História de uma alma

| 12 Abr 2024

Juízo final. Michelangelo

“Tenho para mim que a vida nos foi dada para ser vivida, não para ser desperdiçada ou até negada. Jesus não se coibia de comer e beber à mesa de quem o convidava.” Michelangelo, O Juízo Final. Capela Sistina. 1534-1541 (Cidade do Vaticano).

Não me é fácil ler com agrado obras de caráter espiritual com ou sem cariz autobiográfico. Em boa medida, muitas dessas obras refletem conceções com as quais não me identifico. Espelham um cristianismo individualista, voltado para o “aperfeiçoamento” pessoal, sem qualquer atenção a aspetos de natureza social. Sobretudo, e este é um dos aspetos que mais me repugna, advogam um processo espiritual de busca incessante do sofrimento, como meio de obtenção da própria salvação e da salvação dos “pecadores”, bem como para “reparação” do coração “ofendido” de Deus, de Jesus ou da Virgem Maria. O sofrimento, interpretado como meio redentor do mundo, não é apenas aquele que as circunstâncias da vida se encarregam de nos trazer, é sobretudo o sofrimento procurado e amado pelo ser humano que nega a si próprio o direito a uma vida plena, sadia e feliz. Uma outra dimensão que me aflige nestes textos de piedade tradicional é a alusão frequente a “aparições” ou visões de Cristo, da Virgem ou de qualquer outro ser celeste portador de mensagens que o Céu supostamente nos quer comunicar. Há dois aspetos neste tipo de narrativas que me deixam de pé atrás. O primeiro é a dúvida sobre o equilíbrio mental de uma pessoa que “vê” recorrentemente seres transcendentes e com eles conversa. O segundo é o conteúdo das próprias “aparições”. Habitualmente, as mensagens remetem para teologias medievais, de cariz popular e de duvidoso enraizamento na mensagem originária do evangelho. É por isso que, de uma forma geral, as reputo projeções do próprio ego e não autênticas revelações divinas. É assim, por exemplo, com as “revelações” de Fátima.

Tenho para mim que a vida nos foi dada para ser vivida, não para ser desperdiçada ou até negada. Jesus não se coibia de comer e beber à mesa de quem o convidava. Não há na sua mensagem e no seu comportamento qualquer alusão a essa religião doentia que nega a vida assumindo a busca incessante do sofrimento como suposta virtude. Fomos criados por Deus para aproveitarmos a vida, não para a negarmos. É certo que aproveitar a vida não se opõe, de modo algum, à negação de um egoísmo que exclua o outro. Mas a recusa do ódio, do egoísmo e da exclusão do outro nada tem a ver com essa busca patética do sofrimento que torna a vida, já de si difícil, um autêntico e insuportável “vale de lágrimas”.

Foi, portanto, com alguma desconfiança que me abalancei na leitura de “História de uma alma” da francesa Maria Francisca Teresa Martin ou, como é habitualmente conhecida, santa Teresa do Menino Jesus (Teresa de Lisieux). Logo após as primeiras páginas, essa desconfiança desvaneceu-se e a perceção muito positiva do texto foi-se consolidando ao longo da leitura.

Do ponto de vista literário, a obra é realmente interessante. Teresa recorre a uma paleta de recursos expressivos que conferem valor estético ao texto. A obra lê-se com aprazível fluidez, como acontece com as melhores obras literárias.

Também o tom confessionista e autobiográfico concede à obra um interesse experiencial que ensaios de espiritualidade raramente conseguem. As linhas orientadoras da sua conceção de vida espiritual confundem-se com a experiência que delas foi fazendo ao longo dos seus poucos anos de vida (morreu tuberculosa com apenas 24 anos). É igualmente surpreendente a maturidade que esta mulher revela na forma como conduz a vida, bem como a profundidade das suas ideias e perspetivas espirituais. Era, de facto, um ser de eleição, como há poucos.

No entanto, o que mais atraiu a minha atenção foi exatamente a sua mensagem, amplamente testada pela vida e pela forma como abordou os múltiplos acontecimentos do quotidiano. Ao contrário de conceções superficiais da vida cristã, nela encontramos o essencial do evangelho. É verdade que, aqui ou ali, topamos com essa repugnante apologia do sofrimento de que falava acima. No entanto, este aspeto é claramente marginal na sua opção de vida. Ao longo do texto, somos presenteados com autênticas pérolas da vida cristã. Não podendo mostrar todas, aqui ficam algumas.

Para Teresa, “é impossível à palavra humana exprimir coisas que o coração do homem mal pode pressentir”. Haverá forma mais lapidar de transmitir a inefabilidade de Deus e a limitação do conhecimento humano?

O centro da sua espiritualidade não é o sofrimento salvífico, nem a reparação do “agravado” coração divino, nem qualquer outra forma de espiritualidade nas franjas do evangelho. A sua espiritualidade centra-se na mensagem do próprio Jesus: “A minha vocação é o Amor”; “Não há nada que nos possa tornar agradáveis a Deus senão o amor; e este amor é o único bem que ambiciono”. “Para chegar à Montanha do Amor, Jesus pede apenas o abandono e a gratidão.” Tudo o que nos é dado viver é pura graça de Deus, puro dom. Viver no amor e no abandono a Deus é apenas a revelação da nossa mais elementar gratidão face ao amor com que Deus nos quis, nos amou e nos ama.

Face às tantas contrariedades da vida, Teresa confessa: “Ao passarinho acometido pela tempestade parece-lhe não acreditar que existe outra coisa, a não ser as nuvens que o envolvem. É então o momento da alegria perfeita para a pobre e débil criaturinha. Que felicidade para ela permanecer ali e fixar a luz invisível que se esconde à sua fé!” Há uma luz invisível que se esconde no caos do mundo e no infortúnio da vida. Saber “ver” essa luz onde ela não é visível é o ato específico da fé, da confiança no sentido absoluto da vida, ainda que a contingência do tempo que habitamos no-lo ocultem.

Mas Teresa, como todos os místicos, viveu mergulhada nessa noite escura da alma onde Deus não se manifesta e nada parece fazer sentido. Essa experiência atroz, fá-la reconhecer, apesar disso, é “feliz por sofrer”. Contudo, Teresa não deixa de duvidar do centro da fé cristã: “A morte dar-te-á não o que tu esperas, mas uma noite mais profunda ainda, a noite do nada.” Para Teresa, a perda da fé manifesta-se nesta incerteza quanto a Deus e ao futuro absoluto do ser humano.

“Esse sofrimento de não ter nenhuma certeza do céu é a provação da alma e o sacrifício pedido por Jesus para ele abrir o céu aos incrédulos”.  Teresa tem de dar algum significado à mágoa causada pela incerteza a respeito de Deus e da vida eterna. Esse significado encontra-o na velha teologia do sofrimento como reparação.

Ao contrário de Teresa, não compreendo a dúvida como perda de fé, mas como atitude inerente à própria fé. Por isso, aceito a dúvida, sem sofrimento nem revolta, como quem aceita o nascer do sol em cada aurora. Ela é constitutiva da minha fé. Exige, portanto, um salto de confiança sobre a escuridão da vida e da consciência humana.

Santa Teresa do Menino Jesus. Foto © DR

“Teresa precisa de dar algum sentido ao sofrimento absurdo com que enfrenta a noite escura da fé, na qual tudo lhe diz que Deus é uma quimera e ao homem não resta senão o nada.” Santa Teresa do Menino Jesus. Foto © DR

Um tal sofrimento tão íntimo, que lhe abala os alicerces espirituais, leva Teresa a declarar que “quanto mais íntimo é o sofrimento, quanto menos aparece aos olhos das criaturas, mais Vos alegra, ó meu Deus!.” Teresa precisa de dar algum sentido ao sofrimento absurdo com que enfrenta a noite escura da fé, na qual tudo lhe diz que Deus é uma quimera e ao homem não resta senão o nada. É assim que ela vai à procura da razão pela qual Deus a sujeita a tão grande provação. Deus, portanto, alegra-se com o sofrimento íntimo do ser humano? Parece ser esta a perspetiva de Teresa, inteiramente incapaz de aceitar que há experiências absurdas para as quais nenhum de nós pode encontrar razões que lhes deem algum sentido. O mundo e a vida são, em si mesmos, paradoxais. Se, por um lado, têm vestígios de evidente racionalidade e ordem, há também neles a negação disso mesmo. E essa face oculta da luz que a vida nos põe constantemente diante é insuscetível de racionalizações, por mais que as procuremos até ao limite das possibilidades do entendimento. Mas decerto, em meu entender, Deus não se alegra nem pode alegrar-se com o sofrimento humano!

Navegando nas águas turvas da noite escura da fé, Teresa deseja continuar a acreditar no Céu, embora nele já não creia. E assim, “o único desejo que subsiste é o de amar até morrer de amor”. “Há muito tempo que já não me pertenço. Entreguei-me totalmente a Jesus”.

Todos nós somos personalidades complexas que se não reduzem a uma única dimensão. Podemos ser crentes e descrentes, santos e pecadores, honestos e mentirosos… Também Teresa mostra nos seus escritos essa multiplicidade de dimensões. Embora não acredite já num Deus que nos resgate à morte, entrega-se totalmente a esse Deus como a criança se entrega nos braços da mãe. Intelectualmente, as nuvens adensam-se. Mas o seu coração inquieto fá-la entregar-se de forma confiante nos braços da Grande Incerteza.

Porém, não julguemos que Teresa reduz a sua vida espiritual à mera relação interior com Deus. Se para ela o amor é a única vocação a que pretende dar cumprimento, o amor aos outros é a outra face do amor a Deus. “A caridade perfeita consiste em suportar os defeitos dos outros, em não se escandalizar com as suas fraquezas, em edificar-se com os mais pequenos atos de virtude que se lhes vir praticar”. “Só é possível amar como Jesus nos amou porque é ele próprio a amar os outros no nosso coração”. O amor não pode ser aquela forma delicodoce com que abraçamos quem nos ama, mas a atitude radical de querer bem a quem nos não ama e por quem nutrimos a maior antipatia.

O amor e o abandono a Deus fazem-na aceitar o “total desprendimento dos bens materiais”, em continuidade com o Sermão da Montanha: “dar tudo a quem to pede, não reclamar se alguém te tirar algo… Nada é teu, tudo é dom”. E, portanto, “nada esperar como retribuição pelos serviços prestados”.

Teresa reclama a mesma atitude em relação aos bens espirituais: as nossas ideias, os nossos desejos… Nada é nosso. Tudo provém de Deus e a Ele pertence.

Apesar da enorme importância dada ao papel das obras do amor, Teresa não as interpreta como formas de aquisição de “méritos” com vista à “conquista” do Céu, mas como manifestações do amor para com Deus a quem se entrega inteiramente, como a amante ao seu amado.

 

Jorge Paulo é católico e professor do ensino básico e secundário.

 

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