Bispos portugueses criam comissão

Homem de confiança do Papa sugere que Itália também deve investigar abusos

| 7 Out 2021

Padre Hans Zollner em Maio, em Lisboa, em entrevista ao Ponto SJ. Foto retirada da entrevista vídeo

 

O padre jesuíta alemão Hans Zollner, homem de confiança do Papa para a prevenção e combate aos abusos sexuais do clero, considera que, depois da França, os bispos italianos deveriam também fazer um levantamento sobre aquela situação. “Agora, as realidades eclesiásticas de outros países precisam de ter a mesma coragem da Igreja francesa. Espero que também a Itália”, afirmou, em entrevista na edição de quarta-feira do jornal La Repubblica, traduzida na página da Unisinos.

“A Igreja não é imaculada e, infelizmente, é feita também de pecados e crimes, dizia Zollner, 54 anos, comentando a divulgação do relatório do episcopado francês sobre os abusos, divulgado esta semana.

O padre jesuíta é o responsável pelo Instituto de Antropologia, Estudos Interdisciplinares sobre Dignidade Humana e Cuidado de Pessoas Vulneráveis, da Universidade Gregoriana, que nesta quinta-feira foi visitado pela chanceler Angela Merkel, que está a terminar o seu mandato e estaria interessada em entender o que faz o Instituto para prevenir abusos.

Hans Zollner considera que, por detrás do choque dos números de França (cerca de três mil padres abusadores e 330 mil vítimas, ao longo de 70 anos), “está a vítima, a sua família, o contexto em que vive” e que é preciso “pensar em cada vítima: é pela justiça e pela salvaguarda das pessoas que a Igreja quis este trabalho”.

“Admitir os crimes do passado e as responsabilidades é o único ponto de partida. As responsabilidades são sistémicas e institucionais. Os crimes foram tratados com negligência e também culpadamente e ativamente ocultados”, afirmava ainda o responsável.

Zollner admite que há resistências a que avancem investigações como esta, mas esse é “o caminho e não se pode voltar atrás”.

 

100 vítimas por agressor?
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Mais de 100 vítimas por agressor não parece um número “razoável ou justificado”. Foto: Direitos reservados.

 

Entretanto, num artigo de opinião publicado no Il Sismografo, o norte-americano Peter Anderson coloca em causa a veracidade do número de 330 mil vítimas abusadas por clérigos e leigos ao serviço de estruturas católicas. Esse número “chocante” significaria “que o abusador médio da Igreja teria abusado de mais de 100 crianças.

“Isso é difícil de acreditar”, comenta o articulista. “Um dos piores abusadores da Igreja no mundo foi provavelmente John Geoghan, da Arquidiocese de Boston, que alegou ter abusado de mais de 130 meninos.” O relatório colocaria, assim, o abusador médio da Igreja em França “quase na mesma categoria de Geoghan”. E cita outros números em defesa do seu argumento: “O relatório de 2018 encomendado pela Igreja na Alemanha descobriu que aproximadamente 1.670 clérigos estiveram envolvidos no abuso de 3.677 crianças. O relatório detalhado do grande júri no estado da Pensilvânia (EUA) encontrou mais de 300 padres predadores e mais de 1.000 crianças vítimas conhecidas, mas afirma que o número real de vítimas estava “na casa dos milhares”.

Ou seja, um número médio de duas a quatro vítimas por abusador. Mesmo sabendo que o número de vítimas reais é maior do que o número conhecido, diz, as mais de 100 vítimas por agressor, no relatório francês, não parece um número “razoável ou justificado”.

O Presidente francês, Emmanuel Macron, quer, entretanto, que o bispo Eric de Moulins-Beaufort, presidente da Conferência dos Bispos de França, explique a sua afirmação segundo a qual o segredo da confissão “é mais forte do que as leis”.

Moulins-Beaufort foi chamado pelo ministro do Interior, Gerald Darmanin, que tutela os cultos, para uma audiência no início da próxima semana, noticiou a agência Lusa, citada pelo Público.

O bispo reagiu daquela forma a uma das recomendações da comissão independente criada pela Conferência Episcopal sobre a pedofilia do clero. Entre as 45 medidas, a comissão sugere que se repense o segredo da confissão a que os padres são obrigados.

Comentando a afirmação do bispo, o porta-voz do Governo, Gabriel Attal, declarou esta quinta-feira, 7, que “nada é mais forte que as leis da República”.

A propósito do relatório, o Papa Francisco expressou a sua “vergonha” pela “longa incapacidade da Igreja” para lidar com casos de padres pedófilos. No ano passado, o antigo padre Bernard Preynat foi condenado a cinco anos de prisão, por ter abusado de mais de 75 rapazes durante décadas.

 

Uma comissão nacional em Portugal

Grafite numa parede de Lisboa fotografado em 2011, aludindo ao abuso sexual de clérigos sobre menores. Foto Milliped/Wikimedia Commons

 

Em Portugal, de acordo com outro despacho da Lusa citado pelo Diário de Notícias, a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) irá constituir “um grupo a nível nacional a partir das comissões diocesanas” de protecção de menores e adultos vulneráveis, para acompanhar a questão dos abusos sexuais na Igreja.

O secretário da CEP, padre Manuel Barbosa, assegura que o conselho permanente e a assembleia plenária do episcopado “mantêm o assunto na agenda, continuando a tomar medidas para concretizar o que está decretado nas Diretrizes” aprovadas em Novembro de 2020.

As directrizes “insistem na prevenção, na formação, na investigação e tratamento de possíveis denúncias de casos, tendo em conta a legislação canónica e civil”, acrescentou o secretário da CEP, citado pela mesma fonte, reconhecendo que a epidemia impediu o avanço dos trabalhos como inicialmente previsto.

Apesar da situação pandémica, que não permitiu “avançar muito no trabalho de coordenação das comissões diocesanas, realizou-se um encontro em Fátima, em 31 de Maio, com todas as comissões diocesanas, e o assunto “continuará a ser tratado, nomeadamente com a constituição de um grupo a nível nacional a partir das comissões diocesanas, conforme referido no número 25 das Diretrizes”, diz Manuel Barbosa, citado pela mesma fonte.

 

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