Humanizar não é isolar

| 24 Mai 2022

Em Portugal há cerca de 23,4% de pessoas com mais de 65 anos, havendo concelhos do interior em que a população de idosos é superior a um terço dos habitantes da região. Mais de metade daqueles que estão em instituições como lares têm idade superior a 80 anos. Foto: Direitos reservados.

 

É incontestável que as circunstâncias de vida das pessoas são as mais diversas e, em algumas situações, assumem contornos improváveis e, muitas vezes, indesejáveis. À medida que se instalam limitações resultantes ou não de envelhecimento, alguns têm de habitar residências sénior, lares de idosos, casas de repouso,… Enfim, os nomes variam e os conceitos e condições também, mas as pessoas que nelas residem têm, maioritariamente, grandes limitações ao nível de autonomia, precisando de muita ajuda ou não têm enquadramento sociofamiliar que lhes permita permanecerem no seu domicílio ou ambas. Mais ainda, a percentagem de idosos institucionalizados tem vindo a aumentar. 

Não vou discutir condições e assistência muitas vezes massiva, que mistura pessoas psiquicamente organizadas com outras em processo demencial e alheadas da realidade que as rodeia. Mas este aspeto também é, em muitas situações, algo com que nos deveríamos preocupar e a que os responsáveis se deveriam dedicar com muito critério, quando são concebidos e/ou avaliados estes lugares de envelhecer. Obviamente, por vezes, melhor não pode ser feito por falta de apoios económicos.

Por mais que nos custe olhar para alguns aspetos desta realidade – até porque ser velho é só condição de ter vivido muito e, em geral, esse é um desejo de quase todos à medida que a idade avança –, há perspetivas que não devem ser ignoradas.

Em Portugal há cerca de 23,4% de pessoas com mais de 65 anos, havendo concelhos do interior em que a população de idosos é superior a um terço dos habitantes da região. Por outro lado, mais de metade daqueles que estão em instituições da natureza das que estamos a falar, têm idade superior a 80 anos.

Durante estes tempos de pandemia houve uma reação de proteção aos mais velhos institucionalizados que redundou em isolamento. Ocorreram, por isso, problemas muito graves, não apenas no nosso país, mas em vários outros da União Europeia. Mortes por não sei quê passaram-se em muitos lugares, mas o denominador comum dessas foi o abandono e não a covid. Pessoas sem mobilidade deixadas nas suas camas, sem tomarem banho, sem serem devidamente alimentadas, sem serem hidratadas, sem serem vistas nem olhadas, sem serem ouvidas nem escutadas. 

As visitas deixaram de ser permitidas e as saídas também. Durante algum tempo fez sentido porque, embora pouco se soubesse, tinha-se a noção de que era preciso isolar, quanto possível, para evitar contaminações e surtos incontroláveis, que colocariam em grande risco a vida de muitos.

Entretanto a pandemia foi andando com diferentes manifestações e oscilação de números, mas se algo aconteceu de bom neste processo, foram as vacinas. Estas diminuíram o número de casos de contágio e, ao mesmo tempo, a gravidade com que a doença se manifesta e propaga, salvo raras exceções ou co-morbilidades.

A verdade é que, em muitas instituições, as regras que, em certo tempo, fizeram sentido, deixaram de o fazer, mas foram mantidas, total ou parcialmente, sabe Deus assentes em que critérios, para além das idiossincrasias desumanas e, de certa forma, acomodadas, dos seus dirigentes.

É incontestável, porque estudos o comprovam, que a solidão pode aumentar, numa percentagem muito significativa, o risco de doença cardíaca e de acidente vascular cerebral. Uma das investigações a que tive acesso fala de 30%. Deste modo, combater o isolamento reveste-se de uma importância crucial em todas as idades. 

Quando se é velho e, sobretudo, quando se alcança a chamada grande idade (acima dos 80 anos), a perspetiva da existência torna-se mais limitada. Os interesses podem afunilar, seja por dificuldades de acesso à informação e ao contacto, seja por consciência de que, provavelmente, o número de amanhãs será substancialmente reduzido. Com muita lucidez, afigura-se incontestável que a vida passa depressa.

Se, por outro lado, as pessoas não estiverem mentalmente organizadas, o contacto, os afetos, a proximidade aos que se amam, será um momento de aconchego insubstituível para a qualidade do viver possível nesse momento.

De que serve continuar a existir se se for apenas um sistema humano feito de aparelhos biológicos conectados em relativo funcionamento?

Os lugares massivos de envelhecer têm de ser espaços de dignificação da vida em toda a sua duração. Na verdade, não foi a pandemia o único fator que fez com que alguns desses não o fossem. Muitos já não o eram pelas mais variadas razões e a pandemia só pôs isso a descoberto. Uns porque não têm (e já não tinham) recursos. Outros porque não têm colaboradores em número suficiente, motivados e empenhados. Outros porque o lucro sem ética é a prioridade. Outros porque, ao falar de humanização de cuidados, teorizam apenas práticas que ficam evidenciadas em registos imprescindíveis às certificações que soa bem ter, mas que, em nada, beneficiam os utilizadores, pois o mesmo quadro de pessoal tem de assistir, registar, criar procedimentos, acompanhar auditorias. Enfim…

Sabe-se que as crises são oportunidades de crescimento e que, a seguir a cada uma, há, frequentemente, significativas evoluções nos contextos em que elas ocorrem. No entanto, não basta que nos convençamos disso se, neste caso, apenas os cuidados à saúde física melhoraram. É imprescindível cuidar do bem-estar total e a socialização e os afetos são domínios que, em muito, para ele contribuem.

Claro que isto que estou a comentar, direcionado para as residências de pessoas mais velhas, também se encontra noutro tipo de instituições, nomeadamente onde estão internadas pessoas com doença mental grave, que, porque os seus líderes assim o entendem ou têm as próprias ansiedades, não podem ser visitadas ou acompanhar as suas famílias a um passeio. Há famílias a denunciar estas situações sob critérios a que têm de se submeter porque sim.

Em suma, humanizar não é isolar. Dignificar não é amputar presença e convívio afetivo e efetivo sem critério. O ser do outro é tão importante como o nosso ser, esteja em que momento da vida estiver e seja qual for a sua condição. Precisamos de olhar uns para os outros como se cada um se tratasse de nós mesmos ou dos nossos e, por isso, com a dedicação de quem não inverte prioridades e não usa o poder que algum cargo lhe dá para fazer sobretudo o que mais lhe convém.

Trabalhar nestas instituições deve ser, acima de tudo, um serviço e não um servir-se. Por isso, quem nelas se encontra com este espírito de abnegação, desde o que tem mais poder ao mais simples colaborador, deve ser valorizado e reconhecido como alguém especialmente humano e a quem todos devemos profunda gratidão, pelo bem que acrescenta com o seu precioso contributo para uma sociedade melhor.

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia. Contacto: m.cordo@conforsaumen.com.pt.

 

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