Hoje não há missas no Sri Lanka e a prioridade é reconstruir vidas, não igrejas

| 28 Abr 19

 

O primeiro socorro às vítimas, após o atentado na igreja de São Sebastião. Foto © ACN Portugal

 

O cardeal Malcom Ranjith, arcebispo de Colombo (capital do Sri Lanka), anunciou que este domingo, 28 de Abril, não haverá missas no país e considera que a prioridade na resposta aos atentados de Domingo de Páscoa, que atingiram duas igrejas católicas e uma evangélica (além de quatro hotéis e um bairro residencial), deve ser a reconstrução das vidas dos feridos e dos familiares das vítimas e não das igrejas. “Temos de ajudar essas pessoas por uma série de programas de aconselhamento, porque algumas delas estão destruídas”, disse, citado pelo Crux.

As afirmações do cardeal tornam-se tanto mais importantes quanto várias respostas imediatas tentaram mobilizar esforços para recolher fundos destinados à reconstrução das igrejas destruídas. Muitas pessoas que estão ainda a ser acompanhadas opor familiares e amigos, ficarão sozinhas à medida que o tempo passar, enfrentando “a realidade da solidão”, avisa o cardeal. “Por isso temos que ajudá-los através de programas de aconselhamento”, diz Ranjith.

O Crux refere os casos de crianças órfãs, mulheres viúvas, mães que perderam os filhos e outras pessoas cujos ferimentos vão exigir tratamentos demorados. Por isso é necessária ajuda, incluindo ao nível do apoio financeiro e da edução, acrescenta o cardeal.

Na manhã de Páscoa, vários atentados suicidas em Colombo e outras três localidades do Sri Lanka mataram 253 pessoas (entre as quais um português que ali estava em lua-de-mel) um e feriram outras 500. Na sequência dos factos, o arcebispo de Colombo anunciou sexta-feira que neste domingo, 28, não haverá missas no país, decisão que se manterá até que se considerem criadas condições para regressar à normalidade.

Também as mesquitas do país estão sob vigilância, por receio das autoridades de que haja alguma vontade de vingança contra os muçulmanos, já que o Sri Lanka é um país maioritariamente budista (cerca de 70 por cento dos 21 milhões de habitantes, havendo ainda 13 por cento de hindus, 10 por cento de muçulmanos e sete por cento de cristãos), que saiu há dez anos de uma guerra civil. Sexta-feira, as poucas mesquitas que abriram tiveram uma participação escassa nas orações.

 

“Uma mensagem aos extremistas”

“Estamos a enviar uma mensagem aos extremistas, dizendo-lhes que não serão capazes de nos assustar ou dissuadir”, afirmou Reyyaz Salley, responsável da mesquita Dawatagaha Jumma, em Colombo, citado na TSF, acrescentando que a razão para terem ido à mesquita era rezar pelas vítimas. “Um pequeno grupo de pessoas perpetrou esses ataques, mas alguns culpam toda a comunidade muçulmana do Sri Lanka, o que não é justo”, acrescentava Mohammed Ramesh, frequentador da mesma mesquita.

Os ataques de Domingo de Páscoa foram reivindicados por um grupo derivado do autodenominado Estado Islâmico. As duas igrejas católicas atingidas foram o Santuário de Santo António, em Colombo, e a Igreja de São Sebastião em Negombo, cidade de maioria católica o norte da capital.

O padre Mahendra Gunatilleke, director da Cáritas Sri Lanka, publicou uma mensagem na rede social Twitter pedindo assistência espiritual e económica: “Pedimos as vossas orações e apoio neste momento difícil no nosso país.” A Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) lançou também um apelo de emergência e outra organização católica, os Cavaleiros de Colombo deram 100 mil dólares (cerca de 90 mil euros) para apoiar os esforços de reconstrução.

Nas declarações ao Crux, Ranjith, que visitou as igrejas depois dos ataques e presidiu já a vários funerais de vítimas durante esta semana, considerou que “não é fácil consolar as pessoas que perderam os seus entes queridos em grande número”. Um dos funerais que fez, quinta-feira passada, foi o de um casal cujos filhos agora são órfãos. Noutro caso, morreram um homem e os dois filhos, restando a mulher e mãe, que não tem agora ninguém. Num terceiro, ficou o pai e marido sozinho, depois de perder esposa e três filhos.

O cardeal rejeita igualmente a relação religiosa com o terrorismo: os atentados não são uma questão de religião, mas de terrorismo: “As pessoas que fazem estas coisas não acreditam em religião. Se eles acreditassem, não tocariam com as mãos numa única pessoa.”

Marcas da destruição provocada pelo atentado de Domingo: mais de 250 vítimas mortais e 500 feridos foram o resultado mais trágico dos ataques. Foto © ACN Portugal

Muçulmanos portugueses condenam

“Condenamos veementemente, não há meio termo”, comenta ao 7MARGENS o imã David Munir, xeque da Mesquita Central de Lisboa, a propósito da posição dos muçulmanos portugueses sobre os acontecimentos de Domingo de Páscoa. O xeque Munir diz que logo no próprio dia foi publicada uma condenação na página de Facebook da Comunidade Islâmica de Lisboa. “A nossa mensagem é que o terrorismo não tem religião nem região”, diz.

Sexta-feira passada, na oração do início da tarde, David Munir referiu-se também ao facto durante o seu sermão, pedindo pelas vítimas e pelos seus familiares, e condenando os ataques. “É ainda mais lamentável e condenável porque as igrejas são um lugar sagrado e porque os atentados aconteceram num dia marcante para cristãos.”

O xeque Rachid Ismael, responsável do Colégio Islâmico de Palmela, tem outro trabalho: o de explicar a crianças e adolescentes da escola que dirige que “a religião não é isto”. Os alunos, diz ao 7MARGENS, “ficam chocados como qualquer ser humano, quando há tragédias como estas, seja num local de culto ou não, e falamos com eles para explicar que em nome de Deus não se tira a alma a outras pessoas”.

“A convicção religiosa não pode permitir um acto como este, independentemente de haver quem o reivindique”, acrescenta. E sexta-feira, durante as aulas de religião, o assunto também foi falado: “Repeti palavras do Alcorão para dizer que o mal não deve ser retribuído mas com o bem e que o maior dos inimigos deve tornar-se meu amigo”, o que requer “esforço e perseverança, mas esse é o nosso esforço, lutar contra o terrorismo é uma luta de qualquer confissão”.

“O Alcorão dá liberdade de crença”, afirma ainda o xeque Rachid, citando dois versículos do texto sagrado do islão para justificar. Num deles, na sura (capítulo) 2, versículo 256, lê-se: “Não há imposição quanto à religião, porque já se destacou a verdade do erro.”

Durante a semana, a direcção da escola divulgou também um comunicado para “demonstrar o seu repúdio e condenar veementemente” os atentados, citando várias frases do Alcorão em que se recusa a violência contra outros seres humanos.

 

Matanças de Páscoa

Em muitas das condenações dos atentados – segunda-feira passada, o bispo de Chilaw, Devsritha Valence Mendis, em declarações à AIS, considerava o sucedido como como um “crime contra a Humanidade” – não se ignorava que já por várias vezes a época ou mesmo o Domingo de Páscoa foi a data escolhida para atentados terroristas tendo igrejas cristãs como alvo. O atentado de domingo passado foi, até hoje, a matança de Páscoa mais mortífera, mas a AFP (Agence France Presse) registou os dados dos anteriores atentados num gráfico publicado na conta da agência no Twitter:

Gráfico da AFP no Twitter: atentados contra cristãos no tempo da Páscoa já fizeram mais de 400 mortos desde 2012

 

A 8 de Abril de 2012 (Domingo de Páscoa), em Kaduna (Nigéria), foram mortas 41 pessoas num atentado com um carro-bomba perto de uma igreja.

A 26 de Março de 2016 (Domingo de Páscoa), no Paquistão, 75 pessoas morreram no ataque em Lahore (Paquistão), num parque muito frequentado por famílias cristãs

Em 9 de Abril de 2017 (Domingo de Ramos), em Tanta e Alexandria (Egipto), vários atentados em duas igrejas coptas fizeram 45 mortos.

Há outros atentados visando alvos cristãos: a 15 de Março de 2015, um duplo atentado perto de duas igrejas, num bairro cristão de Lahore (Paquistão), fez 17 mortos e 70 feridos; a 4 de Março de 2016 (três semanas antes da Páscoa), em Áden (Iémen), um ataque armado a um hospício dirigido pelas Missionárias da Caridade provocou 16 mortos, entre os quais quatro freiras; em 2016, no Cairo e em 2017 em Minya (ambos no Egipto) provocaram igual número de mortos: 29.

 

(A propósito do acontecimento, pode escutar-se também este registo áudio do Público)

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