Há poucos meses, em Espanha, foi descoberto o corpo mumificado de um idoso que morreu há 15 anos sem que ninguém desse pela sua ausência. O caso chocou pela crueza: o homem vivia sozinho, afastado da família, e só foi encontrado porque uma infiltração incomodou um vizinho. Durante uma década e meia, ninguém bateu à sua porta. Ninguém perguntou. Ninguém estranhou.
Este episódio, embora extremo, não é uma aberração, é um espelho. E o reflexo que nos devolve é inquietante: vivemos numa sociedade que normalizou o abandono dos seus velhos.
Em Portugal, onde mais de 24% da população tem 65 anos ou mais – o que representa cerca de 2,5 milhões de pessoas – o envelhecimento deixou de ser apenas uma questão demográfica, sendo já uma questão ética.
A solidão dos idosos tornou-se uma epidemia silenciosa. Muitos vivem isolados, com pensões miseráveis, em bairros onde os vizinhos já não se conhecem pelo nome. A urbanização, a mobilidade laboral e a fragmentação das famílias criaram um fosso relacional que os serviços públicos não conseguem colmatar. E quando o Estado falha, falhamos todos e o silêncio instala–se. Um silêncio que, às vezes dura 15 anos.
O caso de Antonio, o idoso espanhol, revela algo ainda mais perturbador: a invisibilidade afetiva. Após o divórcio, afastou-se dos filhos e tornou-se um homem reservado. Cumprimentava os vizinhos, mas não se deixava conhecer. A sua morte passou despercebida porque a sua vida já era, há muito, impercetível. E esta invisibilidade não se mede apenas em ausência física, mas em ausência de vínculo, de escuta, de cuidado.
Apesar da gravidade do problema, vale-nos a esperança: já se está a desenvolver no nosso país algum trabalho no combate ao isolamento e solidão dos idosos, assim como na promoção de um envelhecimento ativo e por isso são cada vez mais as iniciativas que tentam contrariar esta tendência a que ficam sujeitos os nossos Maiores. Deixo-vos dois dos exemplos de que tive conhecimento.
A Cáritas de Lisboa criou o projeto A Par e Passo, que atua nas paróquias de Benfica, Penha de França e, mais recentemente, no Sagrado Coração de Jesus. Este modelo de voluntariado regular promove visitas semanais, oficinas temáticas, passeios e uma linha telefónica de escuta ativa, cruzando séniores com jovens voluntários numa rede de proximidade.
A Fundação Aga Khan Portugal, em colaboração direta com a Câmara Municipal de Sintra, tem desenvolvido um trabalho consistente no combate à solidão e exclusão social dos idosos. Através do plano Envelhecimento Ativo, Saudável e inclusivo promove atividades intergeracionais, oficinas de memória, grupos de convívio e apoio domiciliário. Estas ações são, muitas vezes, pensadas com e para os próprios idosos, valorizando a sua autonomia, saberes e papel na comunidade. O foco está na criação de redes de confiança e pertença, onde o envelhecimento é vivido com dignidade e participação.
Para terminar não poderia deixar de partilhar convosco a pergunta perturbadora que este caso me deixou, e que é brutal pela sua simplicidade: como é possível alguém desaparecer durante 15 anos sem que ninguém sinta a sua falta? A resposta não está apenas na porta trancada de um apartamento, mas nas portas que a sociedade fecha todos os dias à empatia, à escuta e à responsabilidade coletiva.
Se não mudarmos o rumo, o futuro será feito de mais portas fechadas, mais silêncios prolongados, mais vidas esquecidas. E cada idoso esquecido será um espelho do que nos espera e naquilo em que nos formos tornando: uma sociedade que se protege do outro em vez de o proteger!
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.










