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[Entre Margens]

“Hoje são eles. Amanhã és tu!”

| 04/02/2026

 

Foi em torno desta frase que 100 mil pessoas se juntaram em Frankfurt, em 1992, num grande concerto ao ar livre contra o racismo. Tinham começado os ataques a estrangeiros. Nesse mesmo ano, houve uma grande manifestação em Munique na forma de uma corrente de luz, na qual participaram mais de 400 mil pessoas, para protestar contra a xenofobia.

Quando voltei da Alemanha, trouxe comigo um papelinho, que guardo na carteira até hoje, com um pequeno texto de Martin Niemöller, um conhecido pastor luterano na Alemanha, que criou, juntamente com Dietrich Bonhöffer (preso e executado, perto do fim da Segunda Guerra Mundial), a “Liga Pastoral de Emergência”, destinada a apoiar os pastores não-arianos ou casados com não-arianas. Esta associação transformou-se na “Igreja Confessante”, não uma nova Igreja, mas sim a parte da Igreja Luterana que recusou obedecer às ordens de Hitler, tornando-se um importante centro da resistência alemã protestante.

O pequeno papel que me acompanha sempre diz o seguinte: “Quando os nazis vieram buscar os comunistas, eu fiquei calado. Afinal, eu não era comunista. Quando prenderam os social-democratas, eu fiquei calado. Afinal, eu não era social-democrata. Quando vieram buscar os católicos, eu não protestei. Afinal, eu não era católico. Quando vieram buscar-me, já não havia ninguém que pudesse protestar.”

Não creio que estejamos à beira do nazismo, mas, tanto na Europa, como nos Estados Unidos da América, na invasão da Ucrânia pela Rússia, no extermínio dos palestinianos pelo governo de Israel, no Irão, na Nigéria, na Índia, nos lugares de que não nos “lembramos”, porque não aparecem nos media, estão instaladas ou a instalar-se regimes autocráticos cuja principal característica parece ser aquela que é comum nas ditaduras: a desumanização do outro. E a indiferença, a indolência, a cobardia, ou a fantasia de que determinadas coisas não voltarão a acontecer.

Se há coisa que este momento nos está a entrar pelos olhos é que sim. Há muitas coisas que estão a acontecer novamente. Não. Não é verdade que tenhamos aprendido assim tanto com a história do século XX. O que me preocupa é pensar que, se calhar, tomámos a democracia por algo “evidente” e eterno e não estamos a perceber que, por exemplo, o mesmo país em que ocorreram as manifestações que menciono no início deste texto é o país em que, hoje, a AfD pinta com as suas cores todo o território da chamada “Alemanha de Leste”.

Como se compreenderá, não pretendo analisar a situação da Alemanha. Pretendo falar de Portugal, onde há pessoas a dizer que precisamos de “três Salazares”. Dessas pessoas, é provável que a maior parte não tenham sequer vivido no tempo do Salazar, porque ainda nem tinham nascido e, portanto, fazem afirmações néscias. Não estou a comparar estas afirmações ao nazismo. Óbvio. O que estou a comparar é a indolência, o adormecimento, a hesitação, a cobardia. É preciso dizer que perseguir estrangeiros, colar cartazes a dizer que “isto não é o Bangladesh”, desconsiderar populações inteiras, falar de “portugueses de bem” e dos outros, ir à igreja e ajoelhar-se “devotamente” com uma boa câmara que registe o momento, são coisas incompatíveis com o cristianismo: tudo o que constitua discriminações, apelo ao ódio, linguagem que fala de “bandidos”, de “bar aberto no SNS” ou na política de entrada de estrangeiros em Portugal não é compatível com ser cristão!

E é preciso dizê-lo claramente, porque, como dizia o slogan de um concerto de solidariedade com os estrangeiros, na Alemanha dos anos 90, que escolhi para título deste pequeno texto: “Hoje, são os outros. Amanhã, és tu!” Ou como dizia Martin Niemöller, “quando vieram buscar-me, já não havia ninguém que pudesse protestar”. Acrescentaria eu: “porque eu pensei que nunca me aconteceria e pensei que os outros teriam quem os defendesse”. Foi por esses todos que Jesus Cristo entregou a vida. Foi por esses.

 

Teresa Toldy é professora universitária de Ética e teóloga; publicou Deus e a Palavra de Deus nas teologias feministas (Ed. Paulinas).

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