Identidade e Pandemia

| 23 Mar 21

Nas Margens da Filosofia (XXXI)

Quando à noite me sento no toucador para tirar a maquilhagem pergunto-me se fui eu que envelheci ou o espelho do quarto. Deve ter sido o espelho: estes olhos deixaram de me pertencer, esta cara não é minha, estas rugas e estas nódoas na pele serão manchas da idade ou o ácido a corroer o vidro.

António Lobo Antunes [1]

 

Luísa Ribeiro Ferreira

Luísa Ribeiro Ferreira na Casa de Espinosa, em Amsterdão, com a Ética na mão: “A nossa identidade pessoal e colectiva se alterou com este confinamento imposto pelas circunstâncias.” Foto cedida pela autora. 

 

Há alguns dias, estava eu na caixa de um supermercado a pagar as despesas, mascarada, como é de preceito, quando fui abordada por um desconhecido que me perguntou: “A senhora viu o filme Titanic?” Embora surpreendida com a questão insólita respondi-lhe afirmativamente. E ele continuou: “É que é muito parecida com a personagem que no fim mostra uma medalha e se apresenta como sobrevivente.” Confesso que já não me lembrava da cena e chegando a casa fui rever o filme. O agrado de ser comparada com uma estrela de cinema imediatamente se esfumou, pois verifiquei que a actriz que encarnava a dita mulher era quase centenária e acusava bem o peso dos anos.

Este episódio fez-me pensar no problema da identidade, um tema que preocupou filósofos de todos os tempos. Revisitando as minhas aulas de Filosofia Moderna, recordei o que Locke e Hume escreveram sobre esse tema e como, ainda hoje, eles nos ajudam a pensá-lo. No seu Ensaio sobre o Entendimento Humano Locke formulou o princípio de individuação escrevendo que duas coisas do mesmo género não podem estar ao mesmo tempo num mesmo lugar, tal como nenhum indivíduo pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. E porque a nossa identidade é algo que se mantém, o filósofo considera-nos capazes de assumir o passado e de prever o futuro. Ao admitir que um ser humano pode sofrer diferentes experiências sem que a sua identidade pessoal se altere, Locke não deixa de se interrogar sobre a possibilidade de determinadas vivências nos alterarem de tal modo que já não podemos dizer que somos a mesma pessoa. Mas no entanto conclui: “o que quer que possua a consciência de acções presentes e passadas é a mesma pessoa à qual ambas pertencem”, sustentando que “a identidade pessoal consiste na identidade da consciência.”[2]

Anos mais tarde, David Hume retomou o problema e questionou de novo a identidade pessoal. Consciente de que não temos ao longo da vida uma impressão constante e invariável do nosso eu, concluiu que somos um conjunto de diferentes percepções que se sucedem umas às outras. [3] E assim, comparou a mente humana a uma espécie de teatro onde as representações vão fluindo. A noção que temos da nossa identidade resulta dessa infinidade de ideias que perpassam na nossa mente, ideias para as quais ele tenta encontrar leis, sublinhando o papel determinante que a imaginação e a memória desempenham na construção do sujeito.

No nosso tempo, Peter Singer levou-nos a repensar o conceito de identidade e das implicações do mesmo quanto ao problema da responsabilidade criminal. Aquando do julgamento de um guarda de Auschwitz, acusado de crimes perpetrados sobre prisioneiros setenta anos após eles terem sido cometidos, Singer considerou que este não deveria ser condenado pois já não era o mesmo homem e que a vida exemplar que desde então levara, numa pacata cidadezinha da Alemanha, o teria redimido do seu passado.

Considerando agora o tema da identidade numa perspectiva colectiva, interrogamo-nos quanto às suas alterações na situação de uma pandemia como a que actualmente vivemos. E uma das maiores diferenças que imediatamente constatamos reside no predomínio do digital, com todas as mudanças no que respeita às relações, sejam elas profissionais ou meramente de convívio, e de amizade. O Zoom entrou com força nas nossas vidas, faz parte do nosso quotidiano e dificilmente será substituído embora possa diminuir de intensidade. As redes sociais tornaram-se indispensáveis e quem não opine no Instagram, Facebook ou WhatsApp permanecerá socialmente morto. As relações afectivas descorporizaram-se e habituámo-nos a falar uns aos outros por acenos e cotoveladas, perdendo-se o prazer do toque e do abraço. Agravou-se a dependência dos telejornais pois é através deles que tomamos consciência do número de mortos e de infectados – notícias que determinam os nossos planos de trabalho, os nossos projectos de vida, o nosso relacionamento com familiares e amigos.

Indubitavelmente que a pandemia também trouxe alterações positivas às nossas identidades pessoais e colectivas. A ideia de um homem dono e senhor da natureza foi substituída pela necessidade de cuidar do planeta e pela consciência das nossas obrigações enquanto habitantes do mesmo. O desafio diário para ultrapassar o modo habitual de lidar com os nossos medos intensificou a criatividade, levou a contactos diferentes com os amigos que apenas vemos online, manteve acesa a nossa sede de leitura partilhando livros e pedindo a filhos e netos que nos descarreguem músicas. Os passeios ao ar livre foram substituídos por caminhadas em casa onde continuamente percorremos as mesmas divisões.

No meio de todo este tempo de angústia e de stress aprendemos o valor das pequenas coisas, dos gestos reconfortantes, da solidariedade entre vizinhos, da humildade de pedir ajuda.

Inegavelmente que a nossa identidade pessoal e colectiva se alterou com este confinamento imposto pelas circunstâncias. Mas não podemos dizer que tenha sido sempre para pior.

 

P.S. – A fotografia que tem acompanhado os textos que escrevo para o 7MARGENS corresponde ao meu eu de alguns anos atrás. A pandemia tornou-me consciente da sua desactualização. Por uma questão de honestidade intelectual e estética, a partir de hoje vou substituí-la por outra do ano passado.

 

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora catedrática de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa

 

Notas
[1] António Lobo Antunes , O Esplendor de Portugal, Lisboa, Círculo de Leitores,  1998, p. 51.
[2] John Locke, Ensaio sobre o Entendimento Humano, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1999, vol.1, p. 452.
[3] David Hume, Tratado da Natureza Humana, livro I, VI, “Da identidade Pessoal”, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2001, pgs. 299 e segs.

 

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