construir-se justamente sem abertura ao local. Neste caso seria uma imposição de uns poucos, dos mais ricos, dos mais poderosos, sobre os restantes, e a sua durabilidade estaria limitada ao tempo de vida dessas hegemonias. Portanto, a ética-mundo como compromisso de futuro tem de estar aberta à escuta de vozes diferentes, incluindo as «pequenas» vozes que, em plena modernidade, podem transmitir modelos de convivência com uma perspetiva menos focalizada no egocentrismo, mais aberta aos valores da comunidade.

É precisamente neste ponto que as religiões podem ser interlocutoras importantes: as vozes dos crentes são muitas, estão protegidas pela legitimidade de milhares de milhões de fiéis, podem ter uma linguagem de prazo mais longo do que o curto prazo da política, que é impulsionada por eleições ou pela economia e que está sujeita à periodicidade das assembleias de acionistas e ao imediatismo dos índices bolsistas. As religiões podem transmitir uma sensibilidade respeitadora das diferenças mas capaz de refletir semelhanças, uma vez que praticam desde um passado remoto a combinação de identidades complexas, por exemplo a identidade comum e global dos seguidores de uma religião universal conjugada com a identidade local de seguidores de rituais e práticas corporizadas numa paisagem telúrica e social particular.

A ética-mundo, enquanto compromisso de convergência, precisa de interlocutores que não pensem apenas em termos de geoestratégia ou de benefícios imediatos, mas que estejam conscientes da comunidade que constitui a humanidade e da necessidade de proteger a casa comum que é a Terra. Daí o papel que as religiões podem desempenhar, partindo da legitimidade de causas e compromissos morais antigos, mesmo milenares. Mas isso terá de ser feito, é claro, longe de leituras duplas (ou de agendas ocultas) ao estilo de um certo diálogo inter-religioso de surdos, que produz aberrações tais como palavras sem a prática correspondente, sem exemplaridade, discursos de boa vontade repetitivos, ao mesmo tempo que as crenças religiosas ainda são por vezes utilizadas como ingredientes para exacerbar  conflitos, para fomentar a violência ou a preeminência, para promover manobras de penetração ideológica através, por exemplo, de ações missionárias que podem originar confrontos.

De qualquer forma, há áreas em que a reflexão sobre a ética pode encontrar nas religiões mais obstáculos do que aliados, podendo ocorrer choques. Uma área muito sensível na formação de um quadro de convivência global diz respeito aos limites da investigação científica. É claro que a interlocução das religiões pode ser julgada como uma interferência no desenvolvimento científico, numa linha que tem precedentes tão famosos como Galileu e implicações muito atuais, como quando se exige objeção de consciência ao investigador crente, particularmente rigorosa em campos que têm a ver com o assunto tabu de muitas religiões, que é tudo aquilo que se relaciona com a sexualidade e a reprodução. Mas a ciência e a tecnologia não são conhecimentos neutros, as implicações ecológicas, económicas, políticas e geoestratégicas têm de ser aferidas, por exemplo no contexto de investigações perigosas com armamentos de consequências imprevisíveis, ou em investigações genéticas como a clonagem humana, que arriscam mergulhar em territórios que as religiões consideram exclusivos; é o caso dos que dizem respeito à imortalidade e que poderiam projetar-se a partir da poderosa imagem bíblica de um regresso ao Éden para comer da Árvore da Vida, que no transumanismo, anteriormente referido, se imagina ao alcance da mão. A promessa de uma vida muito longa, embora mediada pela perspetiva de que existe um fosso tecnológico entre quem pode pagar os tratamentos e quem não o pode fazer, exemplifica a necessidade premente de um compromisso ético global. A multiplicidade de vozes das religiões, transmitindo valores partilhados, pode ser importante no momento de travar a força dos lobbies transnacionais industriais e tecnológicos que se movem quase exclusivamente por critérios relacionados com o lucro económico, muitas vezes de curto prazo.

 

 

O género é outro dos campos em que a construção de uma ética-mundo se afigura mais complexa, uma vez que exigiria uma reformulação de alguns dos pontos de vista veiculados por alguns discursos religiosos, o que mostra que neste processo que estamos a discutir as religiões são interlocutoras, mas também necessariamente partes envolvidas no esforço consensual de mudança. A sociedade atual é, em questões de género, extremadamente sensível, desde a revolução dos costumes no final dos anos 60, em relação aos contextos de justificação das desigualdades e em particular no que diz respeito aos enquadramentos religiosos ou para-religiosos. Devemos ter em conta que muitas religiões transmitem valores de género que se adequavam a modelos agrícolas expansivos de entendimento dos objetivos coletivos, os quais estavam centrados num crescimento demográfico que multiplicou os valores simbólicos da reprodução, entendida esta como a dedicação principal das mulheres. Isto colocava obstáculos religiosos à limitação da procriação (aprofundando a censura dos comportamentos de género não relacionados com as opções reprodutivas) e fomentava uma divisão de papéis e de âmbitos de intervenção, deixando as mulheres culturalmente condicionadas e circunscritas à esfera interior e aos valores do íntimo, o que as expulsou de muitos dos fóruns de tomada de decisão coletiva.

As religiões com maior número de fiéis atualmente, as que conhecem uma maior expansão, transmitem este tipo de valores e até os apoiam por meio de lobbying em areópagos internacionais. Mas estes valores são vistos hoje por muitas pessoas como alienantes. Houve um redimensionamento do papel social da reprodução, e a este processo não são alheias as novas possibilidades que a tecnologia oferece, tanto para a controlar numa escala individual, como para repensar os papéis das mulheres (e também dos homens) nela, emergindo novas perspetivas como a que resulta de se poder diferenciar a maternidade ovular da maternidade uterina.

Contudo, talvez a questão mais crucial no mundo global de hoje seja a das restrições ambientais ao crescimento demográfico. É precisamente aqui que as religiões podem ser instrumentos chave na redefinição dos costumes reprodutivos, dado que não é muito difícil mapear alguns dos conflitos no mundo atual com recurso a uma simples identificação das zonas nas quais o crescimento demográfico é mais desequilibrado.

É por isso importante sublinhar neste ponto que a construção de uma ética-mundo deve ser acompanhada pela renúncia a certos valores que são transmitidos por textos religiosos e por práticas ancestrais, e não apenas àqueles mais obviamente relacionados com a apologia da violência, matéria sobre a qual o consenso da sociedade é muito claro.

Em conclusão, o processo de configuração de pressupostos globais para a preservação da sociedade humana e da Terra como um lar comum (mas de uma forma que respeite a diversidade cultural e com critérios não etnocêntricos, nem religiosos), mesmo que determine a transformação de algumas das mensagens transmitidas pelas religiões e seja uma aposta que implique grandes dificuldades, é, provavelmente, o desafio mais importante de um futuro no qual as religiões estão destinadas a participar.

 

João Gouveia Monteiro, coordenador do livro: “A ideia foi a de centrar atenções sobre um conjunto de imaginários religiosos antigos”, diz o coordenador na introdução. Foto: Direitos reservados.

João Gouveia Monteiro, coordenador do livro: “A ideia foi a de centrar atenções sobre um conjunto de imaginários religiosos antigos”, diz o coordenador na introdução. Foto: Direitos reservados.

 

História das Religiões – Da Origem dos Deuses às Religiões do Futuro

Coordenação: João Gouveia Monteiro
Edição: Manuscrito
336 páginas; 21,90€
[i] Veja-se, por exemplo, Küng & Kuschel, 1994.

 

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