Inventário da Solidão, do João Tordo, pertence à categoria de livros que parecem perseguir-nos. Transforma o corpo num mapa, num instrumento da narrativa, e arrasta-nos para dentro daquilo que, tantas vezes, preferimos ignorar. Não é apenas uma reflexão sobre a solidão, obriga-nos a senti-la, a percorrê-la, como se cada página fosse o terreno onde vamos pondo os pés.

Uma das forças da história – a mais eficaz, na minha opinião – é precisamente a forma como Tordo usa a descrição física – o corpo, os lugares, os gestos – como ponto de partida para a nossa viagem, descrevendo mãos, ruas, objetos e movimentos, não para construir os cenários, mas para nos dar âncora antes de nos atirar mar adentro, como se dissesse: observa tudo muito bem porque é daqui que vais partir!
É preciso estrutura para partirmos à aventura num abismo interior, e talvez seja por isso que nos oferece detalhes quase táteis, transformando a introspeção numa experiência sensorial, e esta materialidade funciona como porta: a textura de uma parede, o peso de um silêncio, o corpo que se dobra ou se cansa, tudo serve para lembrar que a solidão não é uma ideia abstrata, mas algo que se sente.
Num tempo em que a literatura encontra refúgio apenas em conceitos e ideias, acho que o João Tordo consegue fazer o movimento inverso: devolve-nos ao corpo para nos levar ao espírito. E é, talvez, essa estratégia que torna Inventário da Solidão tão perturbador. Não estamos apenas a ler sobre a solidão do autor, estamos a reconhecer a nossa, porque a descrição física coloca-nos dentro da cena, dentro do pensamento, dentro da ferida.
A solidão, aqui, não é um conceito filosófico, é física: tem temperatura, tem cheiro, tem peso, e isso agarra-nos ao livro. No fundo, todos reconhecemos a sensação de carregar o corpo como quem carrega uma casa onde nem sempre queremos entrar.
Este livro pode ser um bom lembrete, daqueles que avisa que é preciso abrandar: a solidão não se pensa, vive-se. E João Tordo, que sabe tão bem que as emoções têm uma geografia própria, soube construir um inventário onde cada detalhe físico é abertura para o percurso que vamos fazendo enquanto o lemos.
No fim, não há epifanias nem revelações bombásticas, não há respostas, há apenas a constatação de que a solidão é parte do nosso inventário pessoal. Se tivermos coragem de a encarar, talvez permita descobrir que não é um inimigo, mas um território onde podemos ouvir a nossa voz.
Inventário da Solidão é um murro literário, é um livro para quem procura verdade.
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.
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