Homens e Animais – uma apologia filosófica do bom senso

12 Abr 19Entre Margens, Últimas

Nas margens da filosofia

“O bom senso é a coisa do mundo melhor partilhada, pois cada um pensa estar tão bem provido dele que mesmo aqueles que são mais difíceis de contentar noutras coisas não têm o costume de desejar mais bom senso do que aquele que possuem.” 

(René Descartes)

É com este apelo irónico à distribuição equitativa de bom senso que Descartes inicia o seu Discurso do Método. Note-se que o bom senso tem sido muitas vezes encarado como inimigo dos filósofos. Não nos lembraríamos de fazer filosofia a partir de opiniões consensuais, nem consideraríamos filosófico um discurso linear que se impusesse a todos numa primeira leitura. O que não impede a filósofa britânica Mary Midgley (1919-2018) de apelar ao bom senso no tratamento das questões filosóficas. Seguindo-a, apresentamos a controversa questão das relações entre homens e animais. Midgley desconstrói uma visão preconceituosa do que é ser filósofo e de como se faz filosofia, apresentando-nos um pensamento simultaneamente claro e rigoroso, arguto e susceptível de interessar quer especialistas quer leitores habitualmente pouco dados a especulações abstractas. Para a autora de Beast and Men,[1]o jargão filosófico constitui as mais das vezes um disfarce para a ausência de ideias ou para a apresentação confusa das mesmas.

Midgley parte do princípio de que filosofar é uma actividade que a todos interessa. E chama a nossa atenção para um dos temas mais pregnantes da ética contemporânea – a relação entre homens e animais. Considerando que depois de Darwin a aproximação entre animais e homens é inevitável, a filósofa defende uma continuidade na Natureza, o que não a impede de aceitar a existência de especificidades próprias.Há que detectar as semelhanças sem no entanto omitir as diferenças. No seu entender, a racionalidade identifica-se com uma adequação de preferências. Esta não é exclusiva dos homens, embora neles se apresente com características próprias. A racionalidade define-se pela inteligência mas também pela integração. Os animais dão respostas integradas, daí podermos dizer que são inteligentes. Tem de haver um centro que comande uma orientação firme, uma continuidade de interesses que dê consistência a um comportamento. Este, para ser apelidado de racional deverá ser orientado por princípios e por constantes.

No homem, essas respostas são dirigidas por um centro sofisticado que é a consciência. A consciência é a nossa própria natureza que vai conhecendo o modo como actua e as constantes a que obedece. Mas os animais também têm padrões de referência, também são integrados. Tal como os homens, não dispõem apenas de comportamentos mecânicos. Contudo, as suas necessidades são menos complexas. Os seres humanos são ambivalentes, desejam coisas incompatíveis, têm a possibilidade reflexiva de tomar consciência dos conflitos e, como tal, de os regular.

A cultura é como que um completamento da Natureza. Os animais também têm cultura, embora neles esta não se revista do simbolismo abstracto, próprio dos homens. Inegavelmente que há excepções mas elas não autorizam generalizações abusivas. Em todas as culturas encontramos padrões comuns, gestos expressivos universais como por exemplo agarrar, abraçar, saudar, proteger. Não é  lícito considerar as outras espécies como homens imperfeitos ou como indivíduos colocados ao serviço dos homens. Seres como os animais, as plantas, os montes e os vales têm em si mesmos uma razão de ser. Daí o respeito que lhes é devido. Midgley critica o modo desnecessariamente cruel como a nossa sociedade trata os animais. Mas também critica o radicalismo das teses de Singer e de Regan, os defensores mais conhecidos de uma “animal liberation” que pugna pelos direitos dos animais.[2]

Ao longo de séculos temos fruído de relações inter-específicas, vivendo em “comunidades mistas”, formadas por homens e  animais. Alguns animais aprenderam a obedecer a sinais sociais humanos, viveram com os homens e deixaram-se domesticar. O que não significa que tenham sido considerados como máquinas ou como coisas. A “comunidade mista” é natural e gratificante. Nela, as diferenças são reconhecidas,  havendo uma hierarquia de interesses e de direitos. Midgley constata que não tratamos os nossos vizinhos nem gostamos deles do mesmo modo que tratamos e amamos os nossos familiares. No entanto, temos obrigações para com esses vizinhos que não temos para com pessoas que desconhecemos. O mesmo se passa com as nossas obrigações relativamente aos animais. Os animais de estimação exigem de nós maior atenção do que os animais em geral. Mas não hesitamos na escolha entre salvar um animal ou uma criança recém-nascida.

A valorização dos que nos são mais próximos, tal como a valorização dos humanos sobre os animais é algo que não conseguimos (nem devemos) descartar facilmente. O que de modo algum justifica um tratamento cruel relativamente aos animais ou a sua utilização arbitrária em função dos nossos interesses. Somos parte da bio-esfera e tudo quanto nela existe nos interessa e afecta. A compaixão para com os animais é algo que devemos cultivar e que se vai enraizando em nós pela aquisição de hábitos. Estes são tão mais facilmente adquiridos quanto correspondem a sentimentos que nos são próprios enquanto membros da espécie humana. Uma compaixão que também marca a diferença pois raramente a encontramos nos animais.

 

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora catedrática de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (http://luisarife.wix.com/site; luisarife@sapo.pt)

 

Notas

[1]Mary Midgley, Beast and Man. The Roots of Human Nature, London, Routledge,1996.

[2]Tom Regan/Peter Singer, Animal Rights and Human Obligations, New Jersey, Prentice Hall, 1989; Peter Singer, Animal Liberation, New York, Random House, 1975; Tom Regan, The Case for AnimalRights, London, Routledge, 1984.

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