primeiro degrau

Gostava de poder perguntar ao Daniel o lado pelo qual ler este verso. Ouço-lhe o timbre da voz ao escrever esta frase. Perguntava-lhe se era a negação das estratégias que liberta os homens e os cola ao ritmo mineral e vegetal que há nas coisas, ou se era a negação das estratégias que fazem as coisas funcionar. Talvez ele próprio dissesse o princípio do poema de cor, como os tinha muitas vezes. Logo este que é o dos que abre biografias, “homens que são como lugares mal situados / homens que são como casas saqueadas”.

Sei que anda este verso e este poema a morder-me a bainha das calças há mais de um mês. Já tropecei nele várias vezes, em mudanças de passo, quando ultimamente se aflora a temática dos abusos de menores em contexto eclesial. O que se vai lendo e conhecendo aponta para homens que são como a negação das estratégias pelas quais estes problemas se podem resolver, procedimentos de homens que são como lugares mal situados no mapa-múndi de um problema sério. Antipoeticamente, aqueles que são como casas saqueadas são outros.

Quando se perde a noção adensa-se o abismo. É similar à perda da dor, que expõe o corpo ao perigo de sucumbir rapidamente por falta de alarme. A dor, esse mecanismo interno de aviso e protecção, corresponde à noção que é tão arriscado perder. Perder a noção é andar “a leste do paraíso”, esse território da fuga, do escondimento, do malogro, da culpa e… ainda assim, quem sabe, da ténue esperança firmada numa palavra inesperada.

 

segundo degrau

Génesis, capítulo quarto, versos nove a dezasseis. “Leste do paraíso” é o lugar de Caim depois de extinguir Abel. Assim conta o Livro: “Caim afastou-se da presença do Senhor e foi habitar a região de Nos, a oriente do Éden”. O destino da errância vem depois das perguntas que se sucedem como flechas: “Onde está o teu irmão?” e “O que fizeste?” São, talvez, as perguntas com maior prazo de validade na história do mundo.

O lugar de Caim, a leste do paraíso, é dito na boca dele como terra de expulsão e acusação. Isso verbaliza ele mesmo no rosto de Deus: “Expulsas-me, obrigas-me ao esconderijo, afugentas-me e abandonas-me, por ser tão grande a minha culpa.” E de tal modo violento é para o coração de Deus ouvir um filho a dirigir-se-lhe assim, que o Senhor reage com uma palavra que ainda nunca tinha dito: “Não!” Deus diz “não” (Gen 4, 14-15). E marcou-o com um sinal que o pusesse a salvo. Este inesperado “não” interrompe a cadeia da culpa e da desgraça, corta o ímpeto furioso da condenação. Com a terra ainda empapada do sangue de Abel, com o suor queimando na testa de Caim, Deus introduz uma palavra com futuro dentro, uma possibilidade. Há ainda uma via a percorrer a leste do paraíso, há ainda viabilidade no lado de fora.

 

terceiro degrau

No poema do Daniel há homens que são como danos irreparáveis, homens que são como sítios desviados, que são como caminhos barricados, homens encarcerados abrindo-se com facas. E cada uma destas imagens me atormenta como coisa a exigir iluminação e toque de mão humana. Vivemos uma hora de dolorosa conversão. As análises estão aí com suficiência e alarde, mas falta ainda a transparência da conversão, da humilhação de ser descoberto à humildade de mudar realmente. “Onde abundou o pecado, superabundou a graça”. Quem sabe? Se vivermos esta hora com desassombro e desapego, talvez aconteça que Deus nos apareça, sempre novo, a leste do paraíso, com uma inesperada palavra de futuro e um sinal de salvação. Mas esse sinal teremos de carregá-lo na testa, como Caim, porque há crimes que não se podem esconder.

 

Rui Santiago é missionário redentorista e presbítero católico.

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