Hong Kong é o novo manual de protesto para o século XXI

| 9 Nov 19

Manifestação de apoio a Hong Kong em Brisbane, na Austrália. Foto © Andrew Mercer/Wikimedia Commons

 

“A principal característica do movimento pró-democracia de Hong Kong é que não tem líderes, é horizontal. É o oposto do que aconteceu em 2014 com o movimento dos guarda-chuvas, que terminou com vários de seus líderes na prisão, e isso impede que nos parem.” É desta forma que Woody Tam, uma estudante de 24 anos, descreve o modelo seguido nos protestos de Hong Kong e demonstra o que o distingue dos que o precederam.

Tam enfrenta há quatro meses a polícia no campo de batalha da ex-colónia britânica, abalada desde 9 de junho por protestos que nasceram contra a proposta de lei de extradição – retirada formalmente no último dia 23 de outubro – e exigindo eleições com sufrágio universal. “O envolvimento de pessoas de todas as esferas da sociedade, que oferecem o seu talento de graça, e o uso de novas tecnologias, é o que nos permite ter muito êxito e manter a luta por tanto tempo”, afirma Tam.

Kenny Tai, um outro manifestante, com 25 anos, descreve que cada pessoa contribui de uma forma diferente para a continuação dos protestos. “Todas as ações surgem de forma orgânica. As pessoas fazem propostas no fórum LIHKG”, uma plataforma digital de notícias e informações “que alguns parlamentares pró-chineses querem bloquear – e depois as pessoas organizam-se em grupos”, afirma ao jornal El Diario, citado na página da Unisinos.

“Estudantes jornalistas” e meios de comunicação digitais transmitem os protestos a partir dos seus smartphones, registando qualquer incidente de brutalidade policial e apontando os nomes dos detidos, que costumam gritar para que o seu caso possa ser seguido e assim evitar o seu desaparecimento. Ao mesmo tempo, grupos de advogados oferecem serviços jurídicos gratuitos através de mensagens de telemóvel.

 

Novos meios e novas tecnologias para a mobilização

Um dos outros meios utilizados pelos manifestantes é a página digital HKMap.live, originalmente banida pela Apple. A aplicação indica os locais onde se encontra a Polícia e onde ocorrem os distúrbios. É uma ferramenta indispensável, desenvolvida por um programador anónimo com o objetivo de auxiliar a população a evitar zonas de conflito. Contudo, o Governo considera que esta é uma ameaça, ao oferecer informação aos manifestantes mais violentos da localização da Polícia de Choque.

Com toda esta sofisticação e os meios utilizados pelas alas mais radicais do conflito, que estão equipados com capacetes, máscaras antigás, ponteiros laser para cegar as forças policiais, escudos caseiros feitos de sinais de trânsito e até serras para forçar a entrada em edifícios do Governo, muitas pessoas têm pensado se há interferência estrangeira com o propósito de destabilizar a China. Porém, “a realidade é muito mais simples: os habitantes estão a doar dinheiro através de campanhas de crowdfunding”, diz Jessica Chen, membro do Conselho Estudantil da Universidade Batista de Hong Kong.

Chen confirmou que o facto de a maioria destas campanhas ultrapassar os objetivos estabelecidos se relaciona com um objetivo: “A maioria dos cidadãos de Hong Kong aderiou ao movimento, porque sabe que, se fracassar, as liberdades de que gozamos hoje podem desaparecer quando a China controlar por completo a cidade, em 2047”. A jornalista também acrescenta que aqueles que não participam ativamente nos protestos doam capacetes e máscaras antigás aos manifestantes.

 

Uma nova geração de protestos

As manifestações de protesto também se estenderam além de fundos, aplicações e proteções para os manifestantes. Exemplos disso são a composição de um hino oficial para os protestos, intitulado “Glória a Hong Kong”, que teve tanto sucesso que muitas pessoas pediram para adotá-lo como o novo hino oficial. Um outro exemplo é um videojogo “Libertar Hong Kong”, que pretende simular o movimento democrático em progresso e ajudar outras pessoas a entender melhor o que se está a passar nas ruas.

Para muitos, Hong Kong é um novo manual de protesto da sociedade civil no século XXI. “Os habitantes de Hong Kong estão lutando contra a maior e a mais poderosa ditadura no mundo. O seu exemplo, inspira muitos outros movimentos em todo o mundo”, afirma Badiucao, um artista dissidente e proeminente que não hesita em usar o seu talento como cartoonista para criticar o Governo e ajudar a espalhar as cinco exigências dos manifestantes. “A arte está a desempenhar um papel essencial em manter os protestos vivos”, acrescenta.

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