AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Identidade e família: a catequese de Michel Serres

| 08/07/2024

Jesus. Adoração dos Pastores.

 “A partir do nascimento de Cristo […] o parentesco deixa de se fundar na natureza, mesmo do ventre de uma mulher, mas [segue] o preceito evangélico: amai-vos uns aos outros.” Pintura: Adoração dos Pastores, Nicolas Poussin (1594–1665), Alte Pinakothek München / Wikipedia

 

Aparentemente, uns dizem ‘a família’. Ao que outros respondem, escarninhos, ‘que’ família? Aparentemente, aos que dizem ‘a família’, os progressivos só podem contrapor o apodo ‘tradicional’. E aos que argumentam com reprodução sexuada e outras coisas que se aprendem em ciências naturais, há muito que respondem as epistemologias militantes um pouco como na linguagem dos mitos da Antiguidade Clássica.

Assim, por exemplo, Platão, nas bem-humoradas palavras de François Jacob: «numa época em que a sexualidade já funcionava com bastante eficácia entre as deusas e os deuses do Olimpo, o que viria a ser a humanidade ainda estava no estádio dos Andróginos. Estes organismos esféricos estavam providos de uma cabeça com dois rostos, de quatro pés, quatro mãos, quatro orelhas e de uma dupla dose de “partes pudendas”. Deslocavam-se a toda a velocidade, rolando sobre si mesmos. O seu vigor e a sua audácia acabaram por inquietar Zeus, que decidiu cortá-los em dois […].»[1] Graças ao temor de Zeus ou à indiferente evolução, a reprodução sexuada veio a revelar-se uma vantagem adaptativa que mesmo os criacionistas entre nós não podem ignorar.

Acontece que as sexualidades militantes contemporâneas são tecnologicamente sofisticadas e não temem a contradição, pelo que aí estão a solicitar, às ciências do norte opressor – que, diga-se, não passam de mera opinião provisoriamente dominante – e seus dispositivos biomédicos e jurídicos, que confirmem e multipliquem a plasticidade sexual do sapiens sapiens, assim expandindo e complexificando o mito platónico, que queriam poder tomar por fonte do direito reprodutivo. E ao mesmo tempo que introduzem no sistema do vivo uma intencionalidade e uma deliberação que dele sempre estiveram ausentes, fazem-no em modo regressivo, reconduzindo a humanidade presente ao mundo dos percebes e outros evoluidíssimos cirrípedes[2].

Como dizem os do futebol, obter na secretaria do norte opressor o que a natureza não consente mesmo no sul global, propósito tanto mais interessante quanto se sabe que a Natureza! e o planeta A são dois tropos favoritos da massa em revolta.

Aqui chegados, quase apetece dizer, com um certo Jean Rostand: «É o homem que eu busco por meio do sapo? Em qualquer caso, o sapo interessa-me mais do que o homem!»[3]. E só se abespinhariam com tão patusca e anti-humanista declaração os ungidos que sentem ocupar o centro geométrico da Criação e os que gostariam de poder tratar a Natureza! com o desvelo de quem cuida de um animal de companhia, cientes, sempre, da sua irredimível culpa. (Lá chegaremos um dia, pois, como em tudo o mais nas sociedades industriais avançadas, a eco-ansiedade dos jovens urbanos mimados e debilmente educados só espera, para se dissipar, por um corredor inteiramente dedicado à a Natureza! numa grande superfície comercial ao virar da esquina.)

Voltando ao princípio: a família tem muito que se lhe diga, e enganar-se-ia redondamente quem pensasse que o assunto fica resolvido com caricaturas cruzadas (embora algumas, auto-infligidas, devessem ficar indelevelmente tatuadas na fronte dos mestres proselitistas que as proferem). Com efeito, se a antropologia política dos progressivos convive bem com uma multiculturalidade que aceita a subalternidade cívica das mulheres de uma parte significativa do globo, e mesmo das ruas e casas das nossas cidades – e a sua ciência natural cria e impõe as nomenclaturas bizarras que as convertem em corpos com vagina –, já a convicção forte dos ultramontanos se resume a páginas escolhidas de livro único da instrução primária de 1958 e a sua relação com a liberdade na família sempre foi tudo menos clara. Acrescendo que a antropologia que professam é portadora de uma preferência eurocêntrica que torna literalmente invisíveis outras opressões.

Não é esse, entende Michel Serres, o sentido da lição evangélica. Em Relire le relié, sua derradeira obra, publicada postumamente, o filósofo convida-nos a reflectir sobre o modelo de família inscrito na mensagem cristã. Se admitirmos, diz ele[4], que há apenas três formas de vínculo familiar – natural, legal e adoptiva – verificamos que na «Sagrada Família, o pai, José, não é o pai natural, nem Jesus o filho natural. Por outro lado, é impossível que a mãe não seja a mãe, uma vez que todos saímos de um ventre feminino.»

E aqui está a Boa Nova: “A partir do nascimento de Cristo […] o parentesco deixa de se fundar na natureza, mesmo do ventre de uma mulher, mas [segue] o preceito evangélico: amai-vos uns aos outros. Quer sejais pai e mãe, filha e filho naturais e legais, não fareis parte da família cristã a não ser se, além disso, vos escolherdes, individualmente, por amor.” Trata-se, em sentido próprio, de adopção, isto é, da substituição do vínculo natural por uma «escolha, individual e livre, por amor.» Esta será a justificação final e definitiva dos laços de paternidade, maternidade e filiação.

Deslocados da natureza para a «supra-natureza», tais laços não suprimem de modo algum a sucessão natural das gerações, muito menos o lugar central da mãe: «a maternidade assemelha-se às leis universais, que não admitem qualquer excepção: não se conhece criança sem mãe.» Acontece apenas que, no plano simbólico, supressão do vínculo natural não indica apenas a auto-doação do deus trinitário, pela existência terrena, morte e ressurreição da Segunda Pessoa. Através dela, a família deixa de fundar-se na natureza e, sobrelevando o vínculo de sangue, revela «o cristianismo com desconstrutor dos laços de parentesco de sangue, dito natural. “… filhos de Deus. Esses não nasceram do sangue, nem de uma vontade da carne, nem de uma vontade de homem, mas de Deus.” (João, 1, 12-13).»

É do alcance ético último dessa escolha, dessa adopção, que importa cuidar. É isso que importa esclarecer, quando aceitamos uma fundação transcendente da realidade viva em que se opera o trânsito da existência humana.

 

[1] Le jeu des possibles. Essai sur la diversité du vivant, Fayard, 1981, p. 21
[2] Ver Lucy Cooke, Vous avez dit sexe faible, Nouvel Obs,11-17 avril 2024.
[3]  Carnet d’un biologiste, Éditions Stock, 1959, p. 31
[4] Michel Serres (1930-2019), Relire le relié, Librairie Arthème Fayard/Pluriel, 2021. Todas as citações que se seguem são extraídas de pp. 170-173.

 

João Santos é professor.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Jesus salva-nos de nós mesmos

[Entre Margens]

Jesus salva-nos de nós mesmos novidade

Uma das mais profundas obras de salvação realizadas por Jesus consiste em libertar-nos não apenas do pecado e da morte, mas também das falsas imagens que construímos acerca de Deus. Muitas vezes, consciente ou inconscientemente, projectamos sobre Deus os nossos medos, inseguranças e formas humanas de exercer o poder. [Texto de Vítor Rafael].

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba

Ano jubilar-800 anos da morte (8)

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba novidade

O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia. Este é o oitavo texto da série.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This