Homenageando o artesanato

| 8 Jun 21

“O artesanato que não é mais do que transformar a matéria-prima recorrendo a técnicas tradicionais” . Foto: Colcha da Arvore da Vida com Cavaleiros – Bordado de Castelo Branco / Wikimedia Commons

 

Os novos tempos transformaram, ainda que provisoriamente, os hábitos que muitos de nós tínhamos bem arreigados. O conceito de descanso, tantas vezes associado a férias em paragens longínquas, passou a contemplar simplesmente sair de casa e chegar-se a destinos que, apesar de próximos, não tinham ainda sido, para muitos, explorados.

A conquista de aldeias recônditas faz ou fez recentemente parte dos passeios mais frequentes e é por estes lugares que, essencialmente, se fazem descobertas improváveis. O artesanato que não é mais do que transformar a matéria-prima recorrendo a técnicas tradicionais e é algo que, por aí, sob as mais variadas expressões, podemos encontrar.

Se, por um lado, é verdade que não sucumbiu à Revolução Industrial, é também verdade que a sua rentabilidade é muito pequena e, por isso, o seu valor tem de ser muito bem compreendido.

Em pleno século XXI os artesãos e as suas obras são, diria eu, metáforas urgentes para a boa compreensão da humanidade.

Tive oportunidade de falar com alguns nos últimos meses e pude integrar que, entre outros, o seu conceito de tempo é diferente daquele do homem que corre e que, afinal, somos todos nós. A sua capacidade de adiar a gratificação é incontestável, pois demoram dias, às vezes semanas ou até meses, a fazer aquilo que, com uma maquineta mais ou menos barata e sofisticada, se faria em apenas algumas horas. A sua resistência à frustração, essencialmente por não se sentirem devidamente compreendidos nem valorizados, é tão grande que os faz sorrir a apenas algumas trocas de palavras com potenciais clientes, sem qualquer recompensa monetária.

Num dos ateliês que visitei encontrei, entre muitas outras peças, um jogo de dominó miniatura, esculpido em madeira, que era uma verdadeira obra de arte. Custava 100 euros. A tentação de o comprar foi grande, mas não pudemos deixar de refletir que era imenso dinheiro para ser colocado numa vitrina e, talvez, mal ser visto e apreciado, ficando perdido entre outras criações de lugares mais distantes e objetivamente mais vistosas.

O artista estava, então, a trabalhar num tampo de uma mesa com madeiras embutidas, manifesta e esteticamente perfeito. O pó que saía da sua criação era impressionante. Talvez viesse a causar-lhe uma doença respiratória com o passar dos anos, mas isso não parecia importar porque a paixão pela obra era decerto maior do que o medo de hipotecar a saúde.

Este artesão, como tantos outros, estava só. Tinha uma música de fundo para o acompanhar, mas a sua dedicação às peças únicas que deliberava conceber talvez o preenchesse de tal forma que não deixava lugar para devaneios infelizes próprios do (super)homem que o homem de hoje quer ser.

Cá por casa temos criado o hábito, há já muitos anos, de trazer pequenas peças de artesanato de diferentes lugares do mundo por onde passamos, não apenas agora que andamos pela vizinhança ibérica. Isso faz-nos olhar de um modo atento para o que as mãos podem fazer com poucas ajudas, mas muito talento. A cultura de um povo e a sua identidade ressoa por entre pedaços de pedra transformada, retalhos de madeira selvagem devida e livremente esculpida, restos de lixo reciclado e renascido para uma nova função.

As tradições, os afetos dedicados, a esperança de que alguma valorização seja conseguida, fazem destes homens e mulheres corajosos, seres em absoluta contracorrente. São lentos, não trabalham em série, ganham pouco dinheiro, fazem produções irrepetíveis e são pouco reconhecidos para o seu merecimento.

Então, vale a pena perguntar: se poucos valorizam, compram, reconhecem e admiram, para quê a continuidade desta expressão artística tão rica nos mais inesperados lugares do mundo e deste país que é o nosso?

Sabemos que a História se faz dos caminhos percorridos e dos passos dados quando ainda nem se percebia a direção ou o objetivo que iriam perseguir. Talvez este motivo tão maior, que mais não é do que evitar que algumas expressões se fiquem apenas por registos audiovisuais e literários, justifique a apologia da continuidade do artesanato; talvez a necessidade de o homem atual refrear o seu ritmo possa ser aprendida através deste modo de vida; talvez o valor do tempo sentido deva ser reformulado a partir de quem, podendo ir mais depressa, escolhe com clareza, continuar a existir e a exprimir-se ao ritmo permitido pela intencional falta de sofisticados artifícios.

Enfim, homenageando o artesanato, e em particular, o rico e variado artesanato português, diria como Michelle Obama: “O sucesso não tem a ver com o dinheiro que se ganha, mas com a diferença que se faz na vida das pessoas.” Também por isto, o artesanato é um ato de coragem, um grito de alma, um eco de inequívoca sobrevivência das tradições e da identidade de um povo.

 

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia.

 

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