Ídolo

| 29 Nov 2020

Igreja de São Martinho, em Biberach an der Riß. Foto © Helena Araújo

 

“Portanto, não construireis #ídolos, não levantareis imagem nem erguereis colunas ou pedras com imagens gravadas para adorar, pois Eu Sou Yahweh, vosso Deus.”

Não sei quem escreveu o livro do Levítico, e gostava de saber, para lhe deitar as culpas retroactivas do fundamentalismo que se abateu sobre vastas áreas da Europa no século XVI, e que levou simpáticos cristãos a destruir inúmeros objectos de arte sacra porque viam neles uma blasfémia. A culpa será do autor do Levítico (e outros textos que tais), e do Martinho Lutero que traduziu a Bíblia para alemão sem cuidar de que quem lesse pudesse também entender, e do Guttenberg que inventou a máquina diabólica que permitiu divulgar sabe-se lá que textos para as multidões (os Zuckerbergs da época eram os donos das máquinas de impressão), e – concedo – antes de mais da Igreja de Roma que não soube entender os sinais dos tempos e ganhar juízo antes de ser demasiado tarde. De modo que num dia estava o Martinho Lutero a pregar as suas teses na porta da igreja de Wittenberg, e logo a seguir os povos estavam a aderir em massa de forma mais ou menos voluntária ao que ele dizia, liam aquela treta dos ídolos e – zimbas! – invadiam igrejas para destruir esculturas e pinturas e tudo o que lhes aparecesse à frente.
Foi o que aconteceu em Biberach an der Riß, uma cidade da Suábia: no dia 29 de Junho de 1531, a riquíssima igreja de São Martinho, que em duzentos anos de existência já acumulara um belo espólio daquilo a que se viria a chamar arte sacra medieval, foi invadida por uma populaça inteiramente convencida da sua razão, que agarrou nas esculturas de Niklaus Weckmann e nas pinturas de Martin Schongauer e as lançou para uma fogueira que ardia em frente à porta. Alguns católicos ainda perguntaram se podiam levar para casa aquela tralha sem préstimo, mas a turba, implacável: que não, que era pecado. Fogo.
(Embrulhem esta, talibãs! Pensavam que eram originais quando destruíram os budas afegãos? Ora, ora, tinham de se levantar bem mais cedo… Muito antes de vocês já os papas tinham destruído estátuas e bronzes dos ídolos da antiguidade para aproveitar o material, já os protestantes tinham andado a limpar as igrejas de ídolos dos católicos, já espanhóis e portugueses se preparavam para converter os povos “descobertos” destruindo os ídolos das suas culturas de modo a fazer-lhes espaço no coração para a verdadeira fé.)
Até aqui, Verão de 1531, a história da igreja de São Martinho em Biberach é tragicamente igual à de muitas outras. Em breve, contudo, tudo iria seguir um caminho muito sui generis. É que os protestantes, que constituíam a esmagadora maioria da população da cidade, não se lembraram que os católicos eram os donos das terras à volta. E quem diz terra, diz direitos de passagem. De modo que estes começaram a fazer finca-pé: “se não temos igreja, vocês não têm estradas. É triste, mas é a vida.”
Acabaram por fazer a reconciliação possível, e começaram a usar a igreja a meias. A uma hora era o serviço religioso protestante, a outra hora era o católico. Como quem escolhe ir à missa das nove ou à missa das onze, porque gosta mais do coro que canta numa ou – sabe-se lá – tem um projecto de namorico que frequenta a outra. De facto, já antes faziam o mesmo, porque a população não mudou, apenas se dividiu em duas interpretações diferentes do Levítico. E assim ficaram – até hoje. Em meados do século XVIII decidiram que a igreja gótica precisava de se modernizar ao gosto do tempo, e deram-lhe uma valente demão de barroco no interior. O tecto da nave principal, que é usada por ambas as confissões, tem motivos aceites pelos dois grupos. Já o tecto do coro, reservado apenas aos católicos, exibe uma alegoria da igreja a ser coroada pelo papa.
Ainda hoje a igreja é usada por protestantes e católicos: o púlpito do pastor de um lado, os confessionários do outro, duas sacristias, espaços comuns e espaços reservados a cada confissão, direitos e deveres perfeitamente definidos. Dizem que é uma igreja “simultânea”, um caso único no mundo.
Quando a visitei, mostraram-me o lado protestante e o católico, riram-se do pormenor de a própria troca das lâmpadas ser da responsabilidade do respectivo proprietário, e asseguraram – com religioso bairrismo – que o lado católico está sempre mais asseado que o protestante.
Seguindo este link, é possível ver imagens das magníficas pinturas barrocas, e também de uma escultura medieval que foi poupada à destruição de 1531. Na própria igreja há um carrinho com um espelho deitado, que as pessoas podem levar ao longo da nave principal para irem vendo as pinturas do tecto sem terem de dobrar o pescoço para trás. O vidro estava limpíssimo: calculo que pertença ao lado católico, cujos verdadeiros ídolos intemporais são – como é do conhecimento de todos os que já foram vítimas da Kehrwoche suábia – a vassoura, o balde e a esfregona…
Igreja de São Martinho, Biberach an der Riß

Igreja de São Martinho, Biberach an der Riß. Foto © Helena Araújo

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