Livro de Alain Corbin

História do Repouso

| 20 Nov 2023

O historiador francês Alain Corbin (Normandia, 1936) dedicou o seu percurso de investigação ao levantamento de uma dimensão dos estudos históricos habitualmente secundarizada: não a história das grandes datas e dos líderes, mas a história do quotidiano, das representações e dos estilos de vida. Especializando-se no período moderno (séculos XVII a XIX), Corbin expõe neste livro, numa linguagem acessível, o modo como o tema do repouso esteve presente no pensamento, na literatura (sobretudo a oriunda do espaço do autor, a francófona) e nas artes. A conclusão, a par do tema do livro, é assim delineada desde o início: «As definições e as figuras do repouso não deixaram de evoluir ao longo dos séculos e, na maioria das vezes, de se entrelaçar, sobrepor, confrontar (…) O nosso objetivo é permitir ao leitor compreender a verdadeira noção de repouso dos nossos antepassados e experimentar a vertigem do ser que o caracterizava» (p. 10).

Desde a teologia bíblica do Sabbath, o descanso de Deus ao sétimo dia da Criação, até à espiritualidade da oração de quietude dos místicos modernos (João da Cruz e Teresa de Ávila), Corbin não receia em indicar como a matriz cristão influenciou a alternância entre trabalho e descanso que caracterizam a sociedade europeia até à Revolução Industrial. O repouso, longe de ser um intervalo para produzir melhor (como pretende a sociedade da produção e do consumo), é um tempo ativo, de profunda humanização, o que implica não confundir com um tempo de ativismo lúdico. O descanso é na atualidade substituído pelo lazer ou diversão, que é em si uma indústria sujeita às leis da procura e da oferta, e que mantêm a pessoa num processo contínuo de estimulação. Mas é apenas no ócio, na suspensão deste contínuo, que tem lugar a qualidade das relações, a gratuidade do encontro, a possibilidade de brotar uma intuição artística.

Este não é um livro de autoajuda ou de espiritualidade: a leitora ou o leitor que com ele se encontrem terão diante de si um itinerário a percorrer entre a literatura, a cultura e a arte, ao nível dos pergaminhos intelectuais do Autor. Se do repouso se fala, é do repouso que não se afunda no pesado sofá da televisão ou nos ecrãs das redes sociais. Descobre-se um filão que liga a tradição judaica, as festas medievais, o domingo cristão e a arte de Van Gogh. O repouso não é passivo, mas permeado por um propósito, ainda que não por uma produtividade. Envolve o tempo e o espaço, a relação com a natureza, a aceitação da fragilidade das relações, a lentidão do pensar e do agir. E ainda que a contemporaneidade compreenda, em várias fontes de discursos, a importância desta lentidão humanizante, Alain Corbin devolve-nos a sabedoria os antigos, dos pensadores, poetas e ensaístas que, a seu tempo, perceberam como, no final, o repouso é o que nos torna humanos.

«No fim do século XVI, Montaigne aborda várias vezes este tema e sublinha que há um momento em que nos devemos retirar para descansar: “Vivemos que baste para os outros; vivamos para nós, pelo menos no nosso final da vida. Orientemos para nós e para o nosso bem-estar os nossos pensamentos e intenções”. “As nossas forças abandonam-nos; poupemo-las e concentremo-las em nós”». (p. 35).

Obra: História do Repouso
Autor: Alain Corbin
Edição: Quetzal
Páginas: 136

 

 

Sínodo, agora, é em Roma… que aqui já acabou

Sínodo, agora, é em Roma… que aqui já acabou novidade

Em que vai, afinal, desembocar o esforço reformador do atual Papa, sobretudo com o processo sinodal que lançou em 2021? Que se pode esperar daquela que já foi considerada a maior auscultação de pessoas alguma vez feita à escala do planeta? – A reflexão de Manuel Pinto, para ler no À Margem desta semana

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Nada se perde: um antigo colégio dos Salesianos é o novo centro de acolhimento do Serviço Jesuíta aos Refugiados

Inaugurado em Vendas Novas

Nada se perde: um antigo colégio dos Salesianos é o novo centro de acolhimento do Serviço Jesuíta aos Refugiados novidade

O apelo foi feito pelo Papa Francisco: utilizar os espaços da Igreja Católica devolutos ou sem uso para respostas humanitárias. Os Salesianos e os Jesuítas em Portugal aceitaram o desafio e, do antigo colégio de uns, nasceu o novo centro de acolhimento de emergência para refugiados de outros. Fica em Vendas Novas, tem capacidade para 120 pessoas, e promete ser amigo das famílias, do ambiente, e da comunidade em que se insere.

Bispos católicos de França apelam à fraternidade e justiça, mas não se demarcam da extrema-direita

Com as eleições no horizonte

Bispos católicos de França apelam à fraternidade e justiça, mas não se demarcam da extrema-direita novidade

O conselho permanente dos bispos da Igreja Católica de França considera, num comunicado divulgado esta quinta-feira, 20 de junho, que o resultado das recentes eleições europeias, que deram a vitória à extrema-direita, “é mais um sintoma de uma sociedade ansiosa, dividida e em sofrimento”. Neste contexto, e em vésperas dos atos eleitorais para a Assembleia Nacional, apresentaram uma oração que deverá ser rezada por todas as comunidades nestes próximos dias.

“Precisamos de trabalhar num projeto de sociedade que privilegie a ativação da esperança”

Tolentino recebeu Prémio Pessoa

“Precisamos de trabalhar num projeto de sociedade que privilegie a ativação da esperança” novidade

Na cerimónia em que recebeu o Prémio Pessoa 2023 – que decorreu esta quarta-feira, 19 de junho, na Culturgest, em Lisboa – o cardeal Tolentino Mendonça falou daquela que considera ser “talvez a construção mais extraordinária do nosso tempo”: a “ampliação da esperança de vida”. Mas deixou um alerta: “não basta alongar a esperança de vida, precisamos de trabalhar num projeto de sociedade que privilegie a ativação da esperança e a deseje fraternamente repartida, acessível a todos, protagonizada por todos”.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This