Valor destinado a instituição de solidariedade

“Humilde e generoso Peregrino da Esperança”, Tolentino Mendonça é Prémio Pessoa 2023

| 14 Dez 2023

José Tolentino Mendonça

José Tolentino Mendonça. Foto © Mário Santos/Quetzal Editores

 

O júri do Prémio Pessoa decidiu atribuir o galardão deste ano ao cardeal José Tolentino Mendonça, prefeito do Dicastério para a Cultura e Educação, do Vaticano. “Na sua vida, ainda com muito caminho a percorrer, José Tolentino de Mendonça tem-se mantido fiel ao lema contido no título do seu mais recente livro. Tem sido um humilde e generoso Peregrino da Esperança”, justificou o júri, presidido por Francisco Pinto Balsemão, fazendo referência ao livro que recolhe as homilias do cardeal Tolentino na festa do Senhor Santo Cristo dos Milagres.

Poucas horas antes de o seu nome ser anunciado como vencedor do Pessoa 2023, o cardeal estivera na Sala do Senado da Assembleia da República a defender que é importante “escutar a sabedoria das religiões”, mas que estas devem estar em permanente “revisão crítica” dos seus “próprios percursos históricos, afastando-se de todas as formas de violência”. E acrescentou: “Falar em liberdade religiosa não é outra coisa do que falar em liberdade.”

A acta do júri assinalou que, “além das suas funções eclesiásticas e pastorais”, Tolentino Mendonça se tem “destacado no ensino universitário, no ensaio de reflexão teológica e filosófica”. Também a sua criatividade como poeta foi salientada, com o júri a considerar o cardeal português como “uma das vozes fundamentais da poesia contemporânea portuguesa e europeia” e alguém que “protagoniza uma conceção integradora, unificadora e universal da força espiritual da literatura, que lhe serve de guia desde sempre”.

Tolentino Mendonça é a segunda figura da hierarquia católica a ser distinguida pelo Prémio Pessoa, depois do também cardeal Manuel Clemente (2009), patriarca de Lisboa até Agosto passado. Mas na lista de galardoados, há outros nomes de católicos, como o historiador José Mattoso (em 1987, o primeiro a quem foi atribuído o prémio) ou o cinéfilo João Bénard da Costa (2001), por exemplo.

O prémio, iniciativa do semanário Expresso com o patrocínio da Caixa Geral de Depósitos, tem um valor de 60 mil euros, e pretende reconhecer portugueses vivos com papel significativo na vida cultural e científica do país. O valor do prémio, anunciou a editora Quetzal, que desde 2017 publica as obras do cardeal, será destinado na sua totalidade a uma instituição de solidariedade.

Para o júri, está em causa alguém que se distingue de forma “notável e diversificada” pela actividade intelectual, que “projeta uma visão do mundo norteada por uma espiritualidade que pretende acolher, compreender e transcender as dilacerações, conflitos e sofrimentos da Humanidade”.

 

Bíblia e poesia

Capa de Rezar de Olhos Abertos, um dos últimos livros de Tolentino Mendonça

O livro Peregrino da Esperança (ed. Letras Lavadas) recolhe as homilias do cardeal nas festas do Senhor Santo Cristo, nos Açores. Antes, Tolentino Mendonça publicara Metamorfose Necessária, um ensaio sobre como “reler São Paulo”. Na área da Bíblia, a sua especialidade enquanto teólogo, Tolentino Mendonça publicou ainda A Construção de Jesus, que resulta da sua tese de doutoramento, e A Leitura Infinita, livro entretanto esgotado.

A Bíblia está também presente em crónicas ou ensaios como Elogio da Sede, o texto que levou o Papa Francisco a reparar em Tolentino Mendonça e a chamá-lo para Roma. Foi com esse texto que o então padre orientou o retiro de Quaresma da Cúria Romana, em 2018. Meses depois, o Papa convidou-o para bibliotecário da Biblioteca Apostólica do Vaticano. Um ano depois, nomeava-o cardeal.

“Escolhi o tema da sede porque ele me parece indicar um património fundamental do crer. Crer não é satisfazer-se, não é ter as soluções nem ter encontrado as respostas. Crer é habitar o caminho, habitar a tensão, viver dentro da procura”, dizia Tolentino Mendonça a propósito do livro, na entrevista concedida ao autor deste texto, publicada no Público, e que o 7MARGENS reeditará nesta sexta-feira, dia em que o cardeal completa 58 anos e recebe também o doutoramento honoris causa pela Universidade de Aveiro.

“Nesse sentido, mais do que estar saciados de Deus, os crentes aprendem os benefícios da sede, a importância de viverem no desejo de Deus, na espera de Deus. Um crente não possui Deus, não o domestica com os seus rituais e as suas crenças. Ele vive na expectativa de Deus e da sua revelação que, em grande medida, é sempre surpreendente, é sempre inédita. Por isso, a sede é um lugar necessário no itinerário cristão, que precisamos de revisitar.”

 

A avó, a primeira biblioteca

José Tolentino Mendonça nasceu no Machico, na Madeira, viveu parte da infância em Angola, e manteve sempre uma admiração especial pela avó, que considerava a sua primeira biblioteca. Licenciado e doutorado em teologia, José Tolentino Mendonça foi também vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa antes de o Papa o chamar para trabalhar em Roma.

O cardeal Tolentino recebeu já vários prémios literários, vários deles por causa da poesia que publicou, na Assírio & Alvim. A Noite Abre Meus Olhos é o título da sua obra reunida. O júri destacou, na acta da decisão, que Tolentino Mendonça “protagoniza uma concepção integradora, unificadora e universal da força espiritual da literatura, que lhe serve de guia desde sempre”. E acrescenta: “Foi neste sentido que introduziu a poesia de Fernando Pessoa, entre outros escritores, nos Exercícios Espirituais do Retiro de Quaresma do Papa e da Cúria Romana, em Fevereiro de 2023.”

A sua capacidade de estabelecer pontes e não só literárias com diferentes sectores tem sido elogiada por muitos. Ainda nesta quinta-feira, depois da notícia do Prémio Pessoa, o professor universitário e tradutor Frederico Lourenço destacava, no Público, já ter ouvido elogios ao cardeal da parte de “pessoas tão diferentes como Maria João Avillez e Francisco Louçã”, além de o actual cardeal ter acompanhado e aconselhado um grupo de católicos homossexuais. (ligação para assinantes)

 

Religiões, elemento da modernidade

O cardeal José Tolentino Mendonça no colóquio sobre As Religiões, Património da Humanidade, na Assembleia da República, na quarta-feira. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

Precisamente sobre o papel das religiões como património da humanidade e fazedoras de pontes falou o cardeal, num colóquio que decorreu no Parlamento, com Augusto Santos Silva, presidente da Assembleia da República.

Ao contrário do que se pensava, que entraríamos numa “era pós-religiosa” e que as religiões estavam ultrapassadas, as religiões “são um insubstituível património de todos e que a todos diz respeito” e constituem, ao mesmo tempo, “um elemento fulcral da própria modernidade”, afirmou o cardeal durante o colóquio.

Permitir decifrar o “enigma que somos” é outro elemento que Tolentino Mendonça sublinha em relação ao património das religiões. Citando o salmo bíblico que diz, interpelando Deus ““O que é o Homem para que dele te lembres e o filho do Homem para que o visites?”, o cardeal afirmou que as religiões nos colocam “em relação com a verdade que é sempre maior do que nós próprios”.

As religiões também contribuem para afirmar a dignidade da pessoa humana”, pois “o autêntico culto a Deus conduz ao reconhecimento e ao respeito pela sacralidade da vida”. Daí a importância da “revisão crítica” dos seus “próprios percursos históricos, afastando-se de todas as formas de violência ou de sonegação dos direitos humanos”.

Finalmente, a “relação entre a experiência religiosa e a beleza” e “a experiência religiosa e o cuidado da criação”, em que “as religiões sinalizam uma ética de responsabilidade em relação ao mundo”, foram também destacadas por Tolentino Mendonça. Mas também a relação profunda e estreita entre “o grito dos pobres e a fragilidade do planeta, a preocupação real pelo meio ambiente e o amor sincero pelos seres humanos” foi destacada pelo prefeito do Dicastério do Vaticano para a Cultura, num colóquio que pode ser visto e ouvido na íntegra – incluindo as intervenções de Santos Silva – na página do Canal Parlamento.

Várias personalidades saudaram a escolha do cardeal para Prémio Pessoa. O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que convidara Tolentino Mendonça para presidir às comemorações do Dia de Portugal, em 2020, destacou “o diálogo com o mundo laico e os valores humanistas” e o resgate que Tolentino Mendonça faz das “ideias de empatia e sabedoria em tudo opostas à polarização, ao imediatismo e à estridência”.

O presidente da Conferência Episcopal, José Ornelas, bispo de Leiria-Fátima, também sublinhou o “precioso contributo para uma cultura de busca de sentido e de convergência, no mundo complexo e diversificado em que vivemos”. O patriarca de Lisboa, Rui Valério, citado pela Ecclesia, referiu o “homem de uma fé profunda e de um pensamento único”.

O musicólogo Rui Vieira Nery, que integrou o júri, afirmou à Renascença que o prémio “foi dado na dupla dimensão do poeta e do intelectual, comprometido com o debate cívico, o debate comunitário sobre valores, princípios, sobre a vida em conjunto, sobre tolerância”. E acrescentou: “O prémio é para a figura do intelectual que debate, que ouve os outros, que fundamenta as suas posições, e que participa no debate comunitário, que é um valor cada vez mais importante na sociedade extremada em que as pessoas não falam umas com as outras”.

 

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Clero de Angra pede “incremento da pastoral vocacional” assente no “testemunho do padre”

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Reconhecendo que o contexto da Igreja universal “é caracterizado pela descredibilização do clero provocada por diversas crises, pela redução do número de vocações ao sacerdócio ministerial e pela situação sociológica de individualismo e de crescente indiferença perante a questão vocacional”, os representantes do Clero diocesano de Angra (Açores) defendem o incremento da “pastoral vocacional assente na comunidade, sobretudo na família e no testemunho do padre”.

Por uma transumância outra

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Este texto do Padre Joaquim Félix corresponde à homilia do Domingo IV da Páscoa na liturgia católica – último dia da semana de oração pelas vocações – proferida nas celebrações eucarísticas das paróquias de Tabuaças (igreja das Cerdeirinhas), Vilar Chão e Eira Vedra (arciprestado de Vieira do Minho).  

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