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Ideias e Perplexidades

| 18/03/2021

Homossexualidade na sombrqa

“Há um amor pelo amor, o amor dá sentido à vida.” (Foto © Robert V. Ruggiero / Unsplash)

 

Que possível ligação poderá haver entre o pensamento do filósofo francês Luc Ferry nos anos 80, o documento final na V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe em 2007 e o texto da Congregação para a Doutrina da Fé, divulgado na passada segunda-feira dia 15 de março?

Permito-me uma associação de ideias, para circunstâncias de referência e de polémica, reações constantes e crescentes, nos dias de reflexão que cada vez mais nos são exigidos.

Para Luc Ferry, em vez da secular ligação por nome ou linhagem ou património, vivemos hoje um humanismo em que o sagrado se situa no humano. Na Europa estamos unidos pelo sentimento do medo, o medo da morte, da doença, da pobreza. Os discursos políticos em nome de Deus, Pátria ou Revolução, deixaram de fazer sentido, no mundo de hoje. Ninguém morre pelos valores tradicionais, mas todos damos a vida por aqueles que amamos. Por um filho, um irmão, um amigo. Morremos de amor pela família. Há um amor pelo amor, o amor dá sentido à vida. E o cristianismo não é uma obrigação nem é uma obediência. É uma escolha.

Em maio de 2007, a V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, em Aparecida, no Brasil, foi um acontecimento tão memorável para a História da Igreja como o foram os encontros de Medellín, em 1969 na Colômbia, e Puebla em 1979 no México. Numa assembleia de cerca de 300 pessoas representando mais de 20 países, Jorge Bergoglio foi nomeado presidente da comissão redatora do documento final da Conferência. Celebrou a eucaristia e a sua homilia foi aplaudida, memória guardada, neste encontro em que a renovação da Igreja foi tema de debate e reflexão. No pensamento, nos textos, nos pronunciamentos do Papa Francisco, a Misericórdia tem sido conceito e palavra clara forte e firme. A Família é a primeira escola de Misericórdia, porque se é amado e se aprende a amar, se se é perdoado aprende-se a perdoar. A Igreja não está no mundo para condenar, mas para permitir o encontro com o amor visceral que é a Misericórdia de Deus. O Cristianismo é realidade, o Evangelho é vida real.

Em Responsum ou resposta ao Dubium ou Dúvida que lhe foi apresentada, a Congregação para a Doutrina da Fé divulgou o documento já conhecido, censurado, comentado, criticado por diversos e diferentes movimentos, personalidades, alinhamentos envolvidos na atualidade da Igreja.

Com a aprovação do Papa Francisco, a possível bênção matrimonial a casais homossexuais é não só recusada, como repudiada. A castidade é exigida àqueles que pretendam ser recebidos, não deixando de ser pecadores, por não cumprirem os desígnios de Deus inscritos na Criação. Etc, etc. O documento (facilmente consultável) é radicalmente tradicionalista, exprimindo a tese de que a Igreja permanece distante da realidade atual, na afirmação do pecado, da culpa, da exclusão. Da ideia do sexo, não como ato de amor, mas como ritual do dever de procriação.

Assim, a Misericórdia não é concedida, mas exige obediência. Louvar a Deus ou invocar a sua proteção não é para todos, porque é exclusivo de santidades.

Encontro, em citação que anotei, mais uma vez a afirmação do Papa Francisco: “Os cristãos devem estar na política”, a propósito da busca do bem comum, da coincidência entre a razão política e a caridade, do ser para servir e não para se servir.

De acordo com esta afirmação, também em Portugal o Movimento Internacional Nós Somos Igreja, assumindo-se como Povo de Deus, tem invocado reformas na Igreja, através de intervenção e expressão política, na cultura, na economia, na justiça social. Em simultâneo, os católicos alemães manifestam-se por um Caminho Sinodal na Igreja Católica, para que todos possam ter voz, além da hierarquia.

Em Portugal, a Rumos Novos acaba de publicar um comunicado sobre a caminhada dura de católicos LGBTQ, escolhendo o testemunho do amor para as suas vidas e não a dependência de alguma hierarquia.

Dispenso adjetivos ou dissertação sobre o acontecimento. Assisto a um momento de perplexidade. Como se a Congregação para a Doutrina da Fé tivesse inventado um convite ao corte de relações com a Igreja, destinado a crentes no infinito amor de Deus.

 

Leonor Xavier é escritora e jornalista e integra o movimento Nós Somos Igreja – Portugal; Laranjeiras em Atenas é o seu último livro.

 

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