Bento Domingues e Laborinho Lúcio: humanistas e críticos, homens das “ciências moles”

| 16 Fev 2019 | Destaques, Pessoas, Sociedade, Últimas

Frei Bento Domingues mostrando o diploma de doutoramento junto do reitor da Universidade do Minho; atrás, Laborinho Lúcio já com as insígnias de doutor (Fotografias © Nuno Gonçalves/Universidade do Minho)

 

Um pensamento “humanista-crítico”, num caso ou um “pensamento social humanista singular”, no outro; um homem preocupado com o desenvolvimento da “consciência crítica contra a cultura do silêncio”, hoje sinónimo de “pensamento único”; outro interessado no “incitamento ao desassossego” que a teologia (mesmo a de São Tomás de Aquino) pode fazer. Álvaro Laborinho Lúcio e frei Bento Domingues receberam nesta sexta-feira, 15 de Fevereiro, o doutoramento honoris causa pela Universidade do Minho (UM).

Dois humanistas, duas personalidades de pensamento crítico e desassossegado, dois homens das “ciências moles”, como diria o antigo ministro da Justiça, no discurso de agradecimento, estabelecendo a identificação entre ambos: “Frei Bento Domingues reconhece-se como ‘um homem das ciências moles’ e esse é, no sublinhado da modéstia com que o digo, mais um bom ponto de encontro de encontro entre nós. Também eu sou um homem das designadas ciências moles, sendo nelas que assenta grande parte do respaldo (…) que me conduz à elaboração de um pensamento crítico, activo…”

Nas laudatio com que foram apresentados, nos discursos de agradecimento que proferiram ou na intervenção final do reitor da UM, apareceram sublinhados o labor inconformista, o espírito livre e o sentido de compromisso de ambos os novos doutores: Laborinho Lúcio, antigo ministro da Justiça que continua preocupado com o tema, ao mesmo tempo que tem desenvolvido uma profunda reflexão sobre a educação e a escola; e frei Bento Domingues, frade dominicano e teólogo católico, que continua a ser solicitado para múltiplas intervenções públicas, ao mesmo tempo que publica textos, ensaios e livros e mantém a sua crónica semanal de domingo no Público, iniciada em 1992.

“Da atribuição do título são indissociáveis” as características do rigor e a riqueza das actividades que desenvolveram ambos, “pelos serviços que prestaram ao país, ultrapassando fronteiras de grupos sociais”, disse o reitor, Rui Vieira de Castro, na intervenção final da sessão, perante as centenas de pessoas que enchiam o Salão Medieval da UM – incluindo o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues. Quer Laborinho Lúcio quer Bento Domingues afirmam, com o seu pensamento e formas de agir, o “compromisso com a procura da verdade”, que não é dissociável do ser pessoa”, bem como o contributo pessoal “em prol de causas justas”.

 

O direito a brincar e as novas exclusões

Numa sessão com humor, boa disposição, reflexão, música, olhares preocupados sobre a sociedade e propostas atentas para desbloquear caminhos, o padrinho de doutoramento de Laborinho Lúcio destacou, em detrimento da ligação à justiça, a reflexão e o percurso do antigo ministro no que diz respeito à intervenção cívica sobre a educação e a escola.

Para Laborinho Lúcio, “não basta aprender para ganhar e conhecer para competir, no quadro de uma pedagogia contra o outro que é incompatível com a democratização da educação, com a efectivação de direitos, com a educação para e pela cidadania”, sublinhou Licínio C. Lima, professor do Instituto de Educação da UM, escola que propôs o doutoramento em Ciências da Educação. E acrescentou, numa citação do homenageado, que a escola se transformou “num instrumento” da “predominância dos interesses, do dinheiro e dos mercados”, em vez de formar para a “dissidência” em relação a isso.

Laborinho Lúcio é alguém que defende o direito a ser criança e a brincar como “estruturante” e que aponta: “Encharcamos as crianças de tal maneira com competências que nunca chegamos a saber quais são as suas capacidades”. Recordando os dois mandatos do antigo ministro no Conselho Geral da UM (2009-2017, primeiro como membro, depois como presidente eleito), destacou que ele contribuiu “para a construção de um espaço de liberdade permanente, em fidelidade aos seus ideais”. Não sendo professor nem pedagogo, concluiu, o também antigo director do Centro de Estudos Judiciários entendeu que as universidades devem ser também instituições dedicadas à acção educativa e a uma “pedagogia implícita”.

O agora novo doutor deu ao seu agradecimento o título A educação e a escola – memória à beira do futuro, começando por afirmar o seu apreço pela ideia de gratidão: “Gosto de agradecer. E apraz-me fazê-lo em língua portuguesa para que, ao agradecer, me sinta obrigado.” Enunciou, depois, as suas reflexões e preocupações, por vezes em forma de pergunta: “Como se constroem as novas exclusões, as mais das vezes, agora, no interior da própria escola?”

Recordando, pelos diminutivos, antigos colegas de escola primária ou de universidade – “alguns deles bem mais capazes do que eu”, mas que as condições de vida deixaram para trás –, o autor de O Homem Que Escrevia Azulejos (ed. Quetzal) citou Eugénio Lisboa para alertar contra a ameaça da marginalização provocada pela aceleração; ou perguntando, com George Steiner, se “a escola não deveria ser um lugar de lentidão?”

Destacando as conquistas da escola pública depois da democratização de 1974, chamou a atenção para o desaparecimento da figura do “aluno”, que deu lugar ao desconhecimento dos “sujeitos em presença”. E citou Ortega y Gasset: “(É) necessário voltar o ensino do avesso”, concebendo a escola “de baixo para cima, partindo dos alunos e das alunas” e não de uma “realidade ficcionada”.

Preparação do cortejo académico para o início da cerimónia

 

“Percursos inspiradores”

Na intervenção final na sessão, o reitor da UM sublinhou ainda a “grande atenção e sensibilidade aos outros” dos dois novos doutores, “que faz com que actuem com elevado sentido de comunidade”. E acrescentou que ambos são “percursos inspiradores” para o país, “vozes livres, comprometidas com o humano” e que assumem de forma explícita a sua “responsabilidade com a transformação efectiva do mundo”.

Espírito de “liberdade livre” e atento “à necessidade do Outro” é o de frei Bento Domingues, disse Moisés de Lemos Martins, professor do Instituto de Ciências Sociais, que apadrinhou o doutoramento do frade dominicano em Estudos Culturais. O apresentador da laudatio começou por dizer que frei Bento “é hoje uma figura consensual na sociedade portuguesa”, para acrescentar que “não foi sempre assim” e rectificar logo a seguir: “E hoje talvez ainda não seja sempre assim” – não por acaso, não participou na sessão nenhum representante oficial da hierarquia católica, como seria de esperar perante um tal acontecimento.

O homenageado, apontou Moisés Martins, é “uma das personalidades mais fascinantes da cultura portuguesa” das últimas décadas, de quem é “igualmente adequado dizer” que se tornou “um teólogo do espaço público, aliás, o maior dos teólogos portugueses”. Foi alguém que trouxe “a religião para o espaço público, fazendo dela o cerne do debate sobre o humano”, que “tem sabido interpretar e dado público testemunho da condição antropológica da religião, ela que é índice de cultura e fautora de civilização”.

Neste sentido, apontou a obra A Religião dos Portugueses, publicada em 1998 e reeditada em versão alargada no ano passado (ed. Temas e Debates/Círculo de Leitores) como “um estudo sobre o imaginário cultural português” e a contemporaneidade do país.

Traçando o percurso de Bento Domingues nos grandes debates culturais e teológicos do catolicismo contemporâneo, Moisés Martins apresentou as razões para o doutoramento de alguém que passou sempre à margem da instituição universitária. E que, quando foi convidado pelo então reitor da Universidade Católica, padre Isidro Alves, “recusou, porque não podia ser um teólogo ao serviço de uma instituição, mas apenas ao serviço da liberdade”.

 

“Construção sem fim”

O padrinho do doutorando apontou, além da “extraordinária dimensão humana” de Bento Domingues, também a “grandeza da sua actividade científica, pedagógica e cívica”, exemplo inspirador de “sabedoria”. E acrescentou: “Por ter ideais e fazer deles o combate de uma vida. Por ter sempre no horizonte um sentido de comunidade. Por não recear ser inconveniente, quando é a necessidade do Outro que o exige. E pelo facto de não ter outra medida que não seja o coração.”

Bento Domingues agradeceu fazendo a história do seu percurso, destacando vários factos e acontecimentos sobre os quais escreveu para o 7MARGENS ou falou nesta entrevista, a partir de sete momentos e símbolos por ele escolhidos.

Destacou o papel que São Tomás de Aquino e a sua Suma Teológica teve e tem ainda hoje na sua reflexão, com uma prática “anti-idolátrica, livre e libertadora”: Tomás de Aquino “pode tornar-se um veneno se for considerado, não um incitamento ao desassossego, mas a verdade fixada para sempre”. Falou do “carácter fragmentário” das sua publicações, “num todo de desígnio em construção sem fim, e que passou por uma dispersão que também foi geográfica, nas suas deambulações por Portugal, Moçambique, Angola e vários países da América Latina.

“Era também uma questão de fidelidade à minha vocação dominicana: testemunhar, comunicar, dar aos outros o que de Deus e dos outros recebi”, afirmou. E pediu à Igreja e às universidades que abram “novos horizontes” capazes de apoiar a “unidade das famílias dos povos”.

Na peça de Bach escolhida por frei Bento para o momento final, o seu confrade e poeta José Augusto Mourão escrevera o poema. Numa das estrofes, canta-se: “Eu sou de Deus o alaúde, a corda que ele tocou,/ para dizer que o longe é perto e o perto nos amou./ É Deus quem nos juntou aqui, o largo e não a cerca…”

A orquestra e o coro da Universidade do Minho num dos momentos musicais da sessão

(Na quinta, 14, véspera do doutoramento, decorreu no ICS uma conversa entre os dois doutorandos sobre Cidadania, Religião e Cultura, que pode ser vista em vídeo a partir de uma conta no Facebook, neste endereço). 

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