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Ibrahim Mogra: “Quero a liberdade para outros que também quero como muçulmano”

Ibrahim Mogra: “Quero a liberdade para outros que também quero como muçulmano”

by | 24 Jan 19 | Destaques, Outras Religiões, Últimas

Ibrahim Mogra na Mesquita de Lisboa: o Alcorão precisa de ser lido em cada contexto cultural; foto Maria Wilton

Deus criou os seres humanos todos diferentes, mesmo a nível religioso, diz o xeque Ibrahim Mogra, imã numa mesquita em Leicester (centro de Inglaterra, a noroeste de Londres) e secretário-geral adjunto do Conselho Muçulmano da Grã-Bretanha. Deus “criou cristãos, judeus, hindus e todos os outros”, acrescenta. De outro modo, teria criado todas as pessoas como muçulmanas. “O meu dever como imã é falar destas questões e assegurar que outros grupos religiosos têm a liberdade que eu também quero.”

Mogra, 53 anos, esteve em Lisboa por duas vezes, nos últimos meses, a convite da Comunidade Islâmica de Lisboa (CIL), no âmbito das comemorações dos 50 anos da comunidade. Em ambas as ocasiões, fez intervenções sobre o papel do islão nas sociedades contemporâneas, falando de questões como a liberdade religiosa, o respeito pelas diferenças, o terrorismo, a ecologia ou a compaixão.

Em entrevista ao 7MARGENS, o xeque Mogra acrescenta ser uma tragédia ver muçulmanos contra muçulmanos em guerras como as da Síria, Iraque ou Iémen, ou ver muçulmanos a matar outras pessoas em nome da sua fé. O Alcorão defende a preservação da vida, diz. E acredita que ainda será possível ver liberdade religiosa e igrejas cristãs a serem construídas na Arábia Saudita. Até porque, justifica, no tempo de Muhammad (Maomé), em Medina, “dava-se liberdade religiosa a todas as comunidades que lá viviam”. Por isso, todos os países muçulmanos onde há não-muçulmanos a viver deviam ter a liberdade de praticar a sua religião” e a Arábia Saudita “não devia ser excepção”.

7M – Em Março de 2018, em Lisboa, disse que Deus criou os seres humanos diferentes uns dos outros e que a todos deu dignidade, sublinhando que verdadeiros muçulmanos não deviam fazer coisas más a outras pessoas. Como explica situações de intolerância e conflito, até entre muçulmanos, como é caso da Síria, Iraque ou Iémen?

IBRAHIM MOGRA (I.M.) – É uma grande tragédia para a umma, a comunidade mundial de muçulmanos, que a nossa religião, fé e escrituras nos ensinem tão importantes morais de vida e tantas maneiras maravilhosas de respeitar e aceitar mas que nós, como seguidores, falhemos em segui-las e adoptá-las.

Hoje em dia, encontramos não apenas muçulmanos a matar não-muçulmanos mas também muçulmanos a matar muçulmanos. Claramente, os que estão envolvidos nesta matança não aprenderam as lições de praticar os ensinamentos de coexistência e de viver juntos em paz e harmonia. Para mim, a dor é dupla, na medida em que os muçulmanos estão a fazer algo que Deus proibiu e por estarem a fazê-lo a outros muçulmanos. Isto leva o mundo a pensar que o islão é violento. A religião não é violenta, mas alguns seguidores são.

7M – O que pode ser feito, tendo em conta que esse é um problema político-religioso? Será que os imãs e os xeques devem dizer aos políticos que a guerra não é a solução?

I.M. – Há muitos factores que podem contribuir para este fenómeno. A política é o mais importante, mas o poder e a fraca literacia religiosa também agravam esta incompreensão. Há que salientar que existem desentendimentos históricos que contribuem e provocam estes conflitos. Por isso, é nosso dever como xeques, imãs e professores continuar a ensinar a mensagem autentica do islão, de paz e respeito pela vida humana. Também é nosso dever interagir com os políticos, transmitindo-lhes a enorme responsabilidade que têm como líderes políticos para com todos os cidadãos.

O desafio torna-se mais difícil para quem vive nos países maioritariamente muçulmanos. Daí a nossa intervenção, nos países ocidentais, ser muito importante: como imãs e xeques a viver na Europa temos de interagir com os nossos políticos e trabalhar em políticas estrangeiras eticamente morais onde tratamos todos os países da mesma maneira.

7M – Que dificuldades mais importantes encontra nos países de maioria muçulmana?

I.M. – A situação económica de muitos desses países é muito precária: não há empregos, a pobreza é extrema, não há infraestruturas (quer devido à guerra ou porque os governos não investiram) na educação, saúde, habitação, indústria…

São problemas criados em locais onde há conflitos. Se olharmos para países subdesenvolvidos onde ainda há povos nómadas, como por exemplo no Sudão, o conflito que ocorreu, onde muçulmanos mataram outros muçulmanos, foi fortemente motivado pelo acesso a terras agrárias para o gado. Portanto, há imensos factores que podem contribuir para estes conflitos e há que trabalhar em cada um deles para que as pessoas possam viver em harmonia.

Tenho muita pena que o Reino Unido esteja a sair da União Europeia, mas consigo ver como a União Europeia e o mercado livre são uma mais valia e uma maneira de assegurar que não há conflitos e que os países se podem ajudar se estiverem a passar dificuldades económicas. O que admiro muito nos países europeus é a solução duradoura que encontraram para resolver os problemas que geraram duas guerras mundiais – e, hoje em dia, a possibilidade de isto voltar a acontecer dentro do continente é quase nula. E é isto que os países de maioria muçulmana têm de ter como exemplo a seguir: nacionalidades diversas com linguagens diversas juntarem-se e serem unidos. Até em países no Norte de África e Médio Oriente, que têm língua e religião iguais e cultura semelhante não há entendimento e união.

7M – Em Agosto, The Economist noticiava que escavações geológicas em Jubail e outros locais na costa este da Arábia Saudita revelaram a existência de uma diocese cristã chamada Beit Qatraye em 676 d.C, mais de 40 anos depois da morte do profeta Muhammad (Maomé). É possível imaginar o dia em que a Arábia Saudita dê permissão para a construção de igrejas e que haja liberdade religiosa no país?

I.M. – Espero que sim. Na constituição de Medina, preparada por Maomé, dava-se liberdade religiosa a todas as comunidades que lá viviam, bem como igual cidadania e acesso a direitos e liberdades que outros muçulmanos tinham. Se essa é a nossa herança, exemplo e padrão, significa que todos os países muçulmanos onde temos cristãos e outras comunidades não-muçulmanas a viver deviam ter direito à liberdade de viver de acordo com sua religião, ensinamentos religiosos e ter a liberdade de praticar a sua religião. A Arábia Saudita não devia ser nenhuma excepção.

7M – Não tem medo de dizer isto depois das notícias recentes do assassinato do jornalista  Jamal Khashoggi, na embaixada saudita na Turquia?

I.M. – Faz parte da minha fé, como muçulmano, entender que Deus nos criou a todos diferentes: criou cristãos, judeus, hindus e todos os outros. Criou-nos como somos porque, se ele quisesse, ter-nos-ia criado todos muçulmanos. Mas não o fez. Um dia, quando sairmos deste mundo e estivermos à sua frente, teremos de responder perante ele.

O meu dever como imã é falar destas questões e assegurar que outros grupos religiosos têm a liberdade que eu também quero. Como muçulmano a viver na Europa também quero a minha liberdade religiosa, vestindo-me e rezando como quero, passando a minha religião aos meus filhos.

Se eu for um verdadeiro crente, quero o mesmo para os outros. Se eu quero rezar numa mesquita, tenho de estar preparado para que os cristãos queiram rezar numa igreja.Claro que há o haraam, o santuário onde os não muçulmanos não são permitidos, por decreto de Deus e do Alcorão – e aí não defenderia que uma igreja fosse erguida.

Ibrahim Mogra: “Não tenho medo. Vivo numa sociedade democrática. Em países maioritariamente muçulmanos não há a liberdade para criticar o Governo.”

7M – E tem medo?

I.M. – Não tenho medo, por viver num país livre e liberal, numa sociedade democrática. Estou tão habituado e aprecio tanto essa realidade que falo contra o Governo, se for preciso, como já o fiz. Mas sei que estou seguro e que não há problema, e essa é a beleza de uma sociedade livre.

Em países maioritariamente muçulmanos não há essa liberdade para dizer estas coisas sobre os seus políticos. De tal modo que, nessa situação, alguns até já perderam as suas vidas.

7M – Referiu a iliteracia de alguns muçulmanos. Mas hoje em dia há um grande número de pensadores, professores e imãs que contextualizam os ensinamentos do Alcorão, distinguindo o que está nas escrituras como palavra sagrada e o que pode ser considerado um fruto da época em que foi escrito. Essa é também uma tarefa fundamental para o islão de hoje?

I.M. – Sem dúvida. Como muçulmanos, dizemos que o Alcorão é a revelação final de Deus e é para sempre e para toda a humanidade. Se esse é o caso, devia falar também para os europeus modernos. Caso contrário, dizermos que é um livro universal para todos os tempos é falso. Como professor do Alcorão tenho de me aventurar e utilizar todas as ciências que apoiam a teologia islâmica para apresentar o Alcorão no contexto da sociedade em que estou a viver – para que seja um livro vivo, não apenas um livro histórico, mas que ainda hoje fale às pessoas.

Há muitos investigadores a desenvolver esta tarefa e é algo que tem de ser feito, não é uma questão de escolha. Para o Alcorão ser relevante para muçulmanos a viver na Europa tem de ser explicado nesse contexto. Para ser apelativo para europeus não-muçulmanos tem de ser explicado nesse contexto.

7M – Mas esse é um trabalho difícil…

IM. – É crítico, sim. O problema, em muitos países maioritariamente muçulmanos, é que a literacia islâmica dos muçulmanos também é pobre. Há muita gente apenas culturalmente muçulmana, que nem sequer é capaz de recitar o Alcorão.

Há muito trabalho a ser feito. Se não falarmos da questão de educar os muçulmanos melhor acerca do islão, estaremos sempre diante do perigo de haver muçulmanos a interpretar as escrituras e a religião de forma errada, indo contra os seus ensinamentos. Se olharmos para o terrorismo levado a cabo por muçulmanos, eles acreditam mesmo que estão a fazer trabalho de Deus porque pensam que o Alcorão diz para matar os não-muçulmanos. Quando, na realidade, lemos o Alcorão e ele fala da preservação da vida, não nos dá permissão para matar outras pessoas.

7M – Fala de alimentar os pobres e dar alimento aos que mais precisam como actos de compaixão. Porquê?

I.M. – O meu entendimento de compaixão é não apenas ser gentil para com alguém mas também sentir o que essa pessoa está a passar e a viver. Nós, como muçulmanos, quando fazemos jejum no Ramadão não tendo bebida e comida, experimentamos o que é passar sem ambos. Ao partilhar o nosso alimento com aqueles que não têm nada para comer, apercebemo-nos do sofrimento e dor que eles passam. Por ajudar a remover essa dor, sofrimento e fome aprendemos a ter compaixão e experimentamos o sentimento de ser generoso.

7M – Tem manifestado preocupações com o ambiente e a natureza, afirmando que podemos e devemos utilizar as dádivas de Deus. Mas este uso, hoje em dia, traz muitos problemas com a sobre-exploração do planeta. O que devem os crentes fazer para utilizar a natureza sem a estragar?

I.M. – Devemos usar as dádivas de Deus com muito cuidado, de maneira a preservá-las e a não danificar o ambiente. Tem de haver moderação e devemos continuar à procura de alternativas para ir ao encontro das nossas necessidades, de modo a que não prejudiquemos o planeta mais do que já fizemos.

Somos todos ensinados a cuidar do planeta e dos seus recursos. Mas, para os muçulmanos em particular, ser excessivo e aproveitar-se em demasia é algo que é condenado. Somos desencorajados do abuso e do mau uso das dádivas que Deus nos deu. Se não tivermos moderação nesta utilização, somos comparados aos irmãos e irmãs de Satanás.

Ao mesmo tempo, é também importante reabastecer e repor na natureza aquilo que foi utilizado. Por exemplo: se tivermos que cortar uma árvore para ter papel devíamos ter o cuidado de a repor, talvez não com uma mas com duas árvores. Dessa maneira, estamos a tornar o futuro da terra sustentável.

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